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Por que a Mata Atlântica enfrenta encruzilhada entre desmatamento zero e extinção
Bioma mais devastado historicamente do Brasil, a Mata Atlântica se encontra em uma encruzilhada que ilustra o desafio do Brasil para zerar o desmatamento até 2030.
Os dois principais sistemas de monitoramento do bioma indicaram queda nas taxas de desmate no ano passado, segundo divulgado nesta quarta-feira, 13, pela Fundação SOS Mata Atlântica.
Houve queda de 28% no desmatamento registrado pelo Sistema de Alertas de Desmatamento (SAD) Mata Atlântica, desenvolvido pela organização em parceria com MapBiomas e Arcplan. A área desmatada caiu de 53.303 hectares em 2024 para 38.385 hectares em 2025, menor índice desde 2022, quando o monitoramento teve início.
Já o desmatamento em florestas maduras do ecossistema foi de 8.658 hectares no período de 2024 a 2025, segundo monitoramento feito em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o que representa uma redução de 40% em relação ao ano anterior.
É o menor valor da série histórica (desde 1985) do Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica, mapeamento pioneiro no País da vegetação nativa de um bioma.
O balanço divulgado pela Fundação SOS Mata Atlântica utiliza dois sistemas de monitoramento: uma captação através de imagens de satélite dos grandes fragmentos florestais do bioma, com mais de três hectares, e tem uma série histórica mais longa; outro, mais recente, compila alertas semanais que auxiliam o trabalho dos órgãos de fiscalização e funcionam como uma “lente” mais potente, que enxerga desmatamentos a partir de 0,3 ha.
Dá para comemorar?
A boa notícia pede cautela. Apesar da queda, a perda registrada no ano passado ainda equivale a 33 campos de futebol subtraídos por dia de matas maduras.
“O desmatamento diminuído muito, mas ainda é bastante para um bioma tão destruído”, observa Luís Fernando Guedes Pinto, diretor executivo da Fundação SOS Mata Atlântica. “A gente ainda tem um cenário em que é possível a extinção da Mata Atlântica em algumas regiões do País, como já ocorreu em outras”.
Para ele, os resultados positivos - presentes também em outros biomas - estão ligados principalmente a medidas que afetam o bolso dos desmatadores, como o corte de crédito rural e embargo de áreas com desmatamento ilegal, suspendendo a venda de seus produtos.
A convivência entre desmatamento (ainda que em tendência de queda) e recuperação florestal na Mata Atlântica aponta para dois caminhos possíveis: uma promessa e um trágico, segundo Guedes Pinto.
Sem promessa, a Mata Atlântica pode se tornar o primeiro bioma a zerar o desmatamento, uma "volta por cima" que seria exemplo para o mundo. No trágico, ela desaparece onde está mais fragilizada e fica reduzida a apenas alguns fragmentos, e outros biomas, como a Amazônia, podem seguir o mesmo curso.
A lei da Mata Atlântica foi um divisor de águas para os índices de desmatamento do bioma, muito altos até os anos 1990 e início de 2000. Neste ano, em que ela completa duas décadas, especialistas alertam que uma alteração feita pela Lei Geral do Licenciamento Ambiental, em vigor desde fevereiro, pode aumentar o risco de devastação nos principais remanescentes da floresta.
Com a norma, o desmate em áreas de planejamento primário e secundário, e em estágio médio a avançado de regeneração da Mata Atlântica tornou-se passível de ser liberado por municípios, possivelmente com menor capacidade técnica e mais sujeito a pressão local do que os órgãos licenciadores estaduais e federais.
Onde o desmatamento na Mata Atlântica está concentrado?
Atualmente, as regiões com maior desmatamento no bioma estão no Vale do Jequitinhonha, entre Minas Gerais e Bahia, e no Piauí em uma região de transição com o Cerrado e a Caatinga.
Também há focos no Mato Grosso do Sul, na transição com o Pantanal, e na parte central do Paraná e de Santa Catarina, embora os Estados do sul tenham tido redução expressiva no desmatamento da Mata Atlântica nos últimos anos.
O SAD aponta redução da derrubada em 11 dos 17 Estados do bioma, com destaque para Bahia e Piauí, que no entanto seguem entre os maiores responsáveis pela perda de área de Mata Atlântica:
- Bahia - 17.635 ha
- Minas Gerais - 10.228 ha
- Piauí - 4.389 ha
- Mato Grosso do Sul - 1.962 ha
Juntos, os Estados acima detêm quase 90% da área desmatada em 2025. Nos demais, as perdas ficaram abaixo de 1.000 hectares.
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