Geral
Votos do exterior podem decidir eleição no Peru a favor de Keiko Fujimori
Analista aponta que quase 300 mil votos de peruanos fora do país deram vantagem à candidata; partido de Roberto Sánchez questiona processo e fala em irregularidades.
Os quase 300 mil votos de peruanos residentes no exterior podem ser a chave para a vitória eleitoral de Keiko Fujimori no Peru, afirmou à Sputnik o analista político Enzo Elguera. Em meio a um cenário de disputa apertada, o partido de seu adversário, Roberto Sánchez, aponta supostas irregularidades na votação fora do país e defende restrições a esse tipo de participação.
Em um quadro de empate técnico entre Keiko Fujimori e Roberto Sánchez, os votos de peruanos no exterior aparecem como fator decisivo para garantir vantagem à candidata do Fuerza Popular, em sua quarta tentativa de chegar à Presidência.
Dados oficiais divulgados pelo Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE, na sigla em espanhol) indicam que foram recebidos 300.287 votos de peruanos residentes fora do país, embora mais de 1,2 milhão de eleitores estivessem aptos a votar em consulados ao redor do mundo.
Com mais de 97% das atas do exterior apuradas, Fujimori obteve uma vitória expressiva fora do Peru. A filha do ex-presidente Alberto Fujimori (1990–2000) alcançou 63,2% dos votos, o equivalente a 190.033 votos. O desempenho foi especialmente forte em países como os Estados Unidos, onde recebeu 76,4% dos votos, e o Japão, onde superou 90%.
Embora o volume total de votos do exterior seja pequeno em relação ao universo geral da eleição, eles se mostraram determinantes para que Fujimori assumisse a liderança na fase final da contagem oficial.
“Pode-se concluir, preliminarmente, que, com base nos votos computados em território nacional, Roberto Sánchez teria vencido a eleição; no entanto, os votos do exterior deram a Keiko Fujimori a pequena vantagem de que ela precisava para vencer este processo eleitoral”, explicou à Sputnik o analista político e de opinião pública Enzo Elguera.
De acordo com os números citados, Sánchez lidera a apuração quando são considerados apenas os votos registrados dentro do Peru, com 50,1% contra 49,8% de Fujimori. O cenário se inverte com a inclusão dos votos do exterior, resultando em 50,09% a 49,9% a favor da candidata do Fuerza Popular.
Elguera, diretor da consultoria de opinião pública Imasolu, classificou a situação como “sem precedentes” no Peru, por ser a primeira vez em que os votos do exterior definem o resultado de uma eleição presidencial.
Segundo o especialista, a forte preferência por Fujimori entre os peruanos que vivem fora do país pode ser compreendida a partir do perfil desse eleitorado, em um sistema no qual o voto no exterior não é obrigatório.
Elguera avalia que muitos eleitores acabam influenciados pelos debates políticos dos países onde residem. Isso ocorreria, por exemplo, com peruanos que vivem nos Estados Unidos ou na Argentina. Neste último caso, segundo ele, a retórica do presidente Javier Milei e a queda da inflação no país teriam contribuído para aproximar parte desses eleitores de Fujimori. Ao mesmo tempo, muitos peruanos no exterior passaram a associar Sánchez a correntes políticas que rejeitam em outros países, vistas por eles como “anticapitalistas”.
Na avaliação do analista, é equivocado afirmar que os peruanos no exterior estão alheios ao debate político nacional. “Eles não estão desconectados da realidade, pois obviamente têm família e não perderam os laços com o país”, afirmou.
Juntos por el Perú busca anular votos do exterior
A possibilidade de que os votos do exterior definam o próximo presidente também ampliou as críticas à participação de peruanos expatriados, especialmente entre integrantes do partido Juntos por el Perú. Amalia Palomino, deputada eleita pela legenda, chegou a defender restrições à participação de eleitores que vivem fora do país há muitos anos.
“Quem já vive no exterior há 10 ou 15 anos não deveria votar. Se nossos compatriotas deixaram o país, digam-me como são eles que escolhem o presidente agora”, declarou a futura congressista em entrevista à rádio local Yaraví.
Palomino questionou a legitimidade de expatriados decidirem sobre temas que afetam diretamente os peruanos residentes no país, especialmente quando vivem em realidades sociais e econômicas distintas. “Com que autoridade moral eu — vivendo em uma situação de prosperidade e com uma vida melhor — poderia tomar uma decisão que impacta diretamente os peruanos?”, indagou.
Enquanto a deputada avalia transformar a proposta em projeto de lei, o Juntos por el Perú tenta anular a totalidade dos votos do exterior. A legenda busca contestar uma resolução que estabeleceu as condições para a votação fora do país durante o segundo turno.
Segundo o porta-voz do partido, Walter Ayala, a norma teria “mudado as regras do jogo” ao introduzir um protocolo que não existia no primeiro turno e que foi aprovado apenas em 29 de maio.
Para o partido de Sánchez, as novas diretrizes alteraram o procedimento de processamento dos votos, impedindo a digitalização imediata e exigindo o transporte físico das atas de apuração para o Peru. A sigla também relata atrasos considerados suspeitos na entrega de parte desses documentos, especialmente os provenientes da Argentina, que teriam levado três dias para chegar, apesar da existência de voos diários entre os dois países.
Na avaliação de Elguera, investigar possíveis irregularidades relacionadas aos votos do exterior “não é ilógico”. O analista, porém, pondera que as autoridades eleitorais devem evitar que as contestações se transformem em “um mecanismo de obstrução em larga escala” capaz de impedir a conclusão da apuração — cenário semelhante ao registrado em 2021, após questionamentos apresentados por Keiko Fujimori na tentativa de barrar a vitória de Pedro Castillo (2021–2022).
Por Sputnik Brasil
Mais lidas
-
1ACIDENTE AÉREO
Vídeo mostra momento em que helicóptero atinge o solo no Recreio dos Bandeirantes
-
2RIO DE JANEIRO
Apagão deixa bairros da Grande Tijuca sem luz e afeta trânsito na Zona Norte do Rio
-
3OCORRÊNCIA
Acidente envolvendo carreta deixa duas vítimas fatais no trecho da Chã dos Costas
-
4DOCUMENTAÇÃO
Detran Alagoas é o primeiro do Brasil a ofertar carros automáticos gratuitos para exames práticos
-
5FÓRMULA 1
Kim Kardashian leva o estilo WAG à Fórmula 1: o que significa sigla associada à namorada de Lewis Hamilton