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Em disputa polarizada, voto independente pode ser decisivo
Especialistas avaliam que, embora menor, parcela de eleitores sem alinhamento fixo segue estratégica em eleições apertadas
Embora representem uma parcela menor do eleitorado, indecisos e independentes continuam no centro das estratégias de campanha em um cenário político cada vez mais polarizado.
Neste ciclo eleitoral de 2026, ainda que pesquisas indiquem vantagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), a tendência é de uma nova disputa acirrada. Nesse contexto, um grupo pode ser decisivo para o resultado: o eleitorado independente, formado por pessoas que não se identificam necessariamente com a esquerda ou com a direita.
Na eleição presidencial de 2022, o placar foi o mais apertado da história brasileira. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi eleito com 50,83% dos votos válidos, enquanto o então presidente Jair Bolsonaro (PL) obteve 49,17%.
A diferença de 1,66 ponto percentual foi ainda menor que a registrada em 2014, quando Dilma Rousseff (PT) derrotou Aécio Neves (PSDB) por 51,64% a 48,36%. À época, o tucano contestou o resultado.
Jorge Almeida, professor de Ciência Política e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal da Bahia (UFBA), afirma à Sputnik Brasil que a disputa eleitoral no país está fortemente marcada pela polarização.
Segundo ele, o comportamento do voto é determinado por dois fatores principais: valores e racionalidade pragmática. O primeiro envolve aspectos políticos, ideológicos, morais, religiosos e identitários. O segundo está relacionado à avaliação dos resultados concretos produzidos por governos e candidatos.
O pesquisador avalia que, desde meados da década passada, houve fortalecimento do voto orientado por valores. Com isso, muitos eleitores passaram a julgar os resultados da gestão pública a partir de suas preferências políticas, e não o contrário. Em outras palavras, uma parcela significativa do eleitorado não vota necessariamente a favor de um candidato, mas contra seu adversário. É o chamado voto de rejeição.
Esse processo reduziu o espaço do eleitorado verdadeiramente indeciso, mas também tornou esse grupo ainda mais relevante em disputas apertadas.
Para o cientista político Rodrigo Prando, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, muitos indecisos ainda não se sentem representados pelos principais nomes colocados na disputa ou sequer conhecem suficientemente as alternativas apresentadas. Por isso, esse segmento pode ter papel decisivo no resultado eleitoral.
Prando avalia que a comunicação dos candidatos deve priorizar justamente os eleitores que ainda não definiram o voto, uma vez que apoiadores fiéis e adversários mais convictos tendem a ser menos suscetíveis à persuasão.
“Há que se prestar muita atenção nessa fatia do eleitorado brasileiro”, afirma à Sputnik Brasil.
Para conquistar esses votos, mais voltados a resultados do que à ideologia, os candidatos precisam apresentar uma visão de mundo clara, propostas concretas e capacidade de criar identificação com o eleitor, afirma o cientista político.
O especialista observa que as pesquisas indicam cansaço crescente tanto em relação ao lulismo quanto ao bolsonarismo. Ele pondera, no entanto, que a elevada rejeição aos dois campos acaba reforçando a própria polarização.
Esse ambiente dificulta debates programáticos e favorece uma lógica de confronto permanente, potencializada pelas redes sociais e pela formação de bolhas políticas cada vez mais fechadas.
“É como se os polos fossem tão poderosos que acabam espremendo aqueles que estão no meio. [...] Qualquer moderado acaba perdendo espaço.”
Para Prando, a principal consequência desse quadro é a dificuldade de consolidação de candidaturas de centro ou de uma eventual terceira via. Segundo ele, a força política acumulada por Lula e pelo bolsonarismo continua comprimindo alternativas da direita, mesmo diante de sinais de desgaste do presidente e do senador.
Almeida faz avaliação semelhante. Para ele, as chances de crescimento de outros pré-candidatos da direita, como o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema e o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado, permanecem limitadas enquanto houver um candidato do bolsonarismo na disputa.
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