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Jornalismo com método garante liberdades e desenvolvimento social e econômico, diz jornalista da ANJ
O livre exercício do jornalismo profissional, independente e feito com método é condição para desenvolvimento sustentável, fortalecimento democrático, proteção de direitos civis e combate ao avanço global da lógica autocrática. Essa foi a principal análise apresentada pelo jornalista Hélio Gama Neto, assessor de comunicação da Associação Nacional de Jornais (ANJ), durante encontro promovido pela Associação Nacional de Editores de Revistas (ANER), realizado na terça-feira (12), sobre liberdade de imprensa, liberdade de expressão, Justiça e os impactos sociais da era digital.
Durante a apresentação, Gama Neto afirmou que o mundo atravessa um período de expansão das autocracias, de aumento da intolerância política e de crescimento das pressões contra instituições democráticas, imprensa independente e circulação livre de informação. Perguntado sobre os perigos do ambiente político polarizado, o jornalista disse que o principal problema é o uso de práticas e discursos nos quais adversários são tratados como inimigos.
“A democracia é, na verdade, a construção de consensos a partir das divergências. Se não há diálogo que oportunize esse caminho, deixamos de avançar. E a ponte para esse diálogo é justamente o jornalismo profissional”, disse.
Segundo ele, a deterioração das liberdades de imprensa e de expressão produz impactos econômicos, sociais e políticos profundos, atingindo diretamente o desenvolvimento humano, a transparência pública, a circulação de conhecimento, a inovação e a capacidade de fiscalização da sociedade sobre governos e grupos de poder.
“O jornalismo profissional é uma infraestrutura democrática. Sem informação confiável, não existe participação social qualificada, não existe controle público e não existe desenvolvimento sustentável”, afirmou.
O jornalista destacou que ataques contra veículos de comunicação e profissionais da imprensa produzem efeitos que vão além das vítimas diretas. Para ele, censura, violência, assédio judicial, intimidação econômica e campanhas digitais de desinformação criam ambientes de medo, reduzem a circulação de informações de interesse público e enfraquecem direitos fundamentais.
O jornalista da ANJ demonstrou que o livre exercício do jornalismo profissional e feito com método resulta justamente no contrário, ou seja, no aprimoramento do processo democrático, no desenvolvimento sustentável e no fortalecimento de direitos humanos e civis.
“A luta por direitos civis é diária. Muitas das necessidades de grupos minorizados vão aparecendo no dia a dia e, a partir daí, precisam ser entendidas, debatidas e defendidas, como bem afirmava Martin Luther King Jr.. E quem revela, informa a sociedade e abre espaço para a discussão sobre essas necessidades é justamente o jornalismo”, afirmou.
Gama Neto apresentou dados internacionais que apontam deterioração global da liberdade de imprensa. Segundo levantamento da Repórteres Sem Fronteiras (RSF), o indicador mundial de liberdade de imprensa está em seu pior nível em 25 anos, cenário associado ao avanço de governos autoritários, conflitos políticos, desinformação organizada e fragilidade econômica dos veículos jornalísticos.
Mesmo com melhora recente do Brasil no ranking da organização, o jornalista afirmou que o país continua inserido em um ambiente internacional marcado por pressão constante contra liberdades públicas, instituições democráticas e atividade jornalística.
Durante o encontro, ele apresentou dados sobre violência contra comunicadores no Brasil. Segundo levantamento citado da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), houve 66 casos de violência não letal contra jornalistas e veículos de comunicação em 2025, atingindo ao menos 80 profissionais.
Embora os indicadores mostrem redução em relação aos anos anteriores e o país esteja há quatro anos sem assassinatos de jornalistas diretamente relacionados ao exercício profissional, Gama Neto afirmou que a violência permanece e assume novas formas, especialmente no ambiente digital.
Segundo ele, campanhas de desinformação, ataques coordenados nas redes sociais, tentativas de descredibilização da imprensa, assédio virtual e pressões políticas passaram a integrar o cotidiano de profissionais da comunicação.
Na avaliação do assessor da ANJ, a impunidade também funciona como elemento de estímulo à violência e à intimidação.
O jornalista destacou ainda que os impactos da censura atingem diretamente áreas estratégicas da vida pública, como combate à corrupção, defesa ambiental, fiscalização de políticas públicas, transparência administrativa, direitos humanos e proteção de grupos vulneráveis.
A apresentação também abordou avanços recentes na proteção institucional da atividade jornalística no Brasil. Entre eles, Gama Neto destacou o Protocolo Nacional de Investigação de Crimes contra Jornalistas e Comunicadores Sociais, assinado em abril de 2026 e ainda em fase de implementação.
Ele também citou a criação e manutenção do Observatório da Violência contra Jornalistas e Comunicadores Sociais, iniciativa que reúne a ANJ e quase outras 20 entidades ligadas à comunicação, aos direitos humanos e à liberdade de expressão. Outro ponto destacado foi o lançamento do Guia Digital de Publicidade, elaborado para ampliar transparência, critérios de integridade e acesso democrático à publicidade institucional.
Ao mesmo tempo, o jornalista alertou para permanências históricas na relação entre poder público e acesso à informação. Segundo dados apresentados no encontro, mais de 1.300 documentos seguem protegidos com base no artigo 31 da Lei de Acesso à Informação (LAI), mecanismo conhecido como “sigilo de 100 anos”.
Na avaliação de Gama Neto, o uso ampliado desse tipo de restrição dificulta investigações jornalísticas, reduz a capacidade de fiscalização social e amplia obstáculos à transparência pública.
O jornalista afirmou que a sustentabilidade econômica da imprensa se tornou tema central para a preservação democrática. Segundo ele, modelos econômicos frágeis aumentam a vulnerabilidade de veículos independentes diante de pressões políticas, campanhas de desinformação e concentração de poder nas plataformas digitais.
O encontro da ANER reuniu profissionais da comunicação para debater os efeitos da transformação digital sobre imprensa, reputação pública e circulação de informação. Entre os temas apresentados estavam radicalização online, censura, violência contra jornalistas, transparência pública, sustentabilidade econômica do jornalismo, integridade da informação e o avanço global de regimes autocráticos.
O Café com ANER, série semanal de encontros virtuais promovida pela entidade e apresentada pela diretora-executiva da associação, Regina Bucco, já tem mais de 140 edições. O projeto reúne jornalistas, pesquisadores, executivos de mídia e especialistas para discutir jornalismo, modelos de negócio, sustentabilidade da atividade jornalística, liberdade de expressão, integridade da informação e os efeitos da transformação digital sobre a comunicação.
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