Geral

SpaceX deve ter peso relevante no índice Nasdaq após IPO

Para analista da São Pedro Capital, entrada da empresa no índice pode gerar forte fluxo de compra, mas avaliação elevada exige crescimento excepcional.

Estadao Conteudo 15/06/2026
SpaceX deve ter peso relevante no índice Nasdaq após IPO
Edifício da SpaceX

A avaliação de US$ 1,77 trilhão atribuído à SpaceX em seu IPO pressupõe um nível de execução raro até mesmo entre gigantes da tecnologia. Para explicar esse valor, a empresa teria de elevar sua receita de cerca de US$ 18 bilhões para quase US$ 500 bilhões em quatro anos — um salto que, segundo Thiago Kapulskis, da São Pedro Capital, gestora fundada pelo ex-CEO do Google Brasil, exigiria realizar em poucos anos o que empresas como a Amazon levaram mais de uma década para construir.

Nesse cenário, afirma o gestor, o investimento carrega um alto grau de aposta na capacidade de entrega de Elon Musk. As ações da empresa, que atuam nos setores aeroespacial, de internet por satélite e de inteligência artificial, foram negociadas na última sexta-feira (12). Segundo Kapulskis, parte dessas expectativas já está refletida nas projeções do mercado.

Estimativas de analistas do Goldman Sachs indicam que a receita da SpaceX pode saltar de cerca de US$ 18 bilhões para quase US$ 500 bilhões em quatro anos, impulsionada principalmente pelo avanço da inteligência artificial e pela expansão da infraestrutura de dados.

A seguir, os principais trechos da entrevista concedida por Kapulskis.

A procura estimada em quatro vezes que a oferta do IPO é sinal de oportunidade ou indica excesso de euforia?

Acho que o fator da demanda ajuda o efeito técnico. Se há uma demanda muito maior no IPO, isso significa que existem investidores interessados ​​em comprar mais ações do que a quantidade disponível. A empresa poderia dizer: “Não vou vender a US$ 135, vou vender a US$ 160, porque há compradores suficientes para pagar mais caro”. Ela não fez isso e deixou essa valorização para o investidor. O mercado tende a ajustar o papel para um preço mais alto. Isso não significa necessariamente euforia.

Faz sentido investir na SpaceX?

Há um ângulo especulativo e outro de investimento de longo prazo. Do ponto de vista especulativo, existe um fator técnico que pode levar o preço da ação a subir no curto prazo. Houve uma mudança para acomodação da empresa no índice da Nasdaq 15 dias após o IPO. Isso deve criar um fluxo sem opinião sobre o papel: os ETFs que acompanham o índice terão de comprar as ações. É um fluxo de compra que tende a pressionar o preço para cima.

Por outro lado, o lock-up — período após um IPO em que investidores antigos ficam impedidos de vender suas ações — poderá gerar um fluxo de venda quando terminar. São duas forças opostas. É possível tentar calcular qual delas terá mais peso, mas é muito difícil. A chance de errar é maior para acertar.

Um IPO dessa porta pode impactar outros ativos?

Nunca vimos um IPO de tecnologia desse tamanho. O da Saudi Aramco envolveu outro tipo de empresa. Não há um precedente direto dentro do setor de tecnologia. A SpaceX provavelmente terá um peso relevante no índice Nasdaq. Se ela representar 5% do índice, alguém passará a representar menos.

Então, quem tende a sofrer?

Como os recursos são limitados, as empresas mais presentes nesses índices são as que têm maior chance de sofrer algum ajuste. Ao mesmo tempo, dependendo de como ocorrer esse reequilíbrio, as companhias menores também podem sentir impactos.

Se o Nasdaq inclui a SpaceX e o S&P 500 não, isso muda a estratégia em fundos que segue os índices?

Aumenta um pouco o risco desse tipo de investimento passivo, mas não necessariamente por causa dessa mudança específica. O S&P informou que não vai alterar sua regra, enquanto alguns provedores de índice resolveram mudar. Quando os índices passam a ter mais mudanças, abordagens e questionamentos, o papel da gestão ativa se torna mais relevante.

Por quê?

Isso enfraquece a tese puramente passiva e pode fazer com que o investimento passivo deixe de ser a melhor opção para todos os investidores. Ainda mais quando virem OpenAI, Anthropic e outras empresas do setor. Os índices vão ficando cada vez mais concentrados em uma mesma tese.

É preciso lembrar que os ETFs seguem índices, e os índices têm história. Quem viveu 2000 ou 2008 sabe disso. Em 2001, vi situações em que os índices caíram 80%. Não foi uma experiência agradável para quem estava concentrado. Não estou dizendo que isso vai acontecer de novo. O que quero dizer é que nada é imbatível, principalmente em momentos em que todos acreditam que o mercado só sobe e que a tendência é inovadora.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo .