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Fábrica do mundo: como a Ásia reconquistou o centro da economia global?
Antes dos EUA e da Europa industrializarem o mundo, a maior parte da riqueza global já estava na Ásia. Essa constatação, aparentemente contraintuitiva para ouvidos ocidentais, é ponto de partida para entender a trajetória que colocou China, Japão e os chamados tigres asiáticos no coração da produção mundial contemporânea.
Em entrevista ao Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, o professor de relações internacionais da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Renan Montenegro, contou que, conforme estimativa do economista Angus Maddison, até meados do século XIX, China e Índia concentravam a maior parte das riquezas globais.
Foi o choque das Guerras do Ópio e a colonização do subcontinente indiano que deslocaram esse eixo para o Ocidente — uma ruptura violenta que só começaria a se reverter após a Segunda Guerra Mundial.
"O que a gente observa hoje, ao se falar de um retorno de uma ordem internacional com eixo na Ásia, nada mais é do que uma espécie de volta dos ponteiros desse relógio para o lugar de costume", afirma o analista.
'A revoada dos gansos' e a expansão chinesa
A reconstrução asiática do pós-guerra não foi acidental. O Japão foi o primeiro motor, impulsionado por financiamentos, transferência tecnológica e acesso ao mercado norte-americano, numa estratégia deliberada dos Estados Unidos para fortalecer uma "vitrine capitalista" no leste asiático, especialmente após a Revolução Comunista chinesa de 1949.
O modelo da "revoada dos gansos" faz referência à forma de ver que os gansos fazem ao voar "em que na frente há o líder e, subsequentemente, em formato de 'V", os outros que vão seguindo", explica Raphael Maciel, mestre em relações internacionais pela Universidade de São Paulo (USP).
Neste modus operandi o Japão, ao passo que atingia um certo patamar de desenvolvimento, "repassava essas tecnologias e indústrias", especialmente para os chamados Tigres Asiáticos: Coreia do Sul, Hong Kong, Singapura e Taiwan.
A China, por sua vez, entrou em cena com traço distintivo. Após a revolução e estabelecimento do Partido Comunista Chinês, a partir da década de 1970 há abertura de mercado, mas com forte presença estatal e empresas públicas como pilares da estratégia de desenvolvimento. Seja no chamado "capitalismo de Estado ou socialismo de mercado", como levanta Montenegro, o resultado é incontornável.
Entretanto, a premissa de um Estado ativo para a consolidação das economias asiáticas não ficou restrita aos chineses, pelo contrário. Contra o discurso liberal clássico, o desenvolvimento asiático foi fortemente orquestrado pelo Estado.
Segundo o professor da UFPE, no Japão, o Ministério de Comércio Internacional e Indústria coordenou a acumulação capitalista por meio dos keiretsus — conglomerados que integram desde indústria têxtil até automóveis, girando em torno de um braço financeiro central. Na Coreia do Sul, os chaebols como Hyundai e LG seguiram lógica semelhante.
"Esses países cresceram significativamente por conta dessas intervenções estatais, desses planejamentos, desses investimentos em infraestruturas, dessas facilidades dadas pelo governo para as suas próprias empresas. Se não fosse por isso, esses países não se desenvolveriam", aponta Maciel.
A força do gigante asiático na conjunta atual
"Durante a pandemia, quando houve o lockdown na China, fábricas em todo o mundo, inclusive aqui no Brasil, precisaram dar férias coletivas, porque os componentes que lá eram produzidos não estavam chegando", recordou Montenegro. O recado por si só é um indicativo para a importância do setor industrial chinês no âmbito mundial.
A realidade, segundo o especialista, é que a China é "a fábrica do mundo", por conta do grande poder estrutural na face da produção que Pequim ostenta.
"Se a gente olha, sobretudo, os setores-chave da indústria 4.0, 5.0 praticamente, os setores centrais da economia internacional contemporânea, minerais críticos, toda a cadeia de baterias e de carros elétricos, componentes eletrônicos como um todo, a China é a fábrica do mundo, com certeza. Ela pode não ser exatamente o local, o território econômico onde o produto é gerado do início ao fim, como foi durante algum período, mas certamente é o território econômico do mundo por onde parte significativa dos fluxos globais de produção precisa necessariamente passar", argumenta.
O gigante asiático, inclusive, caminha para liderar o que pode ficar conhecido como século asiático. "A Nova Rota da Seda hoje é uma das principais estratégias da China para consolidar a Ásia dentro da como um polo, podemos dizer assim, um polo industrial e logístico global", explica Maciel.
A China, hoje, já investe em infraestruturas do Laos ao Paquistão, buscando alternativas para escoar seus produtos, para que ela não fique refém de uma mesma opção.
Do hard power ao soft power, dos poderio militar aos K-dramas, Maciel ressalta que a Ásia tem ganhado cada vez mais poder e que o século asiático é um horizonte plausível. Isso não quer dizer que haverá uma hegemonia asiática, mas significa que em um "sistema internacional mais multilateral, esses países asiáticos possuam maior poder e maior influência", destaca.
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