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Horário nobre, algoritmo estreito

Quando a diversidade LGBTQIAPN+ gera audiência e engajamento, mas a existência das pessoas ainda incomoda

Luísa Santini 14/05/2026
Horário nobre, algoritmo estreito
- Foto: Reprodução | TV Globo

18,9 milhões de brasileiros assistiram a uma cerimônia coletiva LGBT na novela das 21h da Globo. Viviane, uma mulher transexual, casou-se com Leonardo. Lorena e Juquinha, um casal lésbico, selaram a união no mesmo altar. Foi a primeira vez na história da teledramaturgia nacional que um casamento trans ocupou o horário nobre. O vilão da trama, um homem que odeia pessoas LGBT com a mesma convicção dos parlamentares de extrema direita que inspiraram o personagem, tentou impedir o momento e fracassou. 

A cena chega às vésperas do 17 de maio, data que marca a retirada da homossexualidade da lista de doenças da Organização Mundial da Saúde em 1990, e que hoje simboliza o Dia Internacional de Combate à LGBTIfobia. Trinta e cinco anos depois, a novela e o cotidiano das plataformas digitais colocam em evidência o paradoxo da violência algorítmica: ao mesmo tempo em que pessoas LGBTQIAPN+ são um nicho valioso para consumo e engajamento, também acabam sendo vistas como “problemáticas” pelas próprias hierarquias de conteúdo. Nesse cenário, preconceitos antigos são reproduzidos de forma menos explícita, escondidos sob decisões aparentemente “neutras” dos algoritmos. 

Os mesmos canais que vendem audiências LGBTQIAPN+ a anunciantes bloqueiam hashtags de diversidade e desmonetizam criadores que produzem exatamente o conteúdo que essas plataformas usam para atrair marcas. A visibilidade, historicamente reivindicada como estratégia política central pelo movimento LGBTQIAPN+, começa a operar de forma ambivalente: pode produzir reconhecimento e conexão, mas também intensifica processos de controle, assédio e punição, sobretudo quando mediada por sistemas algorítmicos normativos. Shoshana Zuboff descreveu essa arquitetura como capitalismo de vigilância, um regime que comercializa comportamentos futuros extraídos da vida cotidiana. 

O TikTok proibiu, por exemplo, em diretrizes internas tornadas públicas, expressões de afeto entre pessoas LGBTQIAPN+ e registros de ativismo político, sob o argumento de respeito a "sensibilidades culturais" locais. O modelo LLaMA 4, da Meta, recomendou conteúdos associados à "terapia de conversão" a pessoas que pesquisavam sobre homossexualidade, uma consequência de dados saturados de patologização, conforme denúncia da organização GLAAD. Em janeiro de 2025, na posse de Donald Trump, Zuckerberg, Musk, Bezos, Altman e o CEO do TikTok ocupavam as primeiras fileiras. Com fortunas que somadas superam cinco trilhões de reais, os tech bros ali reunidos chegaram como arquitetos de um regime sociotécnico excludente que articula autoritarismo político e conservadorismo moral. É o que temos denominado fascismo digital. 

O 17 de maio convoca, portanto, uma luta que vai além das ruas e das instituições. Quem co-projeta as infraestruturas digitais, quem define o que é conteúdo sensível, quem responde juridicamente pelos efeitos de suas próprias arquiteturas são questões políticas urgentes. Nas brechas que todo grande sistema produz, iniciativas de hackerativismo cuir, transfeminista e antirracista já constroem respostas. 

Viviane e Leonardo, Lorena e Juquinha disseram "sim" onde o ódio tentou dominar e não conseguiu. Mas o avanço da representação LGBTQIAPN+ na teledramaturgia brasileira não resulta de uma conversão ética das emissoras, e sim da pressão de movimentos sociais combinada ao cálculo de audiência. Porque sistemas de inteligência artificial treinados com dados carregados de discriminação ainda reproduzem, agora de forma automatizada, os tantos enquadramentos que o movimento LGBTQIAPN+ levou décadas para desmontar.  

Visibilidade e supressão não são polos opostos. São funções complementares da comoditização das identidades. O 17 de maio existe justamente para combatermos infraestruturas e algoritmos que o mercado construiu para si, não para nós. 

*Bruna Irineu e Larissa Pelúcio são bolsistas do CNPq, professoras, pesquisadoras e coautoras do livro “Violência Algorítmica e Vidas LGBTQIAPN+: ensaios sobre tecnologia, poder e resistência na era digital” (ABETH).