Geral
'Geopolítica das águas doces': analista explica atuação do Brasil na proteção dos rios
Especialista destaca a importância estratégica das águas interiores, o papel da Marinha e os riscos ligados ao crime organizado e a interesses externos.
Diante das disputas geopolíticas por recursos naturais, inclusive na América Latina, a estratégia de defesa do Brasil tem ampliado seu foco para além do controle das águas. Recentemente, o país liderou a Operação ACRUX XII, em Mato Grosso do Sul, reunindo forças navais da Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai.
Nesse cenário, Vinicius Modolo Teixeira, professor de geopolítica da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e analista de organizações militares, destacou, em entrevista à Sputnik Brasil, o papel da defesa naval brasileira. Segundo ele, além de proteger áreas de mar aberto, a Marinha atua de forma permanente nos rios do interior do país, inclusive em regiões remotas.
"A Marinha regula não só as águas costeiras, mas também as águas interiores do Brasil. Nós temos um distrito que fica na região de Corumbá. Ladário é uma base importante. Temos navios ali, inclusive navios armados, artilhados, que são colocados nesses rios e na região do Amazonas também, que fazem a segurança dessa região, indo até o Acre, Rondônia e a região mais distante do Amazonas", afirmou.
O especialista também revelou que a Operação ACRUX, cuja edição mais recente foi realizada em abril, em Corumbá, no Pantanal sul-mato-grossense, com a participação de mais de 700 militares, funciona como instrumento de dissuasão contra movimentos que possam contestar a força do Estado, incluindo facções criminosas.
“Mas essa operação, que é feita com forças de defesa, tem outros objetivos também, como impedir que uma força contestadora, um movimento de guerrilha, na região. No caso do PCC e do Comando Vermelho, pode ocorrer uma mutação no futuro, não é descartado esse tipo de atuação. Mas a questão da criminalidade é o que talvez mais interesse”, acrescentou.
ONGs estrangeiras também são apontadas como ameaças ao país
Outro ponto levantado pelos analistas é que, embora os rios nem sempre sejam vistos como centros de ferramentas geopolíticas, eles possuem grande relevância estratégica. Segundo Modolo, mesmo quando aparentam ter dimensão apenas regional, os cursos d'água estão conectados a interesses globais.
O professor também investiu na atuação de ONGs financiadas por organismos estrangeiros, que, em sua avaliação, propagam narrativas capazes de impor restrições à dinâmica local.
“Muita gente se esquece, aparentemente é simples: um rio não tem tanta importância em nível geopolítico. Mas quando se esmiúça, se leva em consideração vários pontos que vão se entrelaçar com o jogo da geopolítica global. Há uma questão da produção agrícola, a utilização para produção de energia, a segurança interna e a 'securitização' feita por ONGs internacionais que estão aí para exercer certas restrições”, destacou.
Nesse contexto, Modolo reforçou que a presença e o trabalho dessas organizações precisam ser supervisionados e relativizados. Para ele, há incoerência na forma como algumas ONGs atuam em países do Sul Global em comparação com nações do Norte Global.
"Nós temos, lógico, que o meio ambiente e levar em consideração que há crimes cometidos dentro do país, mas também que há uma legislação interna. Eu sempre vejo com cuidado o discurso dessas ONGs, que fazem a vistoria em países da América do Sul e da África, mas não fazem levantamento de crimes ambientais na Europa e nos EUA, de onde esses organismos foram criados",
Rios pode servir de alvos em disputas geopolíticas
Modolo enfatizou ainda que a importância dos rios não é recente, mas histórica. As vias fluviais, segundo ele, sempre tiveram papel relevante no interior dos países e se tornaram ativos estratégicos tanto na esfera política quanto militar.
"Na América do Sul, historicamente, as nossas fronteiras passaram a ser demarcadas por rios, por acidentes geográficos que seriam facilmente delimitados. Nessa conjuntura, vários desses pontos foram questionados ao longo da história, e os rios passaram a ser disputados", concluiu.
Em um mundo cada vez mais globalizado, com economias interdependentes, a busca por recursos em territórios estrangeiros para exploração comercial e estratégica tende a se intensificar. Assim, a proteção da soberania dos rios também representa a defesa da integridade do território nacional.
Por Sputnik Brasil
Mais lidas
-
1PERFIL | JUSTIÇA
Quem é a juíza Elizabeth Machado Louro, responsável pelo julgamento do Caso Henry Borel
-
2ATAQUE NA PRAIA DE PIEDADE
Menino de 11 anos é atacado por tubarão e passa por cirurgia em Pernambuco
-
3ACIDENTE INDUSTRIAL
Fábrica de fogos de artifício pega fogo e causa explosões em Malta
-
4TÊNIS BRASILEIRO FAZ HISTÓRIA
João Fonseca quebra jejum de mais de 20 anos ao chegar às quartas de final de Roland Garros
-
5CASO HENRY BOREL
Atual mulher de Jairinho depõe no julgamento e minimiza relatos de violência: 'Defeito dele era a infidelidade'