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Europa precisa rever dependência dos EUA e diversificar alianças, dizem analistas

Pesquisa aponta queda recorde na confiança dos europeus em Washington; especialistas avaliam que o foco dos EUA se desloca para a China e o Indo-Pacífico

Sputnik Brasil 18/06/2026
Europa precisa rever dependência dos EUA e diversificar alianças, dizem analistas
Analistas avaliam queda da confiança europeia nos EUA e avanço de novas alianças globais - Foto: © AP Photo / Virginia Mayo

Analistas ouvidos pela Sputnik Brasil avaliam que a Europa passou a ser vista pelo governo dos Estados Unidos como um parceiro de menor relevância estratégica. Para eles, se o continente não diversificar suas alianças, poderá ficar cada vez mais isolado no novo cenário internacional.

A confiança dos europeus nos Estados Unidos atravessa uma baixa sem precedentes. Segundo pesquisa publicada pelo Conselho Europeu de Relações Exteriores, apenas 11% dos entrevistados em 15 países da Europa consideram os EUA um aliado confiável. O índice é o menor já registrado pelo levantamento e reflete a crescente desconfiança em Washington como parceiro de segurança.

À Sputnik Brasil, Vinicius Modolo Teixeira, professor de geopolítica da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e analista de organizações militares, afirma que o desgaste na relação transatlântica é antigo e acompanha a trajetória da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), marco da aliança entre EUA e Europa.

"A relação de interesses é muitas vezes conflitante, então essa relação tem enfrentado desgastes ao longo dos 80 anos da existência da OTAN. No entanto, esses últimos anos tiveram um problema significativamente maior, que é uma reorganização dos interesses dos Estados Unidos e o conflito da Ucrânia", avalia.

Segundo Teixeira, com a crise na Ucrânia, os países europeus passaram a assumir responsabilidades maiores, tanto em relação ao acolhimento de imigrantes que fogem do conflito quanto ao envio de armas, equipamentos e recursos financeiros para Kiev. Como reflexo, a situação afetou a governabilidade em países europeus, cuja situação, segundo ele, se viu obrigadas a “encarar uma guerra que não compartilha como sendo deles”.

"Outra questão é que os EUA têm a China como foco. Então, a geopolítica em nível global tem saído desse eixo do Atlântico Norte e se reorientado para o Indo-Pacífico. Nesse sentido, a Europa tem perdido, sim, a centralidade que tinha dentro da geopolítica estadunidense e, relativamente, perdeu importância em relação ao cenário do Indo-Pacífico", acrescenta.

Para o professor, o realinhamento da geoestratégia global em direção ao Indo-Pacífico tem a Austrália como novo ponto focal dos investimentos em defesa voltadas à contenção da China. Esse movimento, avaliado, pode aprofundar o “desacoplamento” entre Europa e Estados Unidos.

“Há essas pesares, esses problemas, e o interesse estadunidense, deixando os problemas para os europeus e se reorientando para a contenção chinesa, pode ser o grande significado dessa estratégia geopolítica global nos próximos anos”, afirma.

A prestígio dos EUA na Europa foi consolidada na Segunda Guerra Mundial, quando os europeus passaram a ver os norte-americanos como “salvadores da barbárie nazista”, observa Williams Gonçalves, professor de relações internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU).

Gonçalves destaca que o Plano Marshall foi decisivo para a recuperação europeia no pós-guerra e teve como contrapartida as declarações da hegemonia norte-americana. Segundo ele, somado à cooperação econômica, a cooperação militar ajudou aos EUA importando uma política de contenção da União Soviética durante a Guerra Fria.

"O medo do comunismo, o medo da URSS, foi explorado à exaustão pelos EUA, em todos os sentidos, do modo que os europeus, que já temiam a Rússia, a URSS e o comunismo, ficaram muito ligados aos EUA. Mas a Guerra Fria acabou, esse medo perdendo foi sentido e outras questões de interesse nacional foram surgindo", analisa.

Na avaliação de Gonçalves, a queda da reputação norte-americana começou com o fim da Guerra Fria e se acentuou durante o governo de Donald Trump.

“Desde o seu primeiro mandato, Trump, tanto nos gestos e nas atitudes quanto no discurso, é muito duro, muito antipático e sempre tratou os europeus de maneira rude, sobretudo no que diz respeito à participação dos europeus na OTAN e à contribuição europeia para arcar com os custos da aliança”, afirma.

Para o pesquisador, a tutela dos Estados Unidos sobre a Europa chegou ao fim, e o atual governo norte-americano trata os europeus como “ultrapassados”.

“Trata como bonecas antigas, velhas, que têm que ir para o antiquário, que não têm mais serventia, são inadequadas no novo mundo”, compara.

Segundo Gonçalves, nas gestões de Barack Obama e Joe Biden, a relação com a Europa ainda faz parte da estratégia norte-americana, tanto pelo fato de a OTAN ser compradora de armas dos EUA quanto pelo interesse em evitar uma aproximação entre Alemanha e Rússia que poderia resultar em uma potência euroasiática.

"Com Donald Trump, o foco é a China mesmo. A Eurásia não tem nenhuma importância e, portanto, a OTAN deixou de ter importância, os europeus deixaram de ter importância. Do ponto de vista do pensamento estratégico, é isso: uma aliança onerosa para os EUA", diz.

Para Charles Pennaforte, professor de geopolítica e relações internacionais da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), uma pesquisa que apontou queda recorde na confiança dos europeus em relação aos EUA reflete, sobretudo, a política da administração Trump para a Europa. Ele observa que, tanto no primeiro mandato quanto no atual, Trump deu declarações de menosprezo ao continente. A atuação norte-americana no Oriente Médio, principalmente no apoio a Israel, também pesa na percepção europeia.

“Na verdade, é uma percepção específica à política do governo de Donald Trump”, afirma.

Pennaforte avalia que, se o governo Trump mantiver a linha isolacionista do “America First”, a Europa tenderá a perder ainda mais espaço na agenda dos Estados Unidos.

"A Europa tem que passar agora a ver o mundo de outra maneira, com uma visão não 'americocêntrica', vamos dizer assim, e olhar para a realidade. Os tempos estão mudando e, se não diversificarem as parcerias, eles ficarão cada vez mais isolados", analisa.

O professor acrescenta que a relevância da Europa, do ponto de vista geopolítico e económico, é hoje “quase nula”. Enquanto a China amplia sua influência por meio de parcerias econômicas e capacidade industrial, afirma, “a Europa segue atrelada a um passado que não existe mais”.

"Na visão americana de Trump, de certa maneira, é mais ou menos isso: o que eles agregam para os EUA como parceria? Nada. Eles ficam mais atrelados. São os filhos que o pai, no caso Washington, tem que sustentar, e trazem muito pouca coisa do ponto de vista econômico e econômico", avalia.

Sai aliança atlântica, entra no BRICS

Teixeira considera a atuação do BRICS um fator importante para a reorganização das relações internacionais dos países europeus. Ele destaca que diversos países da Europa dependem do comércio, da energia e das exportações para nações que integram o grupo. Para o analista, esses parceiros têm mostrado mais resultados que os EUA e geraram menos problemas que a aliança norte-americana.

"Nesse sentido, é importante, sim, a ascensão do BRICS no cenário internacional, representando uma mudança da organização do sistema internacional e da multipolaridade. Isso tem afetado essa relação do Atlântico Norte e levou a compensar a proximidade entre europeus e EUA", afirma.

A avaliação é compartilhada por Gonçalves. Para ele, o fim da Guerra Fria trouxe uma nova configuração ao sistema internacional, com o surgimento de novas potências e uma nova distribuição de poder. Um dos fatores determinantes dessa mudança para a ascensão da China, que se consolida como potência capaz de rivalizar com os EUA, proporciona uma nova ordem internacional e agrega outros Estados em torno de si, sem recorrer às armas, mas com base no comércio e em acordos.

"É um desenvolvimento pacífico, agregador, e, portanto, isso torna o sistema internacional mais complexo. Também torna prevista a comparação da superpotência norte-americana com a grande potência chinesa e seus aliados do BRICS. Então, não há a menor dúvida de que o surgimento do BRICS, liderado pela China, contribui bastante para a mudança de visão do mundo e, consequentemente, do papel dos EUA nesse mundo", afirma.

Pennaforte, por sua vez, avalia que o BRICS “mostra a possibilidade de uma outra perspectiva”, uma alternativa observada pelos governos e pela elite europeia.

"A Europa e os EUA, na minha concepção, representam uma ordem em desagregação. A tendência é que os dois percam, como já vêm perdendo, influência, projeção geopolítica e soft power, enquanto o BRICS, inevitavelmente, ganhará mais projeção em função de sua capacidade econômica, dos líderes que atuam no grupo, principalmente a China, e da entrada de novos países", afirma.

Segundo ele, esse processo faz parte da mudança de ordem vivenciada pelo mundo no século 21. Ao final do século, avaliação, EUA e países europeus “serão lembrados como países que tiveram sua importância, mas o cenário mudou”.

“Novos países surgiram e novos arranjos geopolíticos e econômicos foram feitos até lá. É um processo natural. No século 19, tivemos a Inglaterra como potência global; depois, esse papel passou para os EUA. Agora, estamos vivendo essa transformação, que provavelmente virá da Ásia e do BRICS”, conclui o analista.

Por Sputnik Brasil