Geral
Copa pode reabilitar imagem do Irã em meio à crise dos EUA, diz analista
Para historiador, restrições impostas por Washington a atletas e jornalistas podem gerar efeito reverso e ampliar a solidariedade à seleção iraniana.
A Copa do Mundo também funciona como instrumento de soft power para os países-sede, devido ao alcance global do torneio. Nesta edição, disputada no Canadá, nos Estados Unidos e no México, a competição tem sido marcada por deportações, constrangimentos e restrições atribuídas a ações de Washington contra atletas e jornalistas, além das hostilidades envolvendo o Irã, que afetam diretamente a seleção iraniana.
Nesse contexto, a seleção do Irã, que fará todos os jogos da fase de grupos em território norte-americano, foi obrigada a se concentrar no México por questões de segurança. Com isso, a equipe terá de se deslocar constantemente até os estádios dos Estados Unidos para enfrentar Nova Zelândia, Bélgica e Egito, respectivamente. A logística coloca em debate a isonomia da competição e cria uma desvantagem esportiva para os iranianos.
Por outro lado, a decisão do Irã de não boicotar o Mundial e atuar em solo norte-americano pode provocar um efeito inesperado na opinião pública. A presença da equipe pode despertar solidariedade aos atletas e ampliar o interesse sobre o país, ao mesmo tempo em que aprofunda o desgaste da imagem dos Estados Unidos. A análise é de Eduardo Gomes, doutor em História pela UFRJ e professor do Centro Universitário Serra dos Órgãos (Unifeso), em entrevista à Sputnik Brasil.
"Eles [os atletas] se colocarem disponíveis ao risco, a gente não pode esquecer disso, de estarem disputando essa competição e representar a sua nacionalidade. Se não o Irã como um todo, pelo menos esses atletas demonstram que o Irã não é necessariamente os estereótipos construídos pela mídia ocidental, notadamente a americana", afirmou.
No início da Copa, Washington e Teerã ainda estavam envolvidos em um conflito com restrições, inclusive no estreito de Ormuz, o que gerou impactos em diferentes partes do mundo. Mesmo assim, a FIFA manteve os Estados Unidos como uma das sedes, apesar de o país ser apontado como agressor no conflito contra os iranianos. Para o pesquisador, o episódio também pode contribuir para a superação de barreiras de preconceito contra a cultura iraniana.
"A gente sabe de todas as questões [geopolíticas] que isso envolve. Acho que isso [a seleção iraniana disputar a Copa do Mundo] pode quebrar um pouco a barreira desses olhares negativos que o Ocidente constrói no modelo internacional, sem dúvida alguma", comentou.
Copa nos EUA tem paralelos com regimes totalitários
O historiador avalia que uma Copa do Mundo sediada nos Estados Unidos sob as condições atuais é um evento singular, cuja análise mais profunda exigirá distanciamento temporal. Ainda assim, embora pertençam a contextos históricos distintos, ele considera possível traçar paralelos com a Copa do Mundo de 1934, realizada na Itália fascista, e com os Jogos Olímpicos de 1936, na Alemanha nazista.
"Isso talvez é um objeto de estudo para os acadêmicos tentar entender um pouco desse contexto. Porque mesmo o Mussolini, quando a Itália organizou a Copa do Mundo, se utilizou muito politicamente desse evento, e mesmo o Hitler na Olimpíada de 1936, os atletas negros que sofreram lá na Olimpíada, só que não sofreram tanto para entrar no país como alguns atletas estão sofrendo para entrar nos EUA hoje", destacou.
Gomes, que também é especialista em futebol, afirma que esse cenário pode produzir um soft power reverso. O impacto, segundo ele, atinge não apenas o governo norte-americano, mas a imagem do país como um todo, extrapolando a esfera da política internacional bilateral e alcançando também o imaginário do cidadão comum.
"Os EUA se colocam como potência que tem o imperialismo como foco e se utiliza disso para construir a sua indústria cultural. Mas como se quer vender para o mundo negando o que o mundo traz? Porque se vende a ideia do sonho americano, da Disney e de Hollywood; as pessoas vão querer conhecer e consumir, mas ao se negar a entrada de determinadas etnias, e na maior parte sem justificativas plausíveis", observou.
Casa Branca e a tentativa de 'ditadura internacional'
Outro aspecto destacado por Eduardo Gomes é a conduta do governo norte-americano, que, segundo ele, apresenta semelhanças com traços ditatoriais. Para o historiador, essa postura ultrapassa o ambiente doméstico e se projeta externamente como uma tentativa de "ditadura internacional", marcada pela imposição unilateral de força, à revelia de aliados e de organismos multilaterais, como a Organização das Nações Unidas (ONU).
"Mas há tentativa de uma ditadura internacional [por parte dos EUA]. Ele [Trump] há muito tempo está sem se importar com o que outras nações falam na ONU e sobre ações políticas no sentido bélico. E o que foi que ele fez na América Latina, ao intervir na soberania da Venezuela? Isso quebra todas as regras que a gente possa imaginar no pós-Segunda Guerra Mundial, na própria Declaração Universal dos Direitos Humanos, da qual os EUA fazem parte da criação em 1948", concluiu.
Esporte e política mantêm conexões indissociáveis, pois ambos operam na esfera da comunicação de massa e mobilizam interesses nacionais. Ao evocar o sentimento patriótico em suas áreas de influência, o esporte projeta, no campo simbólico, dinâmicas da geopolítica — realidade evidenciada na atual edição da Copa do Mundo.
Por Sputnik Brasil
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