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Por que bolivianos seguem nas ruas há mais de 40 dias?

Protestos, bloqueios, inflação e tensão institucional pressionam o governo de Rodrigo Paz em meio a uma crise social prolongada

Sputinik Brasil 09/06/2026
Por que bolivianos seguem nas ruas há mais de 40 dias?
Manifestantes bloqueiam vias na Bolívia em meio à crise política e social que já dura mais de 40 dias - Foto: © AP Photo / Juan Karita

A Bolívia atravessa há mais de 40 dias uma crise política e social de grandes proporções. Bloqueios de ruas e estradas por manifestantes têm afetado a logística de distribuição de alimentos e combustíveis, enquanto a saída de ministros do governo do presidente Rodrigo Paz aumenta a pressão sobre uma gestão ainda recente.

No mês passado, a inflação boliviana chegou à casa dos 14%. Ao mesmo tempo, o Congresso autorizou o uso das Forças Armadas contra a população que protesta nas ruas. Paz, por sua vez, atribuiu as manifestações a “narcoterroristas” e promulgou uma lei que estabelece regras para a decretação de estado de exceção no país.

Os problemas são numerosos em um país no qual a instabilidade política tem sido recorrente nos últimos anos.

“A Bolívia é o país da América do Sul que teve o maior número de presidentes ao longo da sua história. Isso é uma demonstração clara do quanto instabilidades e protestos têm sido constantes”, afirma Ricardo Luigi, geógrafo, internacionalista e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), em entrevista ao Mundioka, podcast da Sputnik Brasil.

Segundo o analista, protestar é algo tão presente na cultura política boliviana que se reflete até em uma espécie de dito popular: toda sexta-feira, em frente ao Palácio Presidencial, é dia de protesto.

Apesar do governo conturbado e das promessas não cumpridas, Luigi avalia que atribuir toda a responsabilidade da crise ao atual presidente seria uma simplificação. Há um contexto histórico, com múltiplas camadas, que ajuda a explicar o que ocorre na Bolívia, ainda que Paz seja visto como representante da elite, em contraste com lideranças que o antecederam nos últimos anos.

A Bolívia é um país pouco industrializado, que importa alimentos básicos e depende fortemente da exportação de gás natural e, cada vez mais, do lítio. De acordo com Luigi, durante quase 20 anos de governos de esquerda, principalmente sob Evo Morales, o país cresceu, em média, de 4% a 5% ao ano. As transferências sociais também melhoraram a qualidade de vida de parte expressiva da população. Esse modelo, no entanto, começou a se esgotar.

“A população ficou mal acostumada com esse crescimento, ou bem acostumada, acreditando que os benefícios que o Estado concedia durante esse período deveriam ser progressivos. Aí há uma grande frustração da população com a falta de continuação desse desenvolvimento econômico. Não querendo simplificar tudo apenas na questão econômica, mas isso levou até um esgotamento do próprio governo do MAS [Movimento ao Socialismo], e isso traz prejuízos até hoje com o governo do Rodrigo Paz”, explica.

Somam-se a esse cenário os ajustes econômicos, como o fim dos subsídios ao petróleo e ao gás natural. A medida contribuiu para o aumento expressivo dos combustíveis, com reflexos diretos no preço dos alimentos, e foi decisiva para a intensificação da crise em território boliviano.

“Todos os presidentes que tentaram, na Bolívia, fazer esses ajustes estruturais neoliberais passaram por problemas semelhantes. A gente teve a ‘Guerra da Água’ no começo dos anos 2000, a gente teve a ‘Guerra do Gás’ em 2003, que derrubou dois presidentes na Bolívia. Sempre que há medidas de diminuição do Estado, de tentativa de criação de um Estado mínimo na Bolívia, isso pesa muito forte sobre a população em geral”, destaca Luigi.

Mario Tito de Almeida, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Pará (UFPA), acrescenta que um problema mais profundo é a ausência de diálogo. “O grande problema hoje na Bolívia é a falta de capacidade de diálogo entre vários setores produtivos e os trabalhadores. Está faltando interlocução”, avalia. Sem essa mediação, qualquer ajuste econômico se transforma em combustível para o conflito.

Evo Morales é o caminho para o diálogo?

Condenado pela Justiça boliviana e refugiado na região do Chapare, o ex-presidente Evo Morales reapareceu publicamente oferecendo-se como mediador para a paz.

Para Luigi, a situação de Evo expõe “as contradições do Estado boliviano”: ao mesmo tempo em que o Estado simboliza força no cotidiano da população, também dá sinais de debilidade institucional.

Enquanto isso, Evo “se coloca como um grande líder político ainda e, embora se ofereça para trazer a pacificação da Bolívia no momento, ele defende também a necessidade de convocação de novas eleições porque entende que o governo Rodrigo Paz não está conseguindo representar os interesses de grande parte da população boliviana”.

Almeida avalia que o ex-presidente tenta ocupar uma “janela de oportunidade”. “Entendo muito mais o Evo Morales se colocando aí como quem diz assim: ‘Olha, querendo ter algum salvador da pátria, aqui estou eu’.”

Os dois analistas convergem em um diagnóstico preocupante: a Bolívia enfrenta escassez de novas lideranças. De um lado, estão os grupos ligados aos ex-presidentes Luis Arce e Evo Morales; de outro, uma direita vinculada às elites tradicionais e aos interesses dos Estados Unidos. “A ausência de novas lideranças traz consigo esse problema de falta de horizonte para o país”, acrescenta o professor da UFPA.

Estados Unidos de olho, Brasil na retaguarda

A crise boliviana não se limita ao ambiente interno. Há também um contexto geopolítico no qual a Bolívia ocupa posição estratégica na América Latina e no cenário global. O país detém uma das maiores reservas de lítio do planeta e possui reservas de gás relevantes para os vizinhos. Essa combinação atrai o interesse de grandes potências.

“Há uma óbvia escalada de interesse dos Estados Unidos sobre a Bolívia, configurada no apoio ao governo de Rodrigo Paz”, afirma Almeida.

Enquanto isso, China e Rússia mantêm presença mais discreta. Empresas chinesas e russas já firmaram parcerias para a exploração do lítio, mas sem interferência direta na política interna, ao contrário do que os analistas identificam na postura norte-americana.

O Brasil, parceiro estratégico de La Paz, também se mostrou pronto para ajudar o país vizinho. Um exemplo foi o atendimento imediato ao pedido de apoio logístico feito por Paz ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que cedeu um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) para auxiliar na distribuição de alimentos durante os bloqueios de estradas.

Por outro lado, segundo o professor da UFPA, há risco de aumento do fluxo migratório em caso de aprofundamento da crise, sobretudo pela vulnerabilidade de uma fronteira ainda pouco monitorada.

“São fronteiras com certas porosidades, o que preocupa em termos de soberania”, diz. Para Almeida, a situação deve acender o alerta do governo brasileiro, já que é “interessante para o Brasil manter a Bolívia tranquila”.