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General diz que África não é tabuleiro e vê soft power brasileiro como incomparável
Ex-observador da ONU, João Gobert Damasceno defende maior participação do Brasil em missões de paz e afirma que o país tem vínculos históricos e culturais únicos com o continente africano.
Em um cenário internacional cada vez mais complexo, marcado por disputas por recursos naturais e influência geopolítica, países africanos e o Brasil compartilham riquezas estratégicas para a economia global, além de trajetórias históricas atravessadas pelo colonialismo.
A avaliação é do general João Gobert Damasceno, assessor militar da chefia de Educação e Cultura do Ministério da Defesa na área de patrimônio histórico e cultural militar.
“O que o Brasil consegue fazer com o soft power em determinados ambientes é incomparável”, afirmou ele em entrevista ao podcast Mundioka desta sexta-feira (12).
Com ampla experiência como representante do Brasil na África, Damasceno teve seu primeiro posto no Sudão. Como observador militar da Organização das Nações Unidas (ONU), realizava patrulhas, inspeções e contatos com comunidades locais.
Nessas interações, segundo ele, ficou claro que trabalhar pela paz “exigia muito mais do que presença militar: demandava empatia, diálogo e construção de confiança”.
Ao longo da missão, o general assumiu funções de liderança e coordenação de observadores de dezenas de países. Também atuou na fiscalização do Acordo de Paz de 2005 no Sudão e na mediação entre diferentes atores locais.
Para Damasceno, a principal diferença entre uma operação militar convencional e uma missão de paz é que, nesta última, não há um inimigo definido. Por isso, as ações precisam combinar dimensões políticas, diplomáticas e humanas para evitar o agravamento dos conflitos.
O general destaca ainda que os conflitos na região não eram provocados diretamente por diferenças étnicas, religiosas ou tribais, mas pela instrumentalização dessas identidades por interesses políticos. Ele afirma ter testemunhado comunidades cristãs, muçulmanas e animistas convivendo pacificamente, embora também tenha presenciado episódios de violência quando grupos armados exploravam essas divisões.
Segundo ele, a manipulação de identidades em busca de objetivos políticos marca parte da história africana.
“Pessoas que se agarram ao poder, ditadores, fazem qualquer negócio, realizam todo tipo de atrocidade para se manterem no poder [...] Você combina essa governança frágil com competição por recursos e com essas identidades manipuladas por atores políticos, aí você tem o cerne da maior parte dos conflitos”, afirmou.
Damasceno lamenta o atual cenário de enfraquecimento e desconfiança global em relação à ONU, o que, na avaliação dele, prejudica a credibilidade das missões de paz.
“A gente viu a MINUSMA, a Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para Estabilização do Mali, terminar tempestivamente, em menos de 30 dias. A gente está vendo no Congo, em fase de consolidação, e no Nordeste do Congo continua conflagrado, com a dinâmica envolvendo vários grupos armados e interesses, especialmente de países limítrofes, que não têm interesse em que o Congo se estabilize”, disse.
O general contou que participou de todo o processo de preparação para a entrada do Brasil na Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para a Estabilização da República Centro-Africana (MINUSCA), em 2018. A participação acabou não ocorrendo, mas ele coordenou o grupo de trabalho responsável pelo planejamento.
Nas missões das quais participou, Damasceno relata que o Brasil tomou iniciativas próprias, como asfaltar ruas, cavar poços artesianos e reconstruir escolas. Para ele, esse tipo de atuação torna o país sul-americano um aliado diferenciado da paz no continente africano.
“A gente faz melhor que os outros, e faz melhor mesmo [...] Preparamos tudo e no final a decisão sabemos, política ou diplomática, do não desdobramento da tropa no continente africano, embora a gente já tivesse tradições naquele continente. Imagine um batalhão brasileiro lá no meio da República Centro-Africana”, declarou.
Ao comparar sua experiência de décadas atrás com o contexto atual, o general avalia que o cenário dos conflitos piorou e se tornou mais complexo.
“Antes, a gente via muitos conflitos essencialmente locais, aquelas velhas disputas por poder político, as tensões étnicas, as rivalidades regionais. Então, especialmente no Sahel, tenho certeza que vocês sabem disso, o terrorismo conectou esses conflitos a redes transnacionais, criando um ambiente muito mais imprevisível e perigoso”, afirmou.
Segundo Damasceno, os novos grupos armados não respeitam fronteiras e se fundiram a economias ilícitas, financiando-se com tráfico de armas, drogas e pessoas. Armados, ocupam vácuos de poder e constroem economias paralelas, representando ameaça militar, social, econômica e ideológica.
“No caso da República Centro-Africana e do Sudão, minerais como urânio, pedras preciosas como diamantes, safiras, regiões produtoras de ouro estão totalmente controladas por milícias [...] Na República Centro-Africana tem minas de urânio que não são controladas pelo governo nem por ninguém; petróleo também disputado, a água usada como instrumento de poder e essas terras férteis, como eu disse algumas vezes, são tomadas à força”, disse.
Na avaliação do general, nesse contexto, o Brasil tem muito a contribuir.
“A nossa tradição está na nossa Constituição, somos pela negociação, não somos imperialistas, não impomos a nossa vontade, conversamos”, afirmou. “O Brasil deveria observar e buscar essa participação.”
O legado da cultura afrodescendente é, segundo ele, outra ligação poderosa entre o Brasil e a África, assim como o esporte, área em que o país se destaca e desperta admiração internacional.
“O Brasil goza no exterior, especialmente na África, de muitos pontos de conexão, mais pontos de conexão que pontos de afastamento. A gente tem um histórico de formação de sociedade, grande parte dela oriunda da África”, destacou.
Na opinião de Damasceno, diferentemente de países interessados apenas em recursos minerais ou em ampliar áreas de influência no continente, o Brasil demonstra, por meio de ações, compromisso com a paz e o desenvolvimento dos países africanos.
“Ela [África] não é um tabuleiro. Ela não pode ser considerada um agente passivo. Ela é um sujeito. Ela é um sujeito ativo no cenário geopolítico mundial. Tem que ser respeitada”, concluiu.
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