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Pressão dos EUA na América Latina aproxima Brasil e México, diz analista

Para pesquisadora, busca por autonomia regional e divergências em blocos como Mercosul e CELAC impulsionam cooperação bilateral

Sputnik Brasil 17/06/2026
Pressão dos EUA na América Latina aproxima Brasil e México, diz analista
Brasil e México ampliam diálogo em meio à pressão dos EUA sobre a América Latina - Foto: © Foto / Ricardo Stuckert/PR

A tentativa da Casa Branca de atualizar a lógica da Doutrina Monroe, que historicamente tratou a América Latina como área de influência dos Estados Unidos, tem reconfigurado o tabuleiro geopolítico regional. Nesse contexto, Brasil e México, governados por lideranças que não se alinham automaticamente a Washington, vêm estreitando relações.

A pressão política exercida pelos Estados Unidos, a adesão ideológica de países vizinhos à esfera de influência norte-americana e episódios de alta tensão envolvendo a Venezuela têm levado governos que buscam maior autonomia, como o brasileiro e o mexicano, a aprofundar laços bilaterais. A avaliação é de Beatriz Naddi, professora da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), doutora em Relações Internacionais, em entrevista à Sputnik Brasil.

“Com certeza, essa pressão vinda dos EUA pode ser considerada um fator de aproximação entre o Brasil e o México. De fato, são potências regionais com muitas semelhanças, por serem países com maior desenvolvimento industrial em comparação com seus vizinhos. No entanto, não se pode atribuir essa aproximação apenas a isso. Acredito que também há um contexto político-ideológico na contemporaneidade que influencia bastante”, afirmou.

Nesse cenário complexo, blocos como o Mercosul e a CELAC enfrentam impasses internos em razão das preferências ideológicas de seus membros. No caso brasileiro, o Palácio do Planalto tem buscado alternativas de cooperação mais ao norte, com países como a Colômbia, no âmbito sul-americano, e o México, no contexto latino-americano mais amplo, explica Naddi, que também é mestre em Integração Regional da América Latina e integra o grupo de pesquisa Observatório de Regionalismo.

“A partir do segundo governo de FHC [Fernando Henrique Cardoso], o Brasil reduziu o espaço geográfico estratégico da América Latina para a América do Sul. E, com essa fragmentação política do Mercosul, o Brasil busca outros parceiros mais ao norte. Isso pode levar a uma reinversão desse processo de sul-americanização, com o Brasil voltando a uma estratégia de valorização da América Latina, que está, inclusive, presente em nossa Constituição”, comentou.

Aproximação entre os países além da esfera política

Brasil e México compartilham características relevantes, que vão das dimensões geográficas e culturais ao peso de suas empresas estatais, como Petrobras e Pemex, que discutem possibilidades de parceria. Para a pesquisadora, trata-se de uma oportunidade importante para ambos, especialmente em um momento de tensão geopolítica.

“A gente pode considerar isso como uma oportunidade de aproximação menos discursiva e mais prática entre os dois países, com suas duas grandes estatais de exploração de petróleo [Petrobras e Pemex]. Isso é ainda mais relevante considerando o conflito no estreito de Ormuz, toda essa escassez de petróleo e a dependência ainda comprovada do mercado internacional em relação ao petróleo”, destacou.

A pesquisadora também lembrou a visita do vice-presidente brasileiro, Geraldo Alckmin, ao México, acompanhado de uma comitiva de empresários. Na ocasião, Alckmin também acumulava o cargo de ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. O episódio simboliza, segundo ela, a tentativa de ampliar a relação bilateral para outras áreas.

“Em agosto de 2025, houve a visita do vice-presidente Geraldo Alckmin ao México, onde foram firmados acordos de cooperação, além de todo esse aspecto diplomático, já alimentado nessa pressão constante dos EUA e os tarifaços que vão e voltam do Trump. Além disso, se pensarmos de uma perspectiva um pouco mais sólida, Brasil e México já contam com acordos de complementação econômica de bastante tempo”, observou.

Relação deve ser institucionalizada para se fortalecer

Diante das instabilidades da geopolítica internacional, mudanças de governo podem alterar de forma brusca a relação entre países. Para evitar esse risco entre Brasil e México, Naddi afirma que é necessário institucionalizar os mecanismos de cooperação, de modo que acordos e parcerias não fiquem excessivamente sujeitos às oscilações políticas.

“Nas relações internacionais, a inconstância na manutenção de uma política externa coerente com as trocas de governo é muito frequente. Nesse sentido, o que esses governos têm de fazer para aproveitar o bom relacionamento momentâneo? Institucionalizar as relações. A conversa recente entre Lula e Claudia Sheinbaum, já apontando para um próximo encontro da comissão binacional, mostra esse esforço”, concluiu.

Com governos latino-americanos divididos entre o apoio à política da administração Donald Trump e a busca por soberania e diversificação em um mundo multipolar, as relações bilaterais ganham importância estratégica. Elas funcionam como alternativa prática aos blocos regionais da América Latina, frequentemente marcados por impasses decorrentes de divergências políticas internas.

Por Sputnik Brasil