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Brasil busca ampliar capacidade de armazenamento de rejeitos nucleares
Especialistas afirmam que o país ainda não enfrenta gargalo imediato, mas precisa acelerar soluções para sustentar a expansão do programa nuclear
O Brasil discute medidas para otimizar e ampliar a capacidade de armazenamento de rejeitos radioativos de baixo e médio níveis de radiação. Embora a situação ainda não represente um gargalo para a expansão do uso da energia nuclear no país, especialistas alertam que a gestão desses materiais pode se tornar um limitador estratégico no futuro.
Recentemente, a Eletronuclear apresentou propostas para ampliar a capacidade de armazenamento de rejeitos. A iniciativa busca garantir condições adequadas para o gerenciamento do lixo nuclear enquanto o Centro Tecnológico Nuclear e Ambiental (Centena) ainda não tem um projeto definitivo de implementação.
Segundo Leonam Guimarães, diretor técnico da Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Atividades Nucleares (ABDAN), o Brasil vem discutindo um conjunto de medidas de curto e médio prazos para evitar restrições operacionais nas instalações nucleares existentes e preparar a futura expansão do programa nuclear.
Entre as alternativas apresentadas para estender a vida útil dos depósitos atuais estão a otimização da ocupação dos espaços, com revisão dos critérios de empilhamento, e a redução volumétrica dos rejeitos por meio de compactação, supercompactação, descontaminação, solidificação e cimentação.
Na avaliação de Guimarães, entre as iniciativas em discussão, a que apresenta maior potencial de solução estrutural para o problema brasileiro é a entrada em operação do Centena. A instalação permitiria retirar dos sítios geradores uma parcela significativa dos rejeitos hoje armazenados localmente, reunindo-os em uma estrutura nacional dedicada.
O especialista ressalta, no entanto, que o Centena não eliminará todas as necessidades futuras. O combustível irradiado continuará exigindo armazenamento especializado por muitas décadas. Por isso, soluções integradas, envolvendo a Unidade de Armazenamento a Seco (UAS) da Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto (CNAAA) e futuras instalações centralizadas, podem representar o caminho mais eficiente no longo prazo.
Estudos indicam que a implementação plena do Centena deve ocorrer apenas no longo prazo, possivelmente após 2050.
Para Inayá Lima, professora do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia (Coppe), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), as discussões atuais tratam da ampliação de capacidades, já que o Brasil dispõe de sistemas considerados seguros. Segundo ela, não há, neste momento, situação de emergência ou falta de capacidade de armazenamento.
Quais os desafios para avançar na ampliação da capacidade de armazenamento?
De acordo com o diretor técnico da ABDAN, o avanço das iniciativas esbarra em questões institucionais, financeiras e regulatórias. Entre os principais desafios estão a conclusão do processo de seleção e licenciamento do Centena, a capacitação profissional, a garantia de recursos para operações de longo prazo e a integração entre os diferentes atores do setor nuclear.
Segundo Inayá Lima, o Brasil possui um arcabouço regulatório robusto. O desafio, portanto, está na implantação de estruturas capazes de atender não apenas às demandas atuais, mas também às necessidades futuras de um país que pretende ampliar suas aplicações nucleares.
Os riscos associados aos projetos, conforme os especialistas, não estão ligados à segurança imediata da população, mas à necessidade de planejamento de longo prazo, continuidade institucional e disponibilidade de infraestrutura adequada.
Para a professora da UFRJ, o desafio que mobiliza a comunidade técnica mundial não é a segurança imediata desses materiais, mas a definição de soluções sustentáveis para períodos que podem alcançar décadas ou até séculos, a depender do tipo de rejeito.
Armazenamento de rejeitos ainda não é um gargalo para avanço, mas pode se tornar
Historicamente, segundo Guimarães, o planejamento da gestão de rejeitos no Brasil avançou em ritmo mais lento do que o planejamento da geração nuclear.
Isso não significa ausência de planejamento, mas uma defasagem comum observada em muitos países. Durante décadas, o volume de rejeitos gerado pelas instalações brasileiras permaneceu administrável dentro das capacidades existentes. Contudo, a perspectiva de operação prolongada de Angra 1, continuidade de Angra 2, entrada em operação de Angra 3 e eventual implantação de novos reatores torna necessária uma aceleração dos projetos de gestão de rejeitos.
A limitação para armazenar rejeitos não constitui, neste momento, o principal fator de restrição ao programa nuclear brasileiro. No curto prazo, afirma Guimarães, a disponibilidade de capacidade de armazenamento não impede a operação de Angra 1 e Angra 2, nem inviabiliza a futura operação de Angra 3.
Apesar disso, o tema pode se tornar um limitador estratégico no futuro, especialmente para novos projetos, como usinas nucleares adicionais, pequenos reatores modulares — conhecidos pela sigla em inglês SMRs —, ampliação da produção do ciclo do combustível e aumento da aceitação pública das iniciativas nucleares.
Nenhum programa nuclear sustentável pode expandir-se indefinidamente sem uma estratégia robusta para gestão de rejeitos e combustível irradiado. Investidores, reguladores e sociedade exigem cada vez mais que o ciclo completo seja demonstrado, incluindo armazenamento, transporte e disposição final.
Com quem o Brasil pode aprender a melhorar seu armazenamento de rejeitos?
Guimarães ressalta que há modelos internacionais que podem servir de referência ao Brasil, especialmente os adotados por Estados Unidos, França, Finlândia e Suécia.
Nos Estados Unidos, segundo o especialista, é comum o armazenamento a seco em contêineres de concreto e aço, em instalações localizadas junto às usinas nucleares. O país também mantém debates e projetos para uma solução geológica definitiva, embora ainda não conte com um repositório nacional em operação para combustível irradiado.
A França adota uma estratégia baseada no reprocessamento de combustível irradiado e em uma estrutura nacional integrada de gestão de rejeitos, conduzida por uma agência especializada. O país desenvolve o projeto geológico profundo Cigéo, voltado a rejeitos de alta atividade.
A Finlândia, por sua vez, tornou-se referência mundial no tema. O país nórdico conta com o repositório geológico profundo de Onkalo, considerado o primeiro sistema comercial dessa natureza em estágio avançado de implementação.
O diretor técnico da ABDAN também cita a Suécia, que combina armazenamento centralizado de combustível irradiado com o desenvolvimento de repositórios geológicos profundos. Segundo ele, esses modelos vêm sendo acompanhados pelo Brasil e utilizados como referências nas discussões sobre o tema.
Considerando as características brasileiras, é provável que o país incorpore elementos dos modelos norte-americano e europeu, especialmente armazenamento a seco de longo prazo, instalações centralizadas e repositórios nacionais para rejeitos de baixo e médio nível.
O que o Centena representará para a gestão de resíduos nucleares?
A professora da UFRJ destaca que o Centena tem importância estratégica para o país, porque completa uma das etapas fundamentais do ciclo de gestão dos materiais radioativos.
A entrada em operação do Centena permitirá concentrar em uma única infraestrutura nacional a disposição definitiva dos rejeitos de baixo e médio níveis de radiação, fortalecendo a governança do setor e alinhando o país às práticas adotadas internacionalmente.
Do ponto de vista estratégico, afirma Inayá Lima, a operação do programa demonstrará que o Brasil está preparado para gerir de forma responsável não apenas os benefícios da tecnologia nuclear, mas também todas as etapas associadas à sua utilização. Segundo ela, essa visão integrada é um dos pilares de qualquer programa nuclear moderno e sustentável.
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