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'O fujimorismo nunca foi embora': vitória de Keiko marca guinada à direita da América Latina?

Sputnik Brasil 26/06/2026
'O fujimorismo nunca foi embora': vitória de Keiko marca guinada à direita da América Latina?
Foto: © AP Photo / Guadalupe Pardo

Especialistas ouvidos pelo Mundioka avaliam que eleição peruana reforça avanço conservador na América Latina, reacende debates sobre o legado fujimorista e pode redefinir a posição do país na disputa EUA x China.

Após semanas de apuração, as eleições do Peru terminaram elegendo Keiko Fujimori como a próxima presidente do país, em um pleito recheado de acusações de interferência, inclusive estrangeira. O candidato à presidência do Peru Roberto Sánchez denunciou "fraude" na contagem dos votos e não reconheceu a vitória de Fujimori, convocando seus apoiadores a uma "resistência patriótica".

Tendo passado por uma instabilidade política crônica marcada por recorrentes impeachments – até mesmo uma tentativa de autogolpe em 2025 – o país espera que esse ciclo eleitoral termine essa tradição. Contudo, o que parece ser é mais um capítulo de turbulência no país sul-americano.

Ao Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, Lucas Berti, mestrando em ciência política no Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), avaliou que a vitória de Keiko Fujimori representa o retorno de uma força política que, segundo ele, carrega um histórico autoritário no país.

Também pesquisador do Observatório Político Sul-Americano (OPSA) e do Grupo de Relações Internacionais e Sul Global (Grisul), lembrou que esse movimento esteve associado à ascensão de Alberto Fujimori, pai de Keiko e ex-ditador do país, que governou o Peru entre 1990 e 2000 em um regime marcado por medidas autoritárias.

Para Berti, o fujimorismo volta ao poder como uma corrente que se apresenta como uma resposta ao combate à corrupção, mas que, na sua avaliação, possui características autoritárias. "É um movimento disfarçado de combate à corrupção, mas que, na verdade, é o oposto disso", declarou.

Sobre os questionamentos feitos pelo candidato derrotado, Roberto Sánchez, o pesquisador explicou que a contestação do resultado ocorre após um processo eleitoral já marcado por incertezas. Como conta, a disputa desde o primeiro turno foi apertada e controversa, com uma diferença pequena entre os candidatos que avançaram para a fase final.

Berti destacou que a margem entre Fujimori e Sánchez ficou próxima de 40 mil votos, com a candidata alcançando vantagem quando considerados também os votos do exterior.

"O Roberto Sánchez ganhou no território peruano, mas a Keiko virou e levou, possivelmente, a eleição por causa dos votos do exterior."

O pesquisador ressaltou que a principal alegação de Sánchez envolve a recontagem de atas eleitorais, especialmente as vindas de fora do país. Como o Peru utiliza cédulas de papel, o candidato argumenta que existe maior possibilidade de questionamentos durante a apuração.

No entanto, Berti ponderou que não há evidências concretas de fraude no processo eleitoral. "Claro que eu não estou dizendo que houve ou não houve fraude. Essa é a alegação que o Roberto Sánchez utiliza", afirmou. Para ele, a contestação também segue uma tradição recente da própria Keiko Fujimori, que questionou resultados em eleições anteriores em que saiu derrotada.

"É algo que a própria Keiko fez nas últimas três eleições que ela perdeu. Então, agora, finalmente, em uma eleição que possivelmente ela leve, quem está perdendo começou a dar esse choro também."

Geopoliticamente falando, a vitória de Fujimori representa, em sua avaliação, uma mudança no equilíbrio ideológico da América Latina, com o fortalecimento de governos e forças políticas mais alinhadas à direita, especialmente na América do Sul.

O resultado peruano ocorre em um momento de avanço de discursos conservadores na região, principalmente ligados à segurança pública, ao combate ao narcotráfico e ao enfrentamento do chamado "narcoterrorismo". Embora Keiko Fujimori não represente exatamente o discurso anti-establishment por carregar o sobrenome de uma tradicional família política peruana, sua vitória faz parte de um movimento regional mais amplo.

"Estamos em um momento em que o discurso antiestablishment, antissistema está voltando com muita força", afirmou Berti. Ele citou como exemplo o avanço de lideranças e forças de direita em diferentes países sul-americanos, como Argentina, Chile, Bolívia e Colômbia.

Para ele, esse movimento também representa uma aproximação maior com os Estados Unidos, não apenas em termos comerciais, mas também ideológicos. Em destaque, essa aproximação pode alterar as relações políticas dentro da América do Sul e aumentar o isolamento de governos com posições ideológicas diferentes, como o Brasil.

Questionado sobre o fato de Keiko Fujimori carregar o legado político do pai, Alberto Fujimori, condenado por corrupção e violações de direitos humanos, Berti afirmou que o peso do sobrenome continua sendo um fator relevante na política peruana. Parte do eleitorado busca referências familiares e símbolos já conhecidos. "O eleitor busca um sobrenome, busca uma verdade que já está meio estabelecida", explicou.

Berti comparou o cenário peruano com a política brasileira, afirmando que a força de sobrenomes tradicionais também influencia eleições no Brasil. "É essa necessidade da memória, um sobrenome que traga, que acenda esse movimento que há muitos anos é forte no Peru. É a mesma coisa aqui no Brasil", disse, se referindo à família Bolsonaro e ao pré-candidato e senador, Flávio Bolsonaro.

Para Ghaio Nicodemos, pesquisador de pós-doutorado em ciência política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ), coordenador adjunto do Núcleo de Estudos de Atores e Agendas de Política Externa (NEAAPE) e pesquisador do Observatório Político Sul-Americano (OPSA), a vitória de Keiko Fujimori também pode provocar mudanças na inserção internacional do Peru, especialmente no equilíbrio entre Estados Unidos e China na América Latina.

Segundo Nicodemos, Fujimori tende a adotar uma política externa mais próxima dos Estados Unidos, com uma postura econômica menos autônoma em comparação com governos anteriores. "Keiko tem uma projeção muito voltada para o Oceano Pacífico, mas principalmente para os Estados Unidos", afirmou o pesquisador, destacando também a relação histórica do fujimorismo com o Japão.

Apesar dessa aproximação, Nicodemos ressalta que o Peru mantém uma forte dependência econômica da China, que é um dos principais destinos das exportações peruanas. Por isso, avalia que uma mudança de alinhamento não deve ocorrer de forma simples.

"Não vai ser um alinhamento fácil de ser conduzido."

Assim, a relação entre Peru, Estados Unidos e China será um dos principais pontos de atenção do novo governo. Uma aproximação maior com Washington pode gerar dificuldades nas negociações com Pequim, especialmente em uma região que se tornou estratégica na disputa de influência entre as duas potências.

Nicodemos explicou ainda que a política externa peruana costuma funcionar a partir do conceito de "cordas separadas", em que diferentes áreas do governo seguem orientações distintas. Enquanto o Ministério do Comércio Exterior tende a adotar uma postura mais pragmática, o Ministério das Relações Exteriores costuma ter uma abordagem mais ideológica. Dessa maneira, os nomes escolhidos para essas áreas serão determinantes para definir os rumos da política externa de Fujimori.

Sobre o retorno do fujimorismo ao poder, o pesquisador afirmou que o movimento político nunca desapareceu completamente do Peru.

"O fujimorismo nunca foi embora. A Keiko foi a candidatura mais competitiva nas últimas quatro eleições do Peru."

Na avaliação de Nicodemos, uma das principais diferenças entre Keiko e seu pai está no perfil internacional. Enquanto o governo de Alberto Fujimori tinha uma agenda mais voltada à segurança interna e ao combate ao Sendero Luminoso, Keiko apresenta uma postura mais alinhada a uma agenda liberal econômica e internacionalista.

Segundo o pesquisador, o novo governo pode ampliar o espaço de influência de atores econômicos nas decisões públicas, em um país que já enfrenta fragilidades sociais e institucionais. Ele destacou que a pandemia evidenciou problemas na infraestrutura de saúde e assistência social do Peru, além de uma crise de confiança nas instituições.

Nicodemos avalia que esse cenário pode aumentar tensões sociais durante o mandato. Para ele, movimentos camponeses e grupos ligados às populações indígenas devem ser setores críticos ao projeto político de Keiko Fujimori, em razão das diferenças históricas entre regiões urbanas e rurais do país.


Por Sputinik Brasil