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Por que o Equador enfrenta crise energética apesar de possuir amplas reservas de hidrocarbonetos?

12/05/2026
Por que o Equador enfrenta crise energética apesar de possuir amplas reservas de hidrocarbonetos?
Foto: CC BY-SA 3.0 / Bernard Gagnon /

Com a Petroequador respondendo por quase 80% da produção nacional, qualquer flutuação em seus poços abala a economia do país. Numa tentativa de conter o declínio da produção, o governo de Daniel Noboa anunciou o uso do fraturamento hidráulico, desencadeando uma onda de críticas e confusão técnica.

Especialistas do setor energético disseram à Sputnik que, longe de uma revolução tecnológica, o Equador enfrenta reservatórios maduros e uma alarmante falta de política energética, que confunde processos rotineiros com soluções milagrosas.

A produção de petróleo do Equador está em uma encruzilhada. Enquanto os dados oficiais refletem uma estagnação que ameaça o financiamento do Orçamento Geral do Estado, o recente anúncio do governo sobre o início das operações de fraturamento hidráulico em reservatórios calcários gerou um debate técnico e político. O problema subjacente é estrutural: a Petroequador, responsável pela grande maioria da produção nacional, opera campos que estão sendo produzidos há mais de meio século.

Precisão técnica

O primeiro ponto de concordância entre os especialistas é claro: o que está sendo feito no Equador não é o fracking não convencional que transformou a indústria nos Estados Unidos, mas sim uma técnica de estimulação utilizada há décadas.

David Almeida, secretário da Organização das Associações Nacionais de Trabalhadores de Energia e Petróleo (ANTEP) e secretário de Hidrocarbonetos da Federação Internacional de Trabalhadores de Energia e Hidrocarbonetos da América Latina e do Caribe, explica à Sputnik que a confusão surge da falta de conhecimento nos círculos de tomada de decisão.

"O que foi feito, na verdade, foi mudar a produção de arenito para calcário em alguns poços. E, para isso, foi realizado algo que já é feito rotineiramente na indústria petrolífera há muitos anos: um processo convencional de fraturamento hidráulico. É aí que surge a confusão, e eles confundem com fracking", esclarece o especialista.

Almeida atribuiu esse anúncio à falta de uma política nacional de hidrocarbonetos e à presença de funcionários que "não conhecem o setor".

Por sua vez, Marcela Reinoso, ex-vice-ministra de Hidrocarbonetos e ex-diretora-geral da Petroecuador, concorda que a técnica não é totalmente nova no país.

"Utilizamos o fraturamento hidráulico no Equador há vários anos, mas antes o nosso fraturamento era feito em arenito. Desta vez, o fraturamento foi realizado em calcário, com bons resultados, mas não é a primeira vez que esse teste é prolongado", enfatizou um ex-funcionário em conversa com a Sputnik.

Campos maduros: o desafio dos 50 anos

O declínio na produção não é um mistério para quem conhece o subsolo do Equador. Os reservatórios do país estão envelhecendo. Segundo Reinoso, os campos equatorianos produzidos há cerca de 50 anos, tornando-se "campos maduros" que encerram técnicas de recuperação mais avançadas.

No entanto, o especialista alerta que o recente anúncio sobre o calcário M1 não afetará significativamente a produção nacional.

"Se nos concentrarmos apenas no anúncio da fraturamento hidráulico do calcário M1, esse anúncio não avançará a um aumento substancial na. No momento em que formos informados de que um plano de produção avançado de recuperação secundária será implementado, então poderemos vislumbrar um horizonte em que poderemos alcançar um aumento de mais de 50% nas reservas", afirma Reinoso.

Uma pergunta recorrente é quem financia essas disciplinas nos poços da Petroecuador. Almeida desmistifica a ideia de que o investimento privado é “dinheiro fácil” para o Estado. Em qualquer acordo contratual (serviços específicos ou participação), o custo, em última análise, provem da mesma fonte: o petróleo equatoriano.

"No caso dos campos atrativos pela empresa estatal, o investimento inicial seria fornecido pela empresa estrangeira, mas acabamos pagando com o petróleo que pertence a todos nós, independentemente dos termos. Esses investimentos acabam sendo pagos com recursos equatorianos", explica Almeida.

Essa realidade econômica entra em conflito com a urgência fiscal. Reinoso destaca que o país vivencia uma contradição entre a agenda energética internacional e as necessidades locais: “Nosso orçamento continua sendo financiado pelas receitas do petróleo”, afirma, observando que o déficit fiscal é uma restrição maior do que qualquer vontade política.

Transição energética: mais do que um slogan

O Equador parece preso à proteção primária sem industrialização. Almeida critica o fato de que, apesar de ser um país com reservas suficientes para suprir sua própria demanda energética, o petróleo não é processado internamente.

"Trata-se de compensar como produzimos, transportamos e distribuímos bens, e isso implica imaginar um país completamente diferente. Por agora, nossa classe dominante não parece inclinada nem mesmo a considerar essa questão", questionou o secretário de Hidrocarbonetos.

O ex-diretor-geral da Petroequador destaca o conceito de eficiência energética, lembrando que o Equador perdeu a oportunidade de implementar planos avançados, como o modelo russo, para tornar uma indústria de hidrocarbonetos mais sustentável.

“A eficiência energética é fundamental para superarmos nossa crise de eletricidade”, afirma Reinoso.

Aumento temporário sem uma estratégia fundamental

Na última análise, o fraturamento hidráulico em rochas calcárias pode proporcionar um intervalo temporário aos números da Petroequador, mas não representa a mudança na matriz de produção que o setor exige. Segundo Almeida, trata-se de reservatórios convencionais que agora serão melhor quantificados, o que aumentará o valor das reservas, mas seu efeito será insignificante se não estiver alinhado a uma política abrangente.

O Equador enfrentou o desafio de extrair os últimos bares com fins lucrativos utilizando recuperação secundária, enquanto o ritmo da transição energética global continua a correr. O anúncio do fraturamento hidráulico parece mais um erro técnico do que um marco histórico no mundo da indústria petrolífera equatoriana.


Por Sputinik Brasil