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Novo relatório da ONU aponta caminhos para enfrentar crise global de moradia, que já impacta 3 bilhões de pessoas

Alexia Saraiva(Affiliate) 18/06/2026
Novo relatório da ONU aponta caminhos para enfrentar crise global de moradia, que já impacta 3 bilhões de pessoas
Relatório Mundial das Cidades 2026 reforça a necessidade de ampliar o acesso à moradia adequada e aos serviços urbanos essenciais, um desafio compartilhado por cidades em todo o mundo, incluindo o Brasil - Foto: © Aléxia Saraiva/ONU-Habitat

O Relatório Mundial das Cidades 2026, Crise global de moradia: caminhos para ação, mostra que a falta de moradias adequadas e acessíveis já impacta cerca de 3 bilhões de pessoas em todo o mundo. O documento aponta que superar a crise global de moradia exige mais investimentos, políticas públicas robustas e ações coordenadas entre diferentes setores.

Cerca de 3 bilhões de pessoas — quase 40% da população mundial — estão inseridas em uma crise de moradia adequada, caracterizada por preços inacessíveis, escassez de habitação, acomodações de baixa qualidade e falta de acesso a serviços urbanos essenciais, como água e saneamento, segundo novo relatório das Nações Unidas.

Estima-se que as cidades absorvam 2 bilhões de habitantes adicionais até 2050, intensificando a pressão sobre sistemas habitacionais já sobrecarregados pela rápida urbanização, pelo aumento dos preços dos terrenos, pela desigualdade e pelos impactos da mudança do clima. Projeta-se que eventos climáticos extremos destruam 167 milhões de moradias até 2040. Em 2023, as consequências de catástrofes climáticas causaram perdas de US$ 280 bilhões, a maior parte delas sem cobertura de seguro.

Até o final de 2024, 123,2 milhões de pessoas haviam sido deslocadas à força, o dobro do registrado uma década antes. Além disso, 64 milhões de pessoas foram removidas de assentamentos informais ao longo dos últimos 20 anos. Muitas dessas pessoas deslocadas migram para cidades na condição de refugiados ou residentes de campos de deslocados, frequentemente instalando-se em moradias inadequadas ou inseguras, onde continuam expostas ao risco de novos deslocamentos. Em países em desenvolvimento, a moradia informal representa até 80% das construções residenciais.

Os preços dos imóveis aumentaram mais rápido do que a renda na maior parte das regiões do mundo. Globalmente, a relação entre preço da moradia e renda passou de 9,3 em 2010 para 11,2 em 2023, atingindo 16,8 na Ásia Central e Meridional. Em 2023, apenas 25,5% dos solicitantes conseguiram obter um financiamento habitacional em nível global. Em algumas regiões da África Subsaariana, esse índice caiu para apenas 1%, refletindo mercados hipotecários ainda em estágio inicial de desenvolvimento. 

As violações dos direitos humanos estão profundamente ligadas à crise global de moradia, uma vez que muitos países falham em prevenir deslocamentos, despejos forçados, insegurança na posse da terra, situação de rua e condições inadequadas de moradia.

No mundo todo, 44% dos domicílios destinam mais de 30% de sua renda para moradia. A falta de acessibilidade dos aluguéis é mais grave na África Subsaariana, onde 55% de inquilinos e inquilinas enfrentam sobrecarga financeira. Os recursos financeiros internos, em todos os níveis de governo — nacional, regional e local — precisam ser direcionados de forma mais eficaz para subsídios voltados tanto à demanda quanto à oferta, a fim de reduzir essas lacunas de acessibilidade.

O Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos (ONU-Habitat), cujo mandato é dedicado à habitação sustentável e ao desenvolvimento urbano, conclui no Relatório Mundial das Cidades 2026 - Crise global de moradia: caminhos para ação, que a crise é multidimensional e sustentada por fatores estruturais. O estudo demonstra que seus efeitos são agravados por mudanças demográficas, pressões ambientais e transformações nas condições econômicas, ampliando desigualdades, pobreza e vulnerabilidade aos impactos das mudanças do clima.

“É necessário um novo contrato social para a moradia adequada e acessível — um senso de responsabilidade compartilhada entre governos, setor privado e comunidades para mobilizar investimentos e alinhar as funções sociais e econômicas da habitação”, destaca a subsecretária geral das Nações Unidas e diretora-executiva do ONU-Habitat, Anacláudia Rossbach.

“Embora a crise da moradia tenha dimensões globais, suas soluções passam pelos territórios. No Brasil, é fundamental fortalecer políticas urbanas que reconheçam as diferentes realidades das cidades e promovam o acesso à moradia adequada como parte do direito à cidade - e temos muitos bons exemplos disso no país”, destaca a chefe do escritório do ONU-Habitat para o Brasil, Rayne Ferretti Moraes.

O relatório também conclui que a crise de moradia pode ser solucionada. Indicando que é preciso parar de tratar favelas e assentamentos informais como um problema sem solução, reconhecendo que a informalidade tem sido a regra, e não a exceção, em muitas cidades. As políticas públicas devem, portanto, abandonar abordagens baseadas na erradicação e exclusão, passando a aproveitar o potencial da informalidade para melhorar meios de subsistência e enfrentar a crise habitacional.
WCR_2.jpgPara enfrentar uma crise habitacional multidimensional, é preciso combinar conhecimento técnico e atuação territorial. O ONU-Habitat trabalha em parceria com governos e comunidades para desenvolver soluções urbanas sustentáveis e inclusivas. Foto: © Flávia Scholz/ONU-Habitat

O documento destaca ainda que os mecanismos de financiamento doméstico, em todos os níveis de governo, precisam ser ampliados e melhor direcionados, por meio de subsídios eficazes tanto para a demanda quanto para a oferta. Recomenda-se uma expansão substancial dos investimentos públicos em habitação social e acessível, ao mesmo tempo em que se criam incentivos para investimentos privados que ampliem a oferta habitacional, especialmente no segmento de moradias populares.

A participação comunitária e a coprodução, com atenção especial à inclusão de grupos historicamente excluídos, são apontadas como elementos centrais para a garantia de moradia adequada, tanto na formulação de políticas quanto na implementação de projetos. Esses projetos devem ser concebidos e executados em conjunto com moradores e moradoras, assegurando o envolvimento das comunidades antes e depois da ocupação das habitações.

O relatório foi publicado durante a 13ª sessão do Fórum Urbano Mundial (WUF), principal conferência global sobre desenvolvimento urbano sustentável, que aconteceu em Baku, no Azerbaijão, entre os dias 17 e 22 de maio.

Sobre o ONU-Habitat - O ONU-Habitat é a entidade das Nações Unidas responsável pela promoção da urbanização sustentável. Com programas em mais de 90 países, apoia formuladores de políticas públicas e comunidades na construção de cidades e assentamentos social e ambientalmente sustentáveis. A organização promove transformações urbanas por meio da produção de conhecimento, assessoria em políticas públicas, assistência técnica e ações colaborativas.