Geral
Dólar sobe a R$ 5,10 com tom duro do Federal Reserve nos EUA
Moeda americana inverteu a queda no fim do pregão, após o Fed reforçar preocupação com a inflação e elevar apostas de alta dos juros.
Após operar em queda durante a maior parte do dia, o dólar ganhou força nas últimas horas de negociação e superou a marca de R$ 5,10, acompanhando a valorização da moeda americana no exterior.
O movimento foi impulsionado pelo tom duro do comunicado do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), reforçado pelas declarações do presidente da instituição, Kevin Warsh, em entrevista coletiva. A postura elevou as taxas dos Treasuries e reduziu o apetite por ativos de risco, como bolsas e moedas de países emergentes.
Em alta modesta até o anúncio da decisão do BC norte-americano, o índice DXY — que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de seis moedas fortes — disparou após a fala de Warsh. O indicador não apenas superou os 100,000 pontos, como também tocou máxima na faixa dos 100,500 pontos.
Os reflexos no mercado local foram imediatos, embora o real tenha sofrido menos do que outras moedas emergentes, como o peso mexicano e o rand sul-africano.
O dólar à vista inverteu o sinal e iniciou uma escalada na meia hora final de negócios, com sucessivas renovações de máximas, até atingir R$ 5,1217 no pico da sessão.
A moeda norte-americana fechou em alta de 0,41% frente ao real, cotada a R$ 5,1077, voltando a superar o nível de R$ 5,10 após três pregões. Com o resultado, o dólar acumula ganhos de 0,91% na semana e de 1,28% em junho, depois de avançar 1,82% em maio. No ano, porém, ainda registra queda de 6,95%.
O superintendente de câmbio do Banco Rendimento, Jacques Zylbergeld, avalia que a perspectiva de um dólar mais forte no exterior, diante da possibilidade de alta dos juros nos Estados Unidos ainda neste ano, tende a limitar o espaço para uma recuperação do real.
Segundo ele, o ambiente doméstico também ficou mais ruidoso, com as denúncias de envolvimento de políticos no escândalo do Banco Master e o aumento das preocupações com a questão fiscal, sobretudo diante da liderança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na corrida presidencial.
"O Copom tende a anunciar um novo corte da Selic hoje, mas adotar um tom mais duro, porque as expectativas de inflação vão piorar. Vamos ter ainda um juro muito alto e um diferencial grande em relação ao exterior. Mas é preciso ver como o mercado vai absorver essa nova postura do Fed", afirma Zylbergeld.
Como esperado, o BC norte-americano manteve a taxa básica de juros na faixa entre 3,50% e 3,75%. A decisão foi unânime. Na primeira reunião sob o comando de Kevin Warsh, o Fed trouxe, em um comunicado mais curto do que o habitual, uma mensagem dura ao apontar que a inflação segue acima da meta, em parte refletindo o choque de energia, enquanto a economia continua em ritmo sólido, com crescimento do emprego.
No chamado gráfico de pontos, que reúne as projeções dos dirigentes do BC norte-americano para os indicadores econômicos, nove integrantes do Fed veem aumento da taxa básica ainda neste ano. Outros oito projetam manutenção dos juros, enquanto um espera queda.
Ferramenta de monitoramento do CME Group passou a indicar mais de 60% de probabilidade de uma alta dos juros em outubro deste ano.
Em entrevista coletiva, Warsh foi assertivo ao afirmar que o Fed buscará a estabilidade de preços, mas se recusou a oferecer um forward guidance. O presidente do BC norte-americano desconversou quando questionado se havia tido contato com o presidente Donald Trump, que o indicou para o comando da instituição em substituição a Jerome Powell, alvo frequente de críticas do republicano.
Trump, por sua vez, disse a jornalistas que o Fed pode elevar os juros neste ano. "Pode acontecer", afirmou o republicano, acrescentando que Warsh é uma "ótima pessoa".
A economista Isadora Junqueira, da AZ Quest, destaca a menção do Fed à inflação elevada em razão do choque de energia e a promessa de Warsh, em sua primeira coletiva à frente da instituição, de entregar estabilidade de preços. Embora não tenha fornecido um forward guidance, o BC norte-americano deixou claro que vai se concentrar na inflação, uma vez que emprego e atividade seguem sólidos, observa.
"Esse foi o ponto principal. É a primeira visão das mudanças que vamos ter com o Warsh. E tivemos também a revisão das expectativas de juros no gráfico de pontos, com nove membros esperando alta neste ano. Foi uma mensagem muito dura", afirma Junqueira.
Ela ressalta que o impacto da postura do Fed foi mais evidente no comportamento do DXY e das taxas de juros de curto prazo, com o retorno da T-note de dois anos superando 4,20%.
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