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OPEP africana à vista? Como crise no Oriente Médio pode alterar rumos do petróleo no mercado mundial?
Diante da instabilidade no Oriente Médio em relação ao petróleo, devido à guerra travada pelos EUA e Israel contra o Irã, as reservas africanas tornaram-se o novo alvo dos interesses do Ocidente em uma nova corrida geopolítica por energia.
Mestre em relações internacionais pela PUC-Rio e estudioso do continente africano, Franco Alencastro conversou com o podcast Mundioka, da Sputnik Brasil sobre o tema desta sexta-feira (22).
Ele salientou que a diversificação de fontes energéticas é anterior ao processo político recente no Oriente Médio, mas que se intensificou sobremaneira após vários “pontos de estrangulamento no estreito Ormuz".
Segundo ele, de 8% a 10% da produção mundial de petróleo vêm de países africanos, cujo valor estratégico começa aumentar relativamente.
"Angola, estima-se, hoje em dia, está produzindo mais ou menos metade do que seria capaz, já chegou a produzir 2 milhões de barris por dia. Agora produz mais ou menos um milhão, então tem muito espaço para aumentar ainda".
O aumento do preço do petróleo tende a valorizar a sua exploração nos campos existentes, aumentar a produção e os investimentos, incentivando, inclusive, países que tem petróleo, mas ainda não o exploram, como a Namíbia, que tem previsão de começar a a produção a partir de 2030.
"Esses investimentos, essas movimentações que estamos vendo na África, ainda não alcançaram todo o potencial, principalmente levando em consideração o tamanho das reservas".
O atual contexto pode ampliar a fatia do mercado internacional de petróleo dessas nações, mas o potencial africano não é capaz de substituir as reservas do Oriente médio, ponderou, ao esclarecer que somente o Irã produz 5% do combustível, metade de toda a produção da África.
"Essa capacidade não existe hoje e ela depende de investimentos vultosos [...], de um lado você tem sim um certo déficit de capital, tanto capital humano como capital em termos de máquinas e fundos necessários para realizar esses investimentos nos países africanos, por razões históricas".
Uma versão africana da OPEP?
Caso os investimentos aumentem, o analista cogitou a possibilidade de uma versão africana da Organização dos Países Exportadores de Petróleo, basicamente "um mecanismo de coordenação especificamente do continente, um outro foro para os países poderem coordenar suas atividades".
O principal desafio é garantir que os recursos advindos de exportações beneficiem a maioria dos cidadãos e não apenas alguns grupos, disse ele ao frisar que, historicamente, a exploração de petróleo e de recursos naturais como um todo na África trouxe poucos retornos para suas populações e o desenvolvimento social, além de gerar conflitos locais:
"Exemplos não faltam, especialmente alguns em anos recentes. Por exemplo, em Moçambique, você tem o caso de Cabo Delgado [...] foi um dos casos em que essa exploração acabou se entremeando com o conflito até eles serem indistinguíveis".
Um dos exemplos, segundo ele, é a petroleira estatal de Angola, Sonangol, que acabou envolvida em escândalos de esquemas de corrupção, em que parte da elite política do país enriqueceu com o comércio do petróleo, porque esses recursos não estão sendo destinados da forma correta.
"São muitos desafios, não somente de desenho institucional, dos contratos do petróleo, mas também, uma vez os contratos feitos, em como esses recursos são aplicados, de fato, na realidade dos fatos. Então, é muita coisa que tem que ser feita ainda para que o petróleo possa beneficiar adequadamente a população dos países onde ele está".
O pesquisar também citou ainda o delta do rio Níger, na Nigéria, em que populações são afetadas até hoje pela exploração de petróleo, pela poluição e perda das suas terras para exploração de petróleo por multinacionais: "isso acaba tensionando conflitos étnicos que já existiam na região".
Por outro lado, ele ressaltou que o quadro político na África hoje em dia que é muito diferente de dez anos atrás.
"A África tem uma janela de oportunidade não só para reorientar esse comércio agora no curto prazo, mas também para modificar o seu papel no comércio internacional de energia, no longo prazo, aumentar a sua participação e talvez realmente reorientar de vez alguma dessas cadeias produtivas", avaliou.
Nesse sentido, o especialista destacou a importância do BRICS, grupo de países que buscam construir um sistema de governança multilateral, para sustentar essa transformação na Africa.
Por um lado, a Rússia e a China hoje são grandes parceiros de diversas nações do continente. Moscou, por exemplo, surgiu nos últimos anos como um parceiro de segurança no lugar da ex-colonizadora França. Já Pequim realiza grandes investimentos em infraestrutura, favorecendo as cadeias econômicas africanas.
"Isso pode ser um momento transformador para a importância da África no comércio internacional de energia, de dar um salto qualitativo realmente nessa produção de petróleo [...] adquirir um papel que seja maior e mais parecido com o tamanho que o continente tem em não ser mais 8% ou 10% da produção mundial de petróleo, mas mais, quem sabe, uns 15%, quem sabe aumentar bastante".
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