Geral
Dólar cai 0,20% no dia, mas fecha semana em alta de 2,04% com Fed mais duro
Moeda norte-americana encerrou a sexta-feira a R$ 5,1648, em sessão de baixa liquidez por feriado nos EUA; no mês, avanço é de 2,42%.
O dólar recuou frente ao real nesta sexta-feira, 19, em linha com o comportamento predominante da moeda norte-americana no exterior, embora algumas divisas emergentes pares da brasileira tenham registrado depreciação moderada. Sem indicadores domésticos relevantes e com liquidez reduzida — diante da ausência de negócios nas bolsas de Nova York e no mercado de Treasuries por causa do feriado nos Estados Unidos —, investidores fizeram ajustes de posições no mercado local de câmbio.
O dólar à vista encerrou o dia em baixa de 0,20%, cotado a R$ 5,1648, depois de tocar a mínima de R$ 5,1332. Declarações do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), negando a intenção de alterar os pisos constitucionais da saúde e da educação e a vinculação do salário mínimo, podem ter contribuído para reduzir as perdas da moeda à tarde. Operadores, porém, ressaltam que o giro fraco pode provocar distorções nas cotações.
Com a queda desta sexta-feira, houve apenas uma devolução modesta da alta de 1,32% registrada na quinta-feira, sob impacto do discurso mais duro do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) e do desconforto com a comunicação do Comitê de Política Monetária (Copom).
A moeda encerrou a semana com valorização de 2,04% no mercado local, elevando os ganhos acumulados em junho para 2,42%, após avanço de 1,82% em maio. No ano, as perdas, que chegaram a superar dois dígitos no início de maio, quando a taxa de câmbio rondava R$ 4,90, agora estão em 5,91%.
O gestor de fundos multimercados da AZ Quest, Eduardo Aun, avalia que o tom duro do Fed, reforçado pelo compromisso firme do novo presidente, Kevin Warsh, com a estabilidade de preços, é um vetor adicional de fortalecimento da moeda norte-americana. Segundo ele, o dólar já vinha em trajetória ascendente em meio ao renovado otimismo com ativos dos Estados Unidos nos últimos meses, especialmente por causa dos investimentos em inteligência artificial.
“Eu concordo com a leitura do mercado de alta de juros nos EUA neste ano, porque a atividade permanece resiliente, com impulso fiscal e investimentos das empresas de tecnologia. É provável ainda que a taxa de desemprego caia, o que vai aumentar a pressão inflacionária”, afirma Aun. Para o gestor, o acordo de ampliação do cessar-fogo no Oriente Médio tende a elevar o apetite por ativos americanos e favorece ainda mais o dólar. “É um ambiente bem mais desafiador para o real.”
Referência para o comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY operava em alta de 0,11% às 17h, aos 100,734 pontos, após atingir máxima de 101,127 pontos, o maior patamar em mais de um ano. O Dollar Index acumula ganhos de 1,93% na semana e de 1,81% em junho. Em 2026, avança 2,49%.
Na avaliação do Goldman Sachs, o tom mais duro do Fed é mais relevante para a dinâmica global do dólar do que o cessar-fogo no Oriente Médio, uma vez que a resolução do conflito já era, em certa medida, esperada. Para o banco, a mudança de postura do Fed representa a substituição de um fator positivo para o dólar — a aversão ao risco e a busca por proteção com a eclosão da guerra — por outro “ainda mais poderoso”.
No caso do real, o Goldman aponta o aumento da instabilidade política, com a proximidade das eleições de outubro, como possível indutor da “deterioração da relação entre carry e volatilidade”. O banco acrescenta que a postura mais “dovish” do Copom nesta semana “aumenta os riscos de menor apoio do banco central” para a moeda “em um período de maior volatilidade”.
Aun, da AZ Quest, ressalta que o real passou a ter desempenho inferior ao de seus pares desde o chamado Flávio Day 2.0, em 13 de maio, quando o site The Intercept Brasil revelou a relação de proximidade entre Flávio Bolsonaro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Master. Ele pondera que a questão eleitoral parecia ter efeitos limitados sobre os preços dos ativos domésticos porque havia grande otimismo dos investidores estrangeiros em relação ao Brasil.
“O mercado já está preocupado com a eleição e precificando uma chance grande de Lula ser reeleito, o que traz preocupação com o futuro da política econômica e aumenta o prêmio de risco. Já vemos isso mais na curva de juros futuros”, afirma Aun. Segundo ele, o elevado carrego ainda dá algum suporte ao real, apesar do aumento dos ruídos locais e da tendência de fortalecimento do dólar no exterior.
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