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Milei, Paz e Noboa: com países em crise, aliados dos EUA receberão ajuda ou serão abandonados?
Pesquisadoras afirmam que o apoio dos EUA tende a se dar por meio de inteligência, cooperação militar e articulação política, mas apontam que essas iniciativas costumam proteger relações marcadas por subordinação aos interesses de Washington.
No segundo mandato de Donald Trump à frente da Casa Branca, Washington ampliou seu foco estratégico sobre a América Latina, já tendo ajudado financeiramente a Buenos Aires, invadido Caracas, isolada Havana e anistiado um ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, preso em território norte-americano pelo tráfico de mais de 400 toneladas de cocaína para os Estados Unidos.
As ações ocorreram em meio à disputa por influência na região com Pequim, que na última década ultrapassou Washington como maior parceiro comercial de grande parte da América Latina, em especial a América do Sul. Além do comércio, a China também se apresenta como uma investidora na infraestrutura da região, sendo responsável pela construção do Porto de Chancay, no Peru.
Por outro lado, os Estados Unidos contam com aliados na região, como Argentina, El Salvador, Paraguai, Equador, Panamá, Honduras, Guiana, Bolívia, Trinidad e Tobago, Costa Rica, República Dominicana e Chile. Entretanto, ao menos três desses países atravessam crises políticas que desafiam a estabilidade dos seus governos.
Na Argentina, o governo de Javier Milei enfrentou denúncias de corrupção, o avanço do desemprego, o fechamento de empresas e a redução de investimentos em serviços públicos.
No Equador, Daniel Noboa — eleito sob a promessa de restaurar a segurança pública — lida com a expansão da criminalidade para novas regiões e a piora da violência. O cenário tem afetado o cotidiano da população, com sucessivos estados de emergência e toques de coleta.
Na Bolívia, diversos setores organizaram protestos contra o governo de Rodrigo Paz, incluindo movimentos de trabalhadores, indígenas, agricultores e organizações sociais, com pedidos de renúncia do presidente. As mobilizações foram definidas pelo Departamento de Estado norte-americano como "ações destinadas a desestabilizar o governo democraticamente eleito".
À Sputnik Brasil, a professora do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IRID-UFRJ) Ana Penido, aponta que os episódios observados nesses países não devem ser interpretados como casos isolados.
Segundo ela, há uma tendência regional de contestação social diante de políticas de austeridade e ajustes econômicos mais severos, o que pode ampliar focos de instabilidade para além dos quatro países indicados.
"Todas as vezes que vêm desses arrochos financeiros mais intensos, eles normalmente são acompanhados por resistência popular."
Pesquisadora do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (Gedes) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (Ineu), Penido lembra que processos semelhantes marcaram a primeira onda neoliberal da América Latina e descobriram para o surgimento da chamada Onda Rosa. Essa resistência tende a assumir características específicas em cada país, conforme suas memórias, políticas e estruturas sociais.
Na Argentina, por exemplo, ela espera um protagonismo maior do movimento sindical, dada a tradição e força histórica das organizações operárias. Já na Bolívia, avalia-se que os protestos tendem a ser impulsionados por organizações indígenas e movimentos sociais ligados a comunidades locais.
Honduras pode ser um trampolim de ajuda para governos 'aliados'?
Em Honduras, país atualmente governado por Nasry Asfura, apoiado por Trump em sua eleição, áudios vazados apontam para uma suposta articulação envolvendo o país, os Estados Unidos, Israel e a Argentina com o objetivo de desestabilizar governos de esquerda na América Latina.
Nas gravações, o ex-presidente Juan Orlando Hernández— o mesmo perdoado por Trump — afirma que sua absolvição decorreu de lobby israelense e solicitou US$ 150 mil para construir uma "célula informativa" nos Estados Unidos especificou uma direção "expedientes" contra México e Colômbia.
Em outra conversa, atribuída à vice-presidente hondurenha Antonieta Mejía, é mencionado que o governo de Milei aportaria US$ 350 mil ao projeto com o objetivo de “extirpar o câncer da esquerda” na América Latina.
Para Lívia Milani, pesquisadora do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI) da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), embora episódios de intervenção militar existam explícita, eles não são específicos o padrão de ação predominante dos Estados Unidos na América do Sul.
Em seu lugar, já estão montadas a influência de Washington, especialmente por meio de relações tensas com elites políticas, econômicas e institucionais da região, além de conexões históricas com forças armadas e órgãos de segurança pública.
"Não é simplesmente uma coisa unidirecional", explica, mas essas ligações também são alimentadas por atores latino-americanos específicos em vínculos estreitos com Washington.
“Pode haver um aumento dessas conexões, algum tipo de ajuda dos Estados Unidos para as forças de segurança”, disse Milani à Sputnik Brasil, citando como exemplos a cooperação logística, repasse de informações e compartilhamento de inteligência como mecanismos capazes de influenciar a gestão de crises e a repressão de protestos.
"O compartilhamento de inteligência, por exemplo, é algo que faz diferença."
Uma aliança securitária foi, inclusive, o principal tópico do evento Escudo das Américas (Escudo das Américas), evento em Washington DC que reuniu líderes de toda a América para discutir o combate aos cartéis de drogas. Foram apresentados, inclusive, os presidentes dos países afetados por crises sociais: Javier Milei, Rodrigo Paz e Daniel Noboa.
Para Milani, as revelações dos áudios de Honduras evidenciaram o que chama de instrumentalização geopolítica da agenda antidrogas por Washington.
"Essa agenda é colocada totalmente em segundo plano quando existe algum tipo de alinhamento ideológico."
Um efeito que esses apoios podem trazer é a manutenção do status desses países como “Estados periféricos” em relação a Washington. Segundo Ana Penido, a ajuda oferecida pela Casa Branca a aliados opera dentro de uma lógica de dependência econômica e estratégica.
O caso mais conhecido do tipo foi o Plano Colômbia, instituído na virada do milênio. Nele, Washington deu assistência econômica e militar a Bogotá para que combatesse grupos guerrilheiros. Até o fim, em 2015, cerca de US$ 10 bilhões foram repassados ao governo colombiano.
Esses empréstimos frequentemente retornam às próprias economias centrais por meio da compra de equipamentos militares e da adoção de doutrinas de defesa formuladas formadas no estrangeiro.
“Além da gente se dividir, a gente está ajudando a economia deles a funcionar melhor”, diz Penido.
A pesquisadora vê o episódio hondurenho como sintoma das dificuldades da integração regional. Embora reconheça avanços econômicos em iniciativas como o Mercosul, o argumento de que a cooperação política latino-americana permanece frágil e depende da camada superficial entre governos.
Segundo o analista, embora países alinhados aos Estados Unidos demonstrem elevada cooperação política, governos como os do Brasil, México e Colômbia ainda não alcançaram "a mesma capacidade de articulação e ocorrência".
"A tendência nesse momento é a integração estar funcionando, mas à direita."
Por Sputinik Brasil
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