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Diagnóstico precoce de cardiopatias congênitas amplia qualidade de vida

Condição atinge cerca de 30 mil crianças por ano no Brasil e exige atenção desde o pré-natal

Agência Brasil 12/06/2026
Diagnóstico precoce de cardiopatias congênitas amplia qualidade de vida
Diagnóstico precoce ajuda crianças com cardiopatia congênita a receber tratamento adequado

Cerca de 30 mil crianças nascem todos os anos no Brasil com algum tipo de malformação no coração, segundo o Ministério da Saúde. Nesta sexta-feira (12), quando é celebrado o Dia Nacional de Conscientização sobre a Cardiopatia Congênita, especialistas reforçam a importância do diagnóstico precoce e do acesso ao tratamento para aumentar as chances de sobrevivência e garantir mais qualidade de vida aos pacientes.

A coordenadora da Divisão de Cardiologia da Criança e do Adolescente do Instituto Nacional de Cardiologia (INC), Renata Mattos, avalia que o acesso ao diagnóstico tem avançado no país, embora ainda existam desigualdades regionais.

“Aqui, na Região Sudeste, a gente tem mais acesso do que na Região Norte, por exemplo. Mas, de forma geral, a gente vê que o diagnóstico está sendo feito e o acesso ao tratamento está cada vez melhor”, afirmou a cardiologista pediátrica, especialista em hemodinâmica de cardiopatias congênitas, em entrevista à Agência Brasil.

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Considerada uma das principais causas de mortalidade infantil por malformações, a cardiopatia congênita exige identificação rápida e acompanhamento especializado. A estimativa mundial é de que cerca de 1% de todas as crianças nascidas vivas apresentem algum tipo da condição. Desse total, aproximadamente 30% precisam de atenção ainda na primeira infância.

Renata Mattos explica que o termo cardiopatia congênita reúne diversas doenças, com diferentes níveis de gravidade. “É qualquer malformação no coração da criança que acontece quando o bebê está se formando ainda dentro da barriga da mãe. Então, o coração se forma com algum tipo de estrutura errada”, detalhou.

Diagnóstico fetal

A cardiologista pediátrica afirma que, quando o problema é identificado ainda durante a gestação, em alguns casos pode haver indicação de cirurgia para correção. Essa situação, no entanto, é rara.

“Na grande maioria das vezes, quando a gente faz o diagnóstico ainda dentro da barriga, no feto, isso serve principalmente para a gente planejar como vai ser o fim da gestação, como vai ser o parto”, explicou.

Se for detectado um tipo de cardiopatia que pode exigir tratamento logo após o nascimento, o parto precisa ocorrer em uma unidade com UTI e estrutura para cirurgia ou cateterismo. Nos casos menos graves, a gestação pode seguir normalmente, com o parto conforme o planejamento inicial.

Em doenças muito graves, a ausência de tratamento nos primeiros dias de vida pode comprometer a sobrevivência do bebê. Já as cardiopatias menos severas podem apresentar sintomas ou repercussões apenas mais tarde.

Atenção aos sinais

Quando o bebê não recebe diagnóstico de cardiopatia grave ao nascer, as famílias devem observar sinais que podem indicar problemas cardíacos.

No acompanhamento com o pediatra, é importante verificar se a criança cresce e ganha peso dentro da curva esperada. “Se houver muita dificuldade de ganhar peso, tem que investigar se não é alguma coisa cardíaca”, orienta Renata.

Também merecem atenção bebês que não conseguem mamar, mamam pouco e se cansam com facilidade, ou apresentam respiração muito acelerada ou ofegante. “São sinais de atenção para que os pais procurem atendimento cardiológico para o filho”, alertou.

Outro sintoma possível, especialmente em casos de alteração na oxigenação do sangue, é a coloração arroxeada, principalmente na ponta do nariz e nos lábios. Crianças mais velhas podem relatar dor no peito ou sensação de palpitação, sintomas que podem estar relacionados a arritmias.

Vida normal

Em muitos casos, as cardiopatias congênitas são corrigidas com um único procedimento. Em outros, o paciente pode precisar de várias cirurgias ao longo da vida, desde o nascimento até a fase adulta.

“Quando você diagnostica direitinho, a possibilidade de a pessoa ter uma vida normal é imensa”, afirmou Renata Mattos.

Os profissionais que acompanham esses pacientes devem permanecer atentos porque, com o envelhecimento, além da cardiopatia congênita, podem surgir condições comuns da vida adulta, como hipertensão e colesterol alto. A médica destaca que cada vez mais pacientes sobrevivem, trabalham e mantêm uma rotina normal, desde que sigam o acompanhamento médico adequado.

“Antigamente, a gente achava que essas crianças não podiam fazer nada, não podiam fazer nenhum esporte, e isso não é verdade. Hoje em dia, a gente até estimula que esses pacientes façam exercícios”, afirmou.

Três cirurgias

Nathan Senna Alves foi diagnosticado com cardiopatia congênita grave ao nascer. Ainda bebê, foi levado por uma tia, que era enfermeira, à instituição Pró Criança Cardíaca, que há 30 anos atende crianças com esse tipo de problema de saúde.

“A doutora Rosa [fundadora da instituição] me acolheu desde que eu nasci. Fiz meu acompanhamento todo e, com 2 anos, tive que operar pela primeira vez. Sempre me tratei lá. Foi a minha segunda casa, desde que eu nasci”, contou Nathan, hoje com 30 anos, à Agência Brasil.

Ele passou por novas cirurgias aos 6 e aos 18 anos para trocar válvulas do coração. “Operei com 18 anos, no dia do meu aniversário, que é 19 de maio”, lembrou.

Nathan é casado, tem um filho de 12 anos e não teve complicações após a terceira cirurgia. Atualmente, faz acompanhamento na Policlínica Piquet Carneiro, vinculada à Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

A cardiologista pediátrica Rosa Célia, criadora do projeto, afirma que histórias como a de Nathan demonstram a importância do acesso à saúde. “Quando há diagnóstico precoce e acesso ao tratamento adequado, a cardiopatia congênita não precisa definir os limites de uma vida”, disse.

Ao longo de três décadas, a instituição atendeu mais de 16 mil crianças e adolescentes e realizou 130 mil atendimentos, oferecendo cuidado completo e gratuito às famílias assistidas.

Acompanhamento no SUS

O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece acompanhamento integral às crianças com cardiopatia congênita, desde o ecocardiograma no pré-natal até cirurgias de alta complexidade.

Os principais pilares de atuação e prevenção no Brasil incluem o ecocardiograma fetal, exame recomendado pelo Ministério da Saúde entre a 24ª e a 28ª semana de gestação para detectar anomalias antes do nascimento; o Teste do Coraçãozinho, triagem neonatal obrigatória feita na maternidade entre 24 e 48 horas de vida para identificar cardiopatias críticas; e a Linha de Cuidado do SUS, que encaminha pacientes diagnosticados à rede especializada, onde podem receber tratamento clínico ou cirúrgico custeado integralmente pelo sistema público.