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Governo Fujimori deve enfrentar fortes conflitos de poder, diz especialista
Analistas avaliam que recusa de Roberto Sánchez em reconhecer resultado pode ampliar instabilidade política no Peru
A decisão do candidato Roberto Sánchez de não reconhecer a vitória de Keiko Fujimori pode favorecer uma “onda de violência” e prolongar a instabilidade política no Peru, avaliou o analista Martín Manco à Sputnik. Para o cientista político José Carlos Requena, Sánchez pode tentar consolidar-se como líder do campo “anti-Fujimori”.
Embora os órgãos eleitorais ainda não tenham proclamado oficialmente o resultado, a vantagem de Keiko Fujimori na contagem de votos já é considerada insuperável, o que a coloca como provável próxima presidente do país sul-americano. Ainda assim, seu adversário no segundo turno, Roberto Sánchez, reafirmou que não reconhecerá a vitória da candidata.
Em publicação nas redes sociais, Sánchez reiterou a posição de seu partido, Juntos por el Perú, de que os votos dos peruanos no exterior devem ser anulados, sob o argumento de que houve mudanças regulamentares no procedimento de envio e transmissão desses resultados.
Em entrevista à Sputnik, o analista político peruano José Carlos Requena afirmou que, apesar de a proclamação oficial ainda estar pendente, Keiko Fujimori deve tomar posse como próxima presidente do Peru em 28 de julho, uma vez que os recursos apresentados por Sánchez não devem prosperar nos órgãos eleitorais do país.
Para Requena, a posição de Sánchez é “mais simbólica” do que realista. Ainda assim, ele considera improvável que o líder recue nos próximos dias, já que esse papel pode fortalecer sua imagem como principal nome da oposição.
“É inegável que Sánchez será a oposição mais difícil que Keiko Fujimori enfrentará. Acredito que isso poderá consolidar o núcleo de votos no qual ele baseou seu crescimento rumo ao segundo turno e ajudá-lo a mirar as próximas eleições, em 2031 ou até antes”, avaliou o analista político.
Também ouvido pela Sputnik, o analista Martín Manco classificou as ações de Sánchez como “uma atitude grave”, com potencial de afetar desde a economia até a governabilidade do futuro governo, em um país que sai de uma década marcada por instabilidade política.
Segundo Manco, o candidato do Juntos por el Perú tenta recorrer à “retórica patriótica” e levantar as bandeiras do nacionalismo para estimular uma reação popular contra a posse de Fujimori. Embora considere improvável que “grandes massas tomem as ruas”, ele avalia que os apelos à mobilização podem resultar em bloqueios de estradas no sul do país — região onde Sánchez tem maior apoio — e em protestos em Lima, agravando as tensões.
“Haverá pessoas que sairão às ruas para protestar e, provavelmente, haverá feridos, porque a ordem interna terá de ser restaurada. Não será fácil governar um país sob uma onda de violência”, alertou Manco. “Isso é imprevisível: podemos estar brandindo nitroglicerina ou uma bala do século XVIII que não explode.”
Por ora, Sánchez convocou uma manifestação para 27 de junho, definida por ele como uma “vigília democrática e pacífica”. O candidato também afirmou que não está “incitando uma insurreição civil”, mas defendendo os direitos democráticos de seu partido.
Requena, por sua vez, demonstrou mais ceticismo quanto à capacidade de Sánchez de mobilizar apoio. Ainda assim, afirmou que o candidato “poderia se radicalizar mais em sua postura anti-Fujimori” e concentrar o apoio de um eleitorado “antiestablishment e anticlasse política tradicional”.
Esse perfil, explicou o analista, poderia aproximá-lo de um eleitorado “descontente com o espectro político de esquerda”, transformando-o em figura representativa para “renegados de todas as correntes políticas”.
Um “conflito de poderes”
Na avaliação de Requena, o maior desafio para o futuro governo de Keiko Fujimori não estará necessariamente nas ruas, mas no Congresso. Nesse cenário, Sánchez também deve desempenhar papel relevante como líder da oposição. Já o partido governista, Força Popular, pode enfrentar dificuldades para construir acordos com outras legendas que, à primeira vista, parecem aliadas, como a Renovação Popular, liderada pelo ex-prefeito de Lima, Rafael López Aliaga.
“Embora Keiko Fujimori tenha um terço dos votos no Senado e quase um terço na Câmara dos Deputados, estando protegida de consequências extremas, não podemos descartar moções de censura ou o bloqueio de determinadas leis”, explicou.
Manco prevê que o mandato de Fujimori poderá ser marcado por “fortes conflitos de poder e interesses”, alimentados por um “ressentimento” entre o partido governista e a oposição, o que poderia transformar o Peru “em uma bomba-relógio”.
“Acredito que Fujimori governará com um gosto amargo na boca por não ter sido eleita por 15 anos, e a esquerda peruana estará na oposição com um gosto amargo por ter visto seus candidatos serem afastados do poder”, afirmou o especialista.
Segundo Manco, Fujimori deveria considerar que sua vitória eleitoral “foi mínima, uma vitória de Pirro”, além de levar em conta o contexto de um país profundamente dividido. Diante desse quadro, o analista manifestou receio de que a divisão política leve o Peru “a repetir os mesmos erros dos últimos 20 anos de constante troca de presidentes”.
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