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Críticas dos EUA e interesse da China colocam o Pix no centro da disputa global por pagamentos digitais
Especialistas avaliam que a pressão norte-americana e a atenção chinesa evidenciam a relevância estratégica da inovação brasileira no sistema financeiro internacional.
Especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil avaliam que o interesse da China pelo Pix e as críticas dos Estados Unidos ao sistema revelam a importância estratégica da tecnologia brasileira no cenário financeiro global.
Durante entrevista ao Brazil Economy, Hsia Hua Sheng, vice-presidente do Bank of China, afirmou que os chineses têm interesse em implementar o Pix em seu sistema econômico. Na conversa, Sheng citou empresas chinesas como AliExpress, 99 e Keeta, que já se adaptam a uma nova realidade marcada pela internacionalização do sistema brasileiro de pagamentos instantâneos.
A declaração ocorre em meio a pressões dos Estados Unidos sobre o Pix. No início de junho, uma investigação comercial do Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês) acusou o Banco Central do Brasil de adotar “práticas abusivas” por atuar simultaneamente como regulador e operador do sistema, o que, segundo o órgão, daria vantagem indevida em relação a concorrentes — especialmente bandeiras de cartões de crédito norte-americanas.
A investigação propôs uma taxação de 25% sobre produtos brasileiros, sob o argumento de que essas medidas prejudicariam o comércio entre os dois países.
Especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil, no entanto, afirmam que a medida contra o Pix não tem fundamento. Para eles, o sistema representa uma inovação tecnológica que mudou a dinâmica do mercado, e não um tratamento preferencial capaz de distorcer a concorrência. As pressões, avaliam, estão mais relacionadas à soberania tecnológica e à regulação digital do que a disputas comerciais tradicionais.
Para Evandro Menezes de Carvalho, professor da Universidade Politécnica de Macau, o interesse chinês pelo Pix é natural, especialmente para empresas chinesas que atuam no Brasil e precisam se adaptar aos hábitos de pagamento dos consumidores locais. Segundo ele, a fala de Sheng também revela uma diferença de abordagem no relacionamento com o Brasil quando comparada à postura dos Estados Unidos.
“No caso da China, nota-se claramente uma abordagem respeitosa do princípio da soberania e do direito de cada país adotar seu próprio sistema econômico e político”, afirma Menezes.
“A China procura, de certo modo, se adaptar e dialogar com o Brasil na medida em que sinaliza com essa possibilidade de incorporar o Pix.”
Na avaliação do professor, a atitude dos Estados Unidos ao criticar o sistema de pagamentos brasileiro é “claramente uma manifestação protecionista”. Ele observa que o Pix reduziu a dependência de consumidores e comerciantes brasileiros das grandes bandeiras de cartões de crédito norte-americanas, como Visa e Mastercard, que cobram taxas sobre as transações realizadas.
Ao oferecer pagamentos instantâneos e sem custos para os usuários, o sistema brasileiro passou a disputar espaço com modelos de negócios consolidados dessas empresas. Menezes acrescenta que o Pix também tem potencial para se tornar um instrumento de projeção tecnológica do Brasil, sobretudo se for adotado ou servir de inspiração para países vizinhos da América do Sul.
Segundo o especialista, as vantagens do sistema — rapidez, praticidade e ausência de tarifas para os usuários — ajudam a explicar seu sucesso. Ele observa ainda que as críticas norte-americanas acabaram fortalecendo a identificação da população brasileira com o Pix, transformando uma ferramenta de pagamentos digitais em tema de debate político.
“Quando, na verdade, trata-se de uma tecnologia muito útil para a população e para pequenos empreendedores.”
Menezes ressalta, porém, que ainda não está claro o que significaria, na prática, uma integração operacional entre o sistema brasileiro e os meios de pagamento digitais chineses.
De acordo com o professor, a viabilidade dessa integração dependeria tanto de conhecimentos técnicos quanto da adoção de padrões comuns que permitissem a comunicação entre os sistemas. Carvalho lembra que a China já possui plataformas amplamente difundidas, como WeChat Pay e Alipay, que vêm ampliando sua interoperabilidade com cartões de crédito e outros meios de pagamento internacionais.
Para ele, “existe, de certo modo, essa abertura gradual, ou pelo menos um diálogo operacional dos modelos de pagamento digital chineses com os meios de pagamento mais comuns fora da China”, o que pode facilitar futuras iniciativas de cooperação com modelos como o Pix.
O professor avalia a iniciativa chinesa mais como parte de uma estratégia para reduzir a dependência de infraestruturas financeiras controladas pelo Ocidente do que como uma tentativa de reproduzir o modelo brasileiro. Essa busca ganhou relevância, segundo ele, diante do uso crescente de instrumentos financeiros como ferramentas de sanção e pressão geopolítica.
Nesse contexto, tanto o Pix quanto os sistemas chineses de pagamento digital seriam expressões de soberania econômica, capazes de ampliar a autonomia dos países sobre suas próprias transações financeiras.
“Eu acho que, como há uma evolução na direção de meios de pagamento digital, isso abre possibilidades de comunicação digital para essas transações financeiras”, afirma. Ainda assim, o especialista avalia que o reconhecimento do Pix por autoridades e instituições chinesas demonstra que o sistema brasileiro já é visto internacionalmente como uma inovação relevante no campo financeiro.
Para Menezes, a credibilidade do Pix decorre de sua ampla adoção e de seu histórico de funcionamento no Brasil. Ele destaca que o sistema foi testado em um país de dimensões continentais e grande população, sem registros de problemas que comprometessem sua segurança. “O fato de a China perceber o Pix como um meio de pagamento extremamente eficiente, criado pelo Brasil e bastante usado no país, é um reconhecimento da capacidade brasileira de inovação financeira”, diz.
Na visão do especialista, até mesmo as críticas feitas pelos Estados Unidos podem ser interpretadas como uma demonstração indireta do sucesso alcançado pelo sistema brasileiro. De certa maneira, o Pix passou a incomodar interesses estabelecidos justamente por oferecer um modelo mais eficiente e sem custos para os usuários finais.
“É um reconhecimento às avessas [...] Está atacando porque está incomodando, porque o Pix está sendo mais eficiente, porque o Pix é melhor para o cidadão brasileiro.”
Uma leitura semelhante é feita por Bruno de Conti, economista e professor livre-docente de Economia Internacional da Unicamp. Para ele, o interesse chinês em mecanismos como o Pix deve ser compreendido dentro de uma disputa mais ampla pelo controle das infraestruturas financeiras globais.
Segundo o pesquisador, diversos países vêm buscando alternativas à predominância do dólar e dos sistemas de pagamento controlados por empresas e instituições sediadas nos Estados Unidos.
“Não tem dúvida nenhuma de que a gente vive um momento de disputa geopolítica intensa, não só em relação à moeda global, com esforços de desdolarização pelo mundo afora, inclusive dos BRICS, mas também em relação aos sistemas de pagamentos”, afirma.
Na avaliação de De Conti, o avanço de soluções nacionais de pagamento instantâneo está ligado não apenas à busca por eficiência econômica, mas também à redução da vulnerabilidade dos países diante de eventuais sanções e pressões externas.
O economista destaca que essa preocupação não se limita a países como Brasil e China. Segundo ele, até mesmo governos europeus têm demonstrado receio em relação à dependência de empresas norte-americanas como Visa e Mastercard. “Tem, sim, uma corrida pela criação de infraestruturas alternativas que evitem o dólar e evitem as companhias estadunidenses”, observa.
O especialista acrescenta que a disputa também envolve o controle de dados financeiros. Na sua avaliação, os sistemas de pagamento se transformaram em ativos estratégicos porque concentram informações valiosas sobre hábitos de consumo e transações econômicas.
“Quando a gente faz esses pagamentos, isso tudo vai alimentando uma base de dados que pode ficar na mão de empresas privadas ou não”, explica. Nesse sentido, argumenta, o Pix reduz a dependência de plataformas privadas estrangeiras e fortalece a capacidade de gestão dos dados financeiros dentro do próprio país.
Sobre uma eventual integração entre o Pix e plataformas chinesas como Alipay e WeChat Pay, De Conti avalia que os benefícios potenciais são significativos, especialmente para as relações econômicas entre os dois maiores parceiros comerciais do Hemisfério Sul.
O professor ressalta que, atualmente, grande parte das operações financeiras internacionais ainda depende de bancos correspondentes e de mecanismos de liquidação vinculados ao sistema financeiro dos Estados Unidos. Como consequência, transações entre empresas brasileiras e chinesas frequentemente passam por instituições norte-americanas e são liquidadas em dólares.
Uma maior interoperabilidade entre os sistemas poderia, segundo ele, simplificar esse processo, reduzindo custos, prazos e riscos cambiais. Hoje, lembra o economista, transferências internacionais costumam levar de dois a três dias úteis para serem concluídas, período em que oscilações cambiais podem gerar custos adicionais para importadores e exportadores. Uma infraestrutura mais integrada poderia reduzir essas incertezas e tornar as operações comerciais mais eficientes.
“O intuito tem que ser o de pagamento instantâneo, ou quase instantâneo.”
Apesar das oportunidades, o especialista pondera que a aproximação entre os sistemas exige cautela regulatória. Para ele, a cooperação não deve significar a abertura irrestrita do mercado brasileiro para grandes plataformas estrangeiras. Na sua avaliação, cabe ao Banco Central garantir que eventuais acordos preservem o controle nacional sobre o Pix e evitem a concentração do mercado doméstico nas mãos de empresas estrangeiras.
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