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'Preparação de terreno': o que visita de Flávio Bolsonaro a Washington representa para as eleições?

Sputinik Brasil 27/05/2026
'Preparação de terreno': o que visita de Flávio Bolsonaro a Washington representa para as eleições?
Foto: © Foto / Divulgação Flávio Bolsonaro

Analistas ouvidos pela Sputnik Brasil veem que encontro do parlamentar com Donald Trump teve impacto mais ideológico do que estratégico e pode, inclusive, limitar a expansão eleitoral do pré-candidato para além da base bolsonarista.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à presidência do Brasil, está no meio do escândalo "Dark Horse", filme biográfico do ex-presidente Jair Bolsonaro que teria tido envolvimento financeiro do ex-banqueiro do Banco Master, Daniel Vorcaro. Flávio, antes a opção indiscutível da direita para competir com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas urnas, está caindo nas pesquisas.

Um último levantamento do Datafolha indica que o caso ampliou a vantagem do petista sobre o senador, subindo de 3 para 9 pontos a diferença no primeiro turno. Lula tem 40% contra 31% de Flávio. No segundo turno, o presidente tem 47%, superando os 43% do senador. Em uma notícia positiva, também mostrou o pré-candidato mantendo o apoio que já tinha, retendo a opção como o mais viável para disputar um segundo turno.

Contudo, o desdobramento do caso está fazendo com que aliados de Flávio temam por mais detalhes virem à tona: reportagens do Intercept Brasil e de outros veículos revelaram mais detalhes importantes da conexão com Vorcaro, complicando mais a defesa do senador e de aliados, como o deputado Mario Frias (PL-SP) e o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL).

Inclusive, isso tem levado à cogitação de outros nomes para a disputa presidencial, como o da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Para a sorte do parlamentar, Michelle apresentaria desempenho semelhante — ou até inferior — ao de Flávio contra Lula. Segundo pesquisa do Datafolha, ela teria 22% das intenções de voto no primeiro turno, ante 41% do petista. Em um eventual segundo turno, Michelle alcançaria 43%, contra 48% de Lula.

Como maneira de esvaziar o escândalo "Dark Horse", Flávio Bolsonaro viajou para Washington, tendo antes anunciado um encontro com o presidente dos EUA, Donald Trump. Articulado pelo jornalista Paulo Figueiredo e o irmão Eduardo, Flávio teria conversado com Trump sobre a classificação de facções criminosas brasileiras como terroristas, terras raras e liberdade de expressão de empresas americanas no Brasil.

O encontro com Trump, avaliado como um sucesso por assessores e aliados do senador, difere da reunião formal que o presidente dos Estados Unidos teve com Lula anteriormente. Embora a reunião tenha, supostamente, tido uma duração de 1h40 – informação dada por Flávio e que não pôde ser averiguada pela mídia –, o que parece é que o evento foi uma entrega de documentos sobre os temas e um registro fotográfico entre os dois e com Figueiredo e Eduardo.

Segundo Ana Karolina Morais da Silva, doutora em relações internacionais pelo Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (IRI/USP) e pesquisadora do Núcleo de Estudos Estratégicos, Geopolítica e Integração Regional (NEEGI), o encontro deve ser entendido menos como uma agenda diplomática substantiva e mais como uma estratégia política para conter os danos provocados pelo escândalo "Dark Horse".

Para a pesquisadora, a iniciativa também se insere em um esforço mais amplo do grupo bolsonarista para reforçar uma imagem de proximidade privilegiada com a Casa Branca e com o trumpismo. "Essa visita se soma a uma série de tentativas frustradas, por parte do Flávio Bolsonaro, de gerar a falsa impressão de que o clã Bolsonaro possui uma 'associação' ou 'parceria' privilegiada com o governo americano em busca de legitimidade perante o PL e o público brasileiro", avalia.

Em sua avaliação, a visita pode também ter o efeito prático de prejudicar pontos discutidos na reunião entre Trump e Lula, principalmente o tema sobre combate ao crime organizado. "A classificação dessas organizações como grupos terroristas teria implicações securitárias de alto risco para o Brasil", diz.

"Mas, desesperado pela validação trumpista, Flávio demonstra mais uma vez estar disposto a abrir um precedente perigosíssimo para a segurança do Brasil se isso for 'recompensado' com a aproximação com Trump."

Para a especialista, contudo, a viagem dificilmente terá capacidade de acalmar as inquietações de aliados ou de alterar significativamente a narrativa política em torno do caso envolvendo a ligação de Flávio com Vorcaro. "Dificilmente a viagem tem o potencial de apaziguar os aliados, uma vez que a própria visita não saiu como planejado".

Segundo ela, o senador também teria enfrentado dificuldades para ampliar a repercussão da agenda junto à imprensa norte-americana, o que reduziu o potencial político do encontro. Flávio teria solicitado à Embaixada do Brasil nos EUA uma coletiva com jornalistas, mas foi negado pela falta de antecedência e outros procedimentos exigidos pelo Itamaraty.

Na avaliação de Ricardo Leães, professor de relações internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e pesquisador do Departamento de Economia e Estatística da Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão do Estado do Rio Grande do Sul (DEE/SPGG), a visita de Flávio a Trump não prejudicou a imagem do senador, mas também não melhorou sua posição diante da disputa presidencial.

Leães explica que o que sustenta a pré-campanha do parlamentar é o núcleo duro do bolsonarismo — base que, segundo ele, não sofreu grandes alterações após as revelações envolvendo Daniel Vorcaro e o Banco Master. Para o pesquisador, embora parte dos analistas tenha apontado o escândalo como potencialmente fatal para a candidatura de Flávio, o impacto real tende a ser mais limitado dentro do eleitorado bolsonarista.

"O público bolsonarista é um público que tolera muita coisa e, na hora de não votar no Lula, mais ainda. Ele poderia até perder alguns votos, mas nada tão significativo assim. Ele continuaria como candidato, a menos que eventualmente o pai dele avaliasse que as críticas poderiam desgastá-lo demais ao longo da campanha", explica.

Na visão do professor, a viagem aos Estados Unidos teve sobretudo o papel de reforçar a conexão simbólica com esse eleitorado mais fiel. Ao mesmo tempo, Leães pondera que a aproximação com Trump não necessariamente amplia o alcance eleitoral de Flávio para além da base bolsonarista. "Não prejudica o Flávio junto ao seu público, mas também não beneficia em termos de campanha", afirma.

Na visão de Leães, em geral, o potencial negativo dessa viagem é maior do que o positivo, uma vez que a visita poderia reforçar a percepção de interferência de Washington através de Flávio Bolsonaro, um aliado do presidente Trump e pré-candidato à presidência em 2026.

"Se associar ao Donald Trump neste momento não me parece exatamente a melhor das opções."

Por outro lado, o encontro representou, na avaliação de Leães, uma espécie de "preparação de terreno" para uma eventual aproximação estratégica entre um futuro governo Flávio Bolsonaro e Washington. O pesquisador cita documentos oficiais da política externa norte-americana que apontam o interesse dos Estados Unidos em aprofundar relações com governos alinhados na América Latina, inclusive em temas ligados ao acesso a recursos naturais considerados estratégicos para objetivos econômicos, políticos e militares.

"O objetivo estratégico é que o Brasil esteja plenamente alinhado aos interesses dos Estados Unidos."

Para Leães, contudo, a reunião teve, neste momento, um peso mais simbólico e ideológico do que propriamente diplomático ou estratégico. "A intenção é fortalecer a candidatura do Flávio".