Geral
Ibovespa cai com aversão a risco após Fed sinalizar juros mais altos nos EUA
Tom mais duro do banco central americano levou investidores a buscar segurança nos Treasuries e pressionou ações cíclicas na B3
A comunicação mais dura do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), somada à admissão do presidente norte-americano, Donald Trump — usualmente crítico a juros elevados — de que pode haver alta nos juros ainda este ano, reduziu o apetite por risco nos mercados globais. O Ibovespa passou a cair à tarde e atingiu o menor nível intradia desde 21 de janeiro, em meio à migração de fluxo estrangeiro para os Treasuries, títulos considerados os mais seguros do mundo.
A decisão do Fed de manter a taxa básica de juros na faixa entre 3,50% e 3,75% ao ano era amplamente esperada por analistas consultados pelo Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado. A surpresa veio do fato de que o indicado por Trump não adotou uma postura mais leniente em relação à inflação.
Na primeira reunião à frente do Fed, Kevin Warsh promoveu uma ampla reformulação no comunicado, com um texto mais enxuto. Embora tenha eliminado o guidance, os dirigentes mencionaram explicitamente o conflito no Oriente Médio como um dos fatores de pressão econômica e elevaram as projeções de inflação e da trajetória dos juros futuros. Na esteira da decisão, o mercado antecipou de dezembro para outubro a aposta de aperto monetário na maior economia do mundo, segundo a plataforma de monitoramento CME Group.
Durante a coletiva de imprensa, Warsh reforçou que o banco central americano buscará corrigir o fato de a inflação estar acima da meta de 2% há cinco anos. Ele acrescentou que não vê motivo para revisar a meta até que a inflação atinja 2%.
“O Fed teve tom mais duro do que o mercado esperava. Como Trump trocou o presidente do Fed após críticas à política monetária, muitos pensavam que seria indicado alguém com perspectiva mais branda, dovish. Mas não foi o que vimos na coletiva de imprensa. Warsh teve um tom duro”, afirmou o sócio da One Investimentos, Pedro Moreira.
A economista-chefe da Lifetime Gestora de Recursos, Marcela Kawauti, avalia que a comunicação do Fed “reforçou de forma explícita que o comitê irá perseguir a estabilidade de preços”.
Com o Fed adotando postura mais contracionista, o efeito sobre o mercado é de retração no apetite por risco, destaca o head de renda variável da Fami Capital, Gustavo Bertotti. Segundo ele, o comportamento do Ibovespa segue muito dependente do fluxo estrangeiro. “Os títulos americanos são os mais seguros do mundo, ainda mais em patamares de juros elevados. Então isso também pode levar a uma migração do fluxo para esses papéis”, comentou.
Apesar de terem iniciado o dia em queda, os rendimentos dos Treasuries de 2 e 10 anos passaram a subir com força durante a tarde. Na avaliação da Capital Economics, as projeções do Fed apontam para um risco “claro” de aumento das taxas de juros ainda neste ano.
O mercado também aguardava a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, prevista para depois das 18h30. A maioria dos analistas esperava corte de 0,25 ponto percentual na Selic, mas os efeitos secundários do choque de energia e a deterioração das expectativas de inflação aumentavam as incertezas sobre a continuidade do ciclo de ajustes nas próximas reuniões, segundo a pesquisa Projeções Broadcast.
O head de renda variável da AVIN, Gustavo Gomes, observa que a curva de juros basicamente não precifica cortes intensos até 2040, o que é prejudicial para a renda variável. Juros mais elevados tendem a deteriorar os resultados das empresas listadas na Bolsa, sobretudo das companhias mais ligadas ao ciclo doméstico.
Como pano de fundo, permanece a indefinição em relação ao conflito no Oriente Médio, com informações divergentes sobre a assinatura de um acordo entre Estados Unidos e Irã. Além disso, investidores monitoram pesquisas eleitorais e a perspectiva fiscal no Brasil.
Após mínima de 167.915,71 pontos (-1,02%) à tarde e máxima de 171.878,23 pontos (+0,56%) pela manhã, o Ibovespa fechou em baixa de 0,70%, aos 168.453,93 pontos, com giro financeiro de R$ 28,86 bilhões. As ações cíclicas, como Natura (-8%), estiveram entre os destaques de queda. O índice também foi pressionado por Vale (-2%), enquanto bancos e Petrobras tiveram desempenho misto.
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