Geral

Entre crise humanitária e o futebol: haitianos no Brasil celebram retorno histórico à Copa do Mundo

Sputnik Brasil 19/06/2026
Entre crise humanitária e o futebol: haitianos no Brasil celebram retorno histórico à Copa do Mundo
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

O Haiti voltou à Copa do Mundo depois de 52 anos de ausência. A classificação da geração atual não vinha desde 1974, quando haitianos derrotaram a Nicarágua por 2 a 0 na rodada final das eliminatórias da Concacaf.

Para imigrantes do país caribenho espalhados pelo Brasil todo, o momento carrega o peso de uma nação que há anos tenta se manter de pé em meio a uma crise humanitária.

Em São Paulo vivem 33.265 haitianos registrados, o maior contingente entre todos os estados brasileiros, à frente de Santa Catarina (30.630), e do Paraná (22.443), segundo dados do relatório OBMigra/Acnur de 2025.

A maior concentração da população haitiana no Brasil ocorre na Região Sul e em São Paulo, onde os imigrantes se fixaram sobretudo em função de oportunidades econômicas.

O DJ Taylor Ralph, haitiano que mora em Campinas (SP), entende que a participação da seleção caribenha é, antes de tudo, uma mensagem. "Essa participação é mais do que futebol, é mais do que entretenimento. É uma mensagem para o mundo, para os haitianos, dizendo que há esperança, que esse país ainda pode dar certo."

Apenas nos primeiros meses de 2026, cerca de 2,3 mil pessoas foram assassinadas no Haiti, segundo dados divulgados pela Organização das Nações Unidas (ONU). O país havia encerrado 2024 com um dos piores índices de homicídios do planeta.

Gangues realizam sequestros e extorsões, e mais da metade da população, cerca de 6,4 milhões de pessoas, vive sob risco de ser morta, sofrer violência sexual, ser recrutada à força, ser deslocada ou passar fome, conforme a ONU.

A crise se agravou após o assassinato do presidente Jovenel Moïse, em 2021.

As consequências para o futebol foram diretas: a seleção haitiana foi obrigada a disputar todas as suas partidas das eliminatórias fora do país, em campo neutro, em razão da crise de segurança. A onda de violência isolou o Haiti do restante do mundo, inclusive cortando acessos a portos e aeroportos, tornando inviável a realização de jogos em solo haitiano.

Taylor Ralph destacou que o feito tem uma camada ainda mais densa quando se considera o estado de destruição institucional do país. "O Haiti não tem uma estrutura hoje porque todas foram danificadas", disse o DJ, que acompanha de perto a realidade do país de origem mesmo à distância.

Kerby Romelus, enfermeiro haitiano que vive em São Paulo há nove anos, define como "surreal" ver sua seleção de volta ao Mundial. "A minha geração achava que era algo que nunca ia acontecer. E aconteceu."

O Haiti caiu justamente no Grupo C da Copa do Mundo, ao lado do Brasil, país onde Kerby construiu sua vida nos últimos anos. Os países disputam a fase de grupos também com Marrocos e Escócia.

"Infelizmente a gente caiu no grupo do Brasil. Mas são 52 anos — é algo que eu nem sei se vou viver de novo", disse Romelus. Mesmo que sua prioridade seja o Haiti, ele comenta que "minha segunda torcida vai ser sempre pelo Brasil".

"O Brasil é potência, é referência mundial no futebol. Faz mais de 20 anos que o Brasil não ganha uma Copa do Mundo. A festa vai ser grande — tanto aqui, quanto no Haiti, afinal o Haiti também é o grande fã do Brasil. Quando o Brasil ganha, a gente faz festa, a gente coloca banda na rua", diz Taylor.

Do lado esportivo, apesar de derrota por 1 a 0 para a Escócia na primeira rodada, a seleção haitiana deixou uma impressão positiva, tendo mais finalizações e maior posse de bola que os adversários, sinal de que Les Grenadiers chegam ao Mundial para além do papel de figurante.

O Brasil, por sua vez, estreou no Grupo C contra o Marrocos, em empate de 1 a 1, e enfrenta a Escócia na terceira rodada, em 24 de junho. A campanha da Seleção Brasileira, que busca o hexacampeonato sob o comando do técnico italiano Carlo Ancelotti, começou com a pressão habitual de um país que há duas décadas aguarda o retorno ao topo do futebol mundial.