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Com G7 mais político, Lula tenta influenciar decisões em defesa do diálogo
Analistas ouvidos pela Sputnik Brasil avaliam a participação do presidente brasileiro na cúpula, marcada por encontros bilaterais e debates sobre clima, ONU e conflitos internacionais.
Analistas repercutiram a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Évian, na França, onde foi realizada a cúpula anual do G7. O petista participou de encontros bilaterais e buscou intensificar discussões sobre a reforma de organismos internacionais.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva encerrou, nesta quarta-feira (17), sua participação na cúpula anual do G7, em Évian, na França. Como convidado, o Brasil atuou no evento com a intenção de promover o diálogo sobre temas como mudanças climáticas e reforma de organizações internacionais, entre elas a Organização das Nações Unidas (ONU).
Lula concluiu sua décima participação em cúpulas do fórum com uma entrevista coletiva na qual, entre outros pontos, afirmou que o vácuo deixado por Estados Unidos e União Europeia em regiões emergentes abriu espaço para que a China se apresentasse como possível parceira.
O presidente brasileiro também minimizou a ausência de uma reunião bilateral com Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, a quem classificou como uma pessoa que “fala muito e ouve pouco”. Lula ainda comentou a possibilidade de o empresário Elon Musk se tornar trilionário: “Não é normal”.
Em entrevista à Sputnik Brasil, analistas avaliaram a presença de Lula no fórum, que, segundo eles, está cada vez mais marcado por posicionamentos políticos e menos por sua vocação econômica original, ligada às nações mais industrializadas da época de sua criação.
Gustavo Glodes Blum, pesquisador de pós-doutorado no Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), afirma que, desde a saída da Rússia do grupo, o caráter político do G7 ganhou força, permitindo que outros fóruns assumissem maior relevância no debate econômico internacional.
“À medida que o G7 foi se tornando cada vez mais um fórum de construção de uma identidade política desses países que fazem parte do grupo, as declarações se tornaram mais contundentes, limitando a possibilidade do Brasil de se colocar em uma posição intermediária ou não se comprometer com determinados temas.”
Para Blum, que está em Genebra, na Suíça, como pesquisador convidado do Geneva Graduate Institute, é importante observar em que condição o Brasil participa das reuniões do G7. Como convidado, Lula não tem poder de decisão, mas busca exercer influência por meio do discurso.
“A participação enquanto convidado, de fato, busca influenciar, mas não tem capacidade de decisão. Então, à medida em que essas reuniões mais restritas vão se tornando mais a regra, o que resta ao Brasil, de uma forma ou de outra, é tentar influenciar os resultados, ainda que não em uma posição de um dos Estados-membros que têm capacidade de definir como que esses processos vão acontecer.”
Carolina Pavese, professora de relações internacionais do Instituto Mauá de Tecnologia, avalia que o G7 tem se afastado da condição de fórum capaz de concentrar discussões relevantes em sua cúpula. Para a especialista, o encontro anual tornou-se “um rito diplomático, um protocolo da agenda” dos presidentes e primeiros-ministros do grupo.
“É um encontro elitista, no qual se reforça uma perspectiva muito autocentrada dessas grandes potências em relação à identificação que fazem das prioridades globais e também em relação à identificação de como endereçar essas prioridades. E as respostas tendem — e nesse G7 se confirmou isso novamente — a ficar muito longe do que de fato se precisa para atender às necessidades de todos os outros países que não estão ali presentes.”
Para Pavese, a principal importância do G7 para o Brasil está nos encontros bilaterais, nos quais o país tem a oportunidade de “reiterar os seus votos de interesse, de credibilidade, de aposta nessas relações com essas lideranças mais próximas”. Segundo ela, é no diálogo direto que surgem oportunidades para tratar de temas sensíveis, como barreiras comerciais impostas pela União Europeia às exportações brasileiras.
“O objetivo do G7 deveria ser um fórum mais informal, um encontro de um petit comitê, o que facilita as deliberações também. Se tem muita gente, fica difícil você ir a fundo nas negociações ou na exposição das suas agendas, e o G7 deveria ser esse espaço, mas, quando se omite a discussão de pontos críticos e de questões em que não há um consenso, como é a questão do protecionismo, ele perde um pouco a sua função.”
Afastada dos EUA, Ucrânia busca diálogo até com Brasil
Sem um apoio de Trump semelhante ao que recebia de Joe Biden, Vladimir Zelensky tenta ampliar seu leque de contatos com líderes internacionais. O mandatário ucraniano encontrou Lula nesta quarta-feira, em uma reunião bilateral para discutir a guerra na Ucrânia.
Blum afirma que esse tema não ocupa posição central na agenda do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, que prefere manter uma postura de neutralidade e defender o diálogo entre as nações.
“O Brasil não tem interesse [em discutir a operação], como já esteve interessado, por exemplo, na questão iraniana, de se apresentar como um mediador. Não é esse o interesse do Brasil.”
Para outros países do G7, como os Estados Unidos, é importante que sejam encontrados rapidamente termos para um cessar-fogo. Já a União Europeia, na avaliação do pesquisador, enxerga o conflito também como uma oportunidade de reativar a indústria bélica do continente e impulsionar sua economia.
“A recuperação do complexo industrial militar europeu é uma solução macroeconômica para essa estagnação. Então, seriam mais empregos gerados, seria um fator multiplicador da economia importante, tanto que vários países, como a Alemanha, a própria Suíça, estão rediscutindo o serviço militar, a obrigatoriedade do serviço militar. Então, colocar esses jovens que não têm emprego na indústria militar ou no próprio Exército geraria uma resposta multiplicadora econômica, em termos macroeconômicos, muito boa para resolver essa estagnação.”
Na visão de Blum, o apoio europeu à Ucrânia não se limita a uma questão ideológica, mas envolve interesses econômicos em diferentes frentes.
“A entrada de uma Ucrânia produtora de trigo na União Europeia facilitaria questões como a inflação dos alimentos, principalmente, que é uma questão que tem pressionado bastante o continente ultimamente. Mas também, se a gente for pragmático e cínico, a guerra na Ucrânia representa para a Europa a desculpa perfeita para recuperar o seu complexo industrial militar.”
‘Não existe filantropia no sistema internacional’
Durante o discurso após a conclusão da participação brasileira no G7, Lula pediu que os países mais ricos reduzam investimentos em armas e direcionem esses recursos ao combate à pobreza global e a investimentos em regiões emergentes, como África e América Latina.
“O primeiro-ministro alemão [Friedrich Merz] chegou a dizer que ele está gastando 15 bilhões de euros por ano com a guerra da Rússia-Ucrânia. Esse dinheiro poderia ser investido na América Latina. Não vou nem dizer para o Brasil, mas investido na América Latina, na África.”
Pavese classifica esse discurso como “repetitivo”, “vazio” e “de púlpito”. A professora afirma que não existe filantropia no sistema internacional, inclusive em organismos multilaterais como a ONU, que, segundo ela, “tendem a ser controlados pelos Estados”.
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