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Quando a geopolítica entra em campo: o que representaria um Irã x EUA na Copa do Mundo?

Sputnik Brasil 25/06/2026
Quando a geopolítica entra em campo: o que representaria um Irã x EUA na Copa do Mundo?
Foto: © AP Photo / Vahid Salemi

A relação tensa entre Estados Unidos e Irã, marcada por conflitos indiretos e diretos desde a Revolução Iraniana, vem impactando de maneira significativa a Copa do Mundo, com a anfitriã do evento tratando com hostilidade a delegação iraniana, levando muitos a imaginarem como seria um confronto entre os dois países no torneio.

A Copa do Mundo da FIFA de 2026 chamou a atenção, até mesmo antes do início do torneio, sobre como atletas e delegações estão sendo tratados pelas políticas migratórias dos Estados Unidos. Em especial, ganhou destaque o tratamento hostil com a seleção do Irã, impedida de permanecer nos EUA fora dos dias de jogos.

No fim de fevereiro, o país norte-americano, em conjunto com Israel, atacou a nação persa em uma guerra que abalou o Oriente Médio e a economia mundial. Após meses de conflito, os países estão perto de um tratado de paz, com muitas concessões pelos estadunidenses indicando uma derrota dos EUA para o Irã.

Com a possibilidade das equipes se encontrarem na fase eliminatória – ou de uma eventual campanha do Irã superior à da seleção anfitriã – que narrativas poderiam se formar com o sucesso dos iranianos ou estadunidenses?

Rivalidade na geopolítica, companheiros no esporte?

À Sputnik Brasil, Marcelo Carreiro, doutor, professor e coordenador do Laboratório de Estudos do Tempo Presente da Universidade Estadual do Paraná (Unespar), explica que, embora a relação entre Estados Unidos e Irã seja marcada por décadas de hostilidade desde a Revolução Iraniana de 1979 — com episódios de confronto indireto, como a Operação Praying Mantis, em 1988, e a inclusão do país no chamado "Eixo do Mal" pelo governo de George W. Bush, em 2002 — essa rivalidade histórica não costuma se reproduzir dentro do campo esportivo.

Carreiro lembra do duelo entre as equipes na Copa do Mundo de 1998, quando havia o receio de que a tensão política entre os dois países contaminasse a partida. O que ocorreu, porém, foi o oposto: a seleção iraniana e estadunidense trocaram gentilezas e posaram juntas para fotos, em um contexto internacional de, segundo o pesquisador, "distensão" entre os dois governos.

Ele destaca ainda que essa separação entre rivalidade política e disputa esportiva também apareceu em outras modalidades, como no basquete durante os Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2021, e em partidas da Liga das Nações de Vôlei, nas quais atletas dos dois países não reproduziram em quadra a mesma hostilidade existente entre seus governos.

Contudo, com o quadro atual, Carreiro enxerga como "impensável" uma nova troca de cordialidade entre atletas, ressaltando as homenagens da equipe iraniana às 84 meninas estudantes assassinadas no início da Guerra no Irã, com um míssil Tomahawk atingindo uma escola em Minab. Até agora, os Estados Unidos negam autoria do ataque, embora perícia indique que a escola foi atingida por um ataque norte-americano.

Papel do futebol

O pesquisador aponta que o tratamento que a delegação iraniana recebeu não é exclusivo: seleções de outros países – especificamente do Sul-Global – também foram recebidas com hostilidade por autoridades norte-americanas, como as revistas da seleção do Uruguai e Uzbequistão, o interrogatório de um jogador iraquiano após entrar no país e a entrada negada ao árbitro somali Omar Artan, mesmo com visto. "Tudo com o ensurdecedor silêncio da FIFA", conclui.

Para José Carlos Marques, docente do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Unesp e líder do Grupo de Estudos em Comunicação sobre Esporte e Futebol (Gecef), gestos dentro do campo, muitas vezes, contrastam com a situação geopolítica, reforçando o papel do esporte como espaço de convivência entre nações rivais.

No entanto, "esse tipo de contexto [o atual conflito entre os dois países] tende a transformar detalhes da partida em elementos de leitura política mais ampla", afirma. A eventual troca de gentilezas em uma partida entre Irã e EUA, uma vitória de qualquer um dos lados ou mesmo campanhas com desempenhos distintos no torneio podem ultrapassar o âmbito esportivo, contribuindo para a construção de narrativas sobre prestígio e projeção internacional de Estados Unidos e Irã.

No caso das hostilidades que os EUA vêm impondo à delegação iraniana, Marques vê a falta de posicionamento da entidade futebolística como preocupante, ressaltando que o anúncio dos países-sedes desta edição da Copa já tinha sido feito em meados de 2018. Embora a FIFA alegue que "não se envolve nos processos de imigração" dos países, o especialista pontua que a entidade deveria atuar para garantir condições mínimas às delegações participantes.

"A FIFA deveria fazer algum tipo de intervenção no sentido de criar uma espécie de passaporte diplomático, um visto de entrada temporário, porque estamos falando de uma competição internacional."

Carreiro complementa lembrando que, na Copa de 2014, a entidade interferiu em muitas decisões da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) — como na definição do calendário de preparação da Seleção Brasileira e na organização das concentrações da equipe — e na legislação brasileira — como na alteração da Lei Geral da Copa, incluindo a liberação da venda de bebidas alcoólicas nos estádios durante o torneio.

Simbologia em campo

No caso de um eventual confronto direto, uma possível derrota dos EUA — ou mesmo uma eventual eliminação dos Estados Unidos da Copa — não deve afetar significativamente o comportamento do presidente Donald Trump, acredita Marques. Para ele, o líder norte-americano tende a buscar protagonismo independentemente do desempenho da seleção ou do vencedor do torneio, devido ao seu perfil de forte exposição midiática.

O pesquisador avalia que Trump provavelmente tentaria se associar ao momento de celebração da competição, qualquer que seja o campeão, aproveitando a visibilidade do evento. Segundo ele, a postura do presidente seria diferente apenas diante de questões envolvendo o Irã, por causa do peso político da rivalidade entre os dois países.

Sobre a possibilidade de a seleção campeã evitar dividir o momento da entrega da taça com o republicano, o especialista considera que uma atitude desse tipo dependeria de uma forte conscientização política dos jogadores e da delegação. Para ele, atualmente seria difícil imaginar uma equipe adotando uma postura de confronto direto em uma cerimônia de premiação.

"Eu não consigo ver esse espírito hoje em nenhuma das seleções mais favoritas ao título, não imagino ver alguém que vai dizer: 'Não, aqui você não aparece, porque a comemoração é nossa'. Acho que teria que haver uma aceitação coletiva, não adianta ser a iniciativa de uma pessoa", afirma.

O pesquisador cita como exemplo que grandes nomes do futebol internacional, como Lionel Messi e Cristiano Ronaldo, participaram de eventos na Casa Branca, indicando que mesmo atletas de enorme projeção raramente adotam posturas públicas de enfrentamento político nesse tipo de situação. Marques lembra ainda o caso de Sócrates, ex-jogador da seleção brasileira e do Corinthians, como um exemplo de atleta com maior engajamento político.

"Talvez o Sócrates tivesse essa conscientização. Mas eu não vejo hoje nenhum jogador com esse tipo de perfil."

Ao comentar sobre atletas com posicionamentos políticos mais conhecidos, como Kylian Mbappé, Marques pondera que uma eventual decisão dependeria do contexto. "Se a Copa fosse na França e aparecesse alguém da extrema-direita francesa, eu acho que isso poderia acontecer. Mas, sendo uma Copa dos Estados Unidos, também envolve questões diplomáticas", afirma.


Por Sputinik Brasil