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Retomada da industrialização do Brasil pode passar pelo BRICS, diz analista
Especialista aponta que parcerias com Rússia e China, além do Novo Banco de Desenvolvimento, podem impulsionar o setor produtivo brasileiro.
O Dia da Indústria, celebrado nesta segunda-feira (25), evidencia os desafios estratégicos do setor no Brasil. O país enfrenta o dilema de recuperar sua capacidade produtiva em meio a tensões geopolíticas, responder à transição energética com modernização acelerada e dominar tecnologias de ponta, requisitos indispensáveis para a nova industrialização.
Nesse contexto, o governo federal deve buscar parcerias internacionais para fortalecer sua política industrial, e o BRICS surge como alternativa promissora, segundo Igor Estima Sardo, doutorando em Ciência Política pela UFRGS e pesquisador associado do ISAPE (Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia), em entrevista à Sputnik Brasil.
"Em relação ao BRICS, o Brasil pode ter um plano real para a retomada da indústria. Rússia e China seriam parceiros naturais. Na verdade, a China já tem sido um investidor muito forte no Brasil. Vimos, por exemplo, capitais de longa data dos EUA saindo do Brasil, como no caso da Ford, cujos galpões na Bahia se tornaram galpões da BYD, uma empresa chinesa", afirmou.
O especialista, também mestre em Estudos Estratégicos Internacionais, ressalta que o Brasil, como acionista do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), conhecido como Banco do BRICS, pode acessar recursos para investir e modernizar seu parque industrial.
"Uma retomada da indústria brasileira, eu acho, passa pelo BRICS. Lembrando que o Brasil é acionista do NDB, podemos atrair muitos investimentos para infraestrutura. Já vimos casos desse tipo no Maranhão e em outros estados brasileiros", comenta.
Acordo Mercosul-UE intimida a indústria brasileira
O recente acordo entre Mercosul e União Europeia (UE) amplia oportunidades de exportação, mas, na avaliação de Sardo, também expõe a indústria nacional à concorrência de economias europeias mais sofisticadas, que contam com maior escala, financiamento e densidade tecnológica.
"Esse acordo entre Mercosul e UE intimida muito a indústria nacional. A tendência é realmente a reprimarização e uma especialização regressiva. Ou seja, vamos ficar cada vez mais especializados em produtos primários. Dessa forma, produtos que não têm grande complexidade acabam delegados, e reduzimos cada vez mais nossa complexidade econômica", destaca.
O analista também critica o foco excessivo no crédito, em vez do investimento direto em infraestrutura produtiva. Segundo ele, isso aumenta a dívida e limita ações efetivas para a expansão industrial.
"Questões de benefício com incentivo de crédito são paliativas. Sem investimento público, o Brasil perde sua capacidade [de industrialização] e reduz a formação de capital fixo no PIB. Isso realmente intimida cada vez mais nossa indústria. Se não houver reação, o país vai perder o pouco de flexibilidade industrial que ainda resta", observa.
Etapas para o desenvolvimento industrial brasileiro
Ao traçar um panorama histórico da industrialização do Brasil, Sardo aponta as demandas atuais do país, especialmente diante do avanço global da Indústria 4.0.
"Na minha opinião, a prioridade é manter o que temos da primeira e da segunda revolução industrial e nos inserir cada vez mais na terceira e na quarta. Refiro-me a semicondutores, chips, informática, redes, o que chamamos de internet das coisas, com a indústria cada vez mais conectada. Mas, no âmbito da quarta revolução industrial, robótica e inteligência artificial, o Brasil ainda não tem nada", conclui.
Com o avanço tecnológico e a intensificação das disputas por controle de fluxos e relações políticas no cenário internacional, a indústria torna-se ainda mais estratégica. Nesse contexto, o Brasil, assim como outros países do Sul Global, precisa se adaptar rapidamente à nova realidade.
Por Sputnik Brasil
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