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[Abril Azul] Brasil tem mais de 760 mil estudantes com TEA
Especialista aponta adaptações que devem ser feitas durante e após o período escolar para aprimorar a rotina das crianças que apresentam a condição
Recentemente, a Mattel anunciou o lançamento da primeira Barbie autista, desenvolvida em parceria com a Autistic Self-Advocacy Network (ASAN). A iniciativa chama atenção não apenas pelo ineditismo, mas pela forma como traduz, em detalhes, experiências reais de pessoas no espectro. A boneca apresenta acessórios que fazem parte da rotina de muitos autistas, como fone de ouvido para redução de estímulos, fidget spinner para regulação sensorial e dispositivos de comunicação alternativa.
O lançamento dialoga diretamente com a realidade brasileira. O Censo 2022, divulgado em 2025, identificou cerca de 2,4 milhões de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no país, com maior prevalência entre crianças e adolescentes. As faixas etárias de 0 a 4 anos e de 5 a 9 anos concentram os maiores índices, o que reforça a centralidade da infância quando o tema envolve desenvolvimento e qualidade de vida. Estimativas indicam, inclusive, um caso a cada 38 crianças.
Nesse contexto, a rotina de uma criança com TEA se estrutura a partir de particularidades que influenciam diferentes dimensões do dia a dia. Questões sensoriais, formas específicas de comunicação e padrões de comportamento impactam desde interações sociais até atividades simples.
Essas características acompanham a criança no ambiente escolar e interferem diretamente na forma como ela aprende. O Censo também revelou mais de 760 mil estudantes com 6 anos ou mais diagnosticados com TEA no Brasil. Desse total, cerca de 66,8% estão matriculados no ensino fundamental regular, evidenciando um avanço no acesso à educação, ainda que a inclusão efetiva dependa de adaptações consistentes.
“Estar na escola não garante, por si só, inclusão. É preciso que o ambiente esteja preparado para acolher e responder às necessidades da criança”, afirma Jéssica Ramalho, CEO da Acuidar, maior rede de cuidadores da América Latina com profissionais especializados no suporte a pessoas com TEA. Segundo ela, a ausência de ajustes compromete o engajamento. “Quando há excesso de estímulos ou falta de mediação adequada, a criança pode até permanecer em sala, mas não consegue absorver o conteúdo”, completa.
Mudanças na sala de aula
No ambiente escolar, a organização sensorial é um dos primeiros pontos de atenção. Reduzir estímulos visuais, evitar excesso de cores e manter uma disposição previsível dos objetos ajudam a criança a compreender melhor o espaço. Sons também precisam ser controlados sempre que possível. “Pequenas mudanças, como posicionar o aluno longe de fontes de ruído ou permitir o uso de abafadores, já geram impacto direto no foco e no bem-estar”, explica Jéssica.
A previsibilidade da rotina aparece como outro fator-chave. Cronogramas visuais, antecipação de mudanças e sinalizações claras sobre o início e o fim das atividades diminuem a ansiedade. Quando a criança sabe o que esperar, a tendência é de maior engajamento.
No campo pedagógico, a adaptação vai além de simplificar conteúdos. Estratégias multimodais, que combinam estímulos visuais, auditivos e táteis, ampliam as formas de compreensão. O uso de interesses específicos da criança como ponto de partida para ensinar novos conteúdos também se mostra eficaz. “Quando o aprendizado se conecta com algo que faz sentido para ela, o envolvimento aumenta de forma significativa”, pontua Jéssica.
Outro aspecto relevante envolve a comunicação. Nem todas as crianças no espectro se expressam da mesma forma, o que exige abertura para diferentes ferramentas, como a Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA). Tablets, cartões visuais ou aplicativos específicos tendem a facilitar a expressão de necessidades e emoções, reduzindo frustrações.
Adaptações para além das aulas
Fora do ambiente escolar, a continuidade dessas adaptações é essencial. A rotina em casa deve dialogar com o que é aplicado na escola, mantendo consistência. Horários definidos, organização dos espaços e clareza nas instruções ajudam a criar um ambiente mais previsível e seguro. A participação ativa da família nesse processo fortalece vínculos e favorece o desenvolvimento da autonomia.
Nesse percurso, a presença de um cuidador especializado amplia as possibilidades de suporte. Esse profissional atua na mediação de comportamentos, na regulação emocional e na adaptação das atividades do dia a dia. “O cuidador observa padrões, identifica gatilhos e ajuda a construir respostas mais adequadas para cada situação. Trata-se de um trabalho técnico, mas também sensível”, destaca Jéssica.
Algumas mudanças menos convencionais também ganham espaço no cotidiano: a criação de “rotinas de descanso sensorial” ao longo do dia, com pausas planejadas, por exemplo, ajuda a evitar sobrecarga. O uso de objetos personalizados, que vão além dos itens mais populares, pode incluir tecidos específicos, pesos leves ou até cheiros familiares, dependendo da preferência da criança.
O ambiente social também precisa ser considerado. A conscientização de colegas e educadores favorece relações mais empáticas e reduz barreiras. “Quando a diferença é compreendida, a convivência se torna mais natural e colaborativa”, pontua Jéssica.
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