Geral

Governo Lula não vê razão política para pedir reunião formal com Trump no G7

Planalto avalia que eventual contato entre os presidentes, na França, deve ocorrer apenas de forma informal, sem negociação substantiva sobre tarifas ou segurança.

Estadao Conteudo 12/06/2026
Governo Lula não vê razão política para pedir reunião formal com Trump no G7
Donald Trump e Lula - Foto: Ricardo Stuckert/PR

Integrantes do governo brasileiro afirmam que um eventual encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante o G7, na França, deverá ocorrer apenas de maneira informal, sem espaço para discussões substantivas.

Segundo conselheiros do presidente brasileiro, até esta sexta-feira, dia 12, não houve pedido de encontro por parte do Palácio do Planalto nem da Casa Branca para que os dois líderes voltem a se reunir.

O governo Lula não vê ambiente para discutir temas sensíveis da agenda bilateral durante a reunião do G7. Entre eles estão a tentativa de reverter a classificação das organizações criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como terroristas e a proposta de novas sobretaxas sobre exportações brasileiras com base na Seção 301: uma de 25%, por supostas práticas desleais, e outra de 12,5%, relacionada a trabalho forçado.

Na avaliação do Planalto, não há sentido nem motivação política para uma nova interação neste momento. O governo também descarta que Trump possa mudar decisões discutidas há meses e recentemente oficializadas apenas em razão de uma conversa com Lula.

Um conselheiro do presidente afirma que não seria realista contar com essa mudança e que não há necessidade de reunião agora. Segundo ele, seria uma desmoralização para Trump retirar a designação das facções, e Lula não poderia, neste momento, "suplicar" por uma revisão. A orientação é manter a cooperação técnica entre polícias e estruturas de segurança pública.

Além disso, o prazo administrativo estabelecido pelo Representante Comercial da Casa Branca (USTR) para negociações vai até 15 de julho, e os contatos comerciais em nível técnico continuam em andamento. Por isso, o Palácio do Planalto entende que Trump responderia apenas que aguardará o fim das tratativas comerciais.

Uma nova reunião política de status ministerial, entre o ministro Márcio Elias Rosa, do MDIC, e o embaixador Jamieson Greer, do USTR, estava prevista para esta semana e deve ocorrer em breve para discutir setores e tarifas.

Segundo integrantes do governo, até agora não houve decisão de discutir tarifas específicas, como a do etanol, cujas lideranças se reuniram com Lula nesta semana. Em reuniões anteriores, o governo indicou áreas em que poderia negociar a tarifa.

O governo brasileiro nega, por isso, que tenha tomado providências para antecipar a viagem do presidente para o dia 14 com o objetivo de encontrar Trump. Lula deve chegar à França na tarde do dia 15.

A Presidência da República afirma que a chegada de Trump, estimada pela organização francesa, deve ocorrer depois da chegada de Lula, na noite do dia 15. O republicano celebra aniversário no dia 14.

O que pode ocorrer em Évian-les-Bains, cidade dos Alpes que sedia o G7, é apenas uma espécie de encontro casual nos corredores ou na sala das reuniões de líderes, já que ambos devem compartilhar o mesmo ambiente, segundo diplomatas.

Seria algo semelhante ao que ocorreu na Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), nos chamados "39 segundos" de "química" nos bastidores reservados aos chefes de Estado — e não uma reunião de trabalho com equipes ministeriais, como a recente visita de Lula à Casa Branca, em Washington, ou a reunião realizada em Kuala Lumpur, na Malásia, no ano passado.

Nesses dois encontros anteriores, houve discussão detalhada sobre temas da agenda bilateral, com troca de documentos e propostas dos dois lados, além de definição de métodos e prazos para as tratativas.

Lula terá reuniões bilaterais com o presidente da França, Emmanuel Macron, e com a primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi.

Há outros quatro encontros em avaliação, entre eles com o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, e com os líderes da União Europeia, Ursula von der Leyen, da Comissão Europeia, e António Costa, do Conselho Europeu.

Com os europeus, Lula deve tratar da preocupação brasileira e pressionar por uma revisão da exclusão do Brasil como exportador de carne e produtos de origem animal para o mercado do bloco.

Com Japão e Canadá, o governo pretende discutir temas comerciais ligados ao Mercosul. O objetivo é formalizar o lançamento de uma negociação de acordo de comércio entre Japão e Mercosul e manter contatos voltados à conclusão das negociações do acordo entre Canadá e Mercosul.

Lula também participará, no âmbito do G7, de um almoço com representantes das principais big techs e chefes de Estado e de governo. O presidente deve falar sobre a proposta de regulação no Brasil e sobre o ECA Digital.

Discurso oficial

O presidente se prepara para fazer ao menos dois discursos públicos em sessões de debate dos líderes sobre desequilíbrios macroeconômicos globais e parcerias globais para o desenvolvimento.

Nessas falas, Lula deve se posicionar contra tarifas e decisões unilaterais, incluindo guerras e intervenções militares, além de defender a necessidade de reforma das instituições internacionais.

O discurso ainda está sendo calibrado, mas deve responder a ações do governo Trump, a fim de evitar a percepção de "fraqueza política". O governo entende que a resposta se justifica em razão da disputa pré-eleitoral e da campanha no exterior do pré-candidato e senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Parte dos conselheiros do presidente recomendou que ele não adote o mesmo tom mais agressivo usado em discursos voltados ao público interno no Brasil.

A tendência é que Lula escolha uma linguagem mais diplomática, com críticas ao unilateralismo e ao protecionismo.