Geral
Cúpula em defesa da democracia é vista como resposta ao unilateralismo dos EUA
Especialistas apontam fórum realizado em Barcelona como movimento em prol da multipolaridade e recado ao intervencionismo norte-americano.
O 4º Fórum Democracia Sempre, realizado em Barcelona, na Espanha, neste fim de semana, foi interpretado por especialistas como uma resposta ao unilateralismo promovido por Washington e um passo em direção à multipolaridade.
O evento, promovido pelo presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, ocorreu nos dias 17 e 18 de abril. O contexto foi marcado pelo confronto direto de Sánchez com o governo dos EUA, após a recusa espanhola em apoiar a intervenção militar norte-americana no Oriente Médio.
Participaram do encontro o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e seus homólogos do México, Claudia Sheinbaum; Uruguai, Yamandú Orsi; Colômbia, Gustavo Petro; e África do Sul, Cyril Ramaphosa. O ex-presidente chileno Gabriel Boric também esteve presente.
A presença da presidente mexicana marcou sua primeira visita oficial à Europa, sendo vista como um passo na normalização das relações entre México e Espanha.
Nos discursos, os líderes destacaram princípios como a não intervenção, o respeito à soberania das nações e a defesa do direito internacional.
Em declaração conjunta, Brasil, Espanha e México manifestaram oposição a qualquer tentativa de intervenção militar em Cuba e prometeram ampliar a ajuda à nação caribenha diante da "grave crise humanitária" que enfrenta.
Uma resposta indireta aos EUA
Embora os líderes tenham evitado citar Washington diretamente, especialistas consideram que o fórum foi uma resposta às recentes políticas internacionais da Casa Branca.
Rubén Ramos Muñoz, professor de relações internacionais da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), afirmou que o encontro responde ao "inevitável declínio político, econômico e militar" dos Estados Unidos.
Segundo ele, nesse processo de "transição hegemônica", as potências presentes no fórum enviam uma mensagem clara em favor de um mundo multipolar e contra o intervencionismo.
"Países que não concordam com as políticas intervencionistas dos Estados Unidos se unem para demonstrar força diplomática e política, servindo de contrapeso ao intervencionismo estadunidense", ressalta.
Ramos Muñoz acredita que Washington tentará recuperar sua hegemonia por meio de intervenções, como a ocorrida na Venezuela no início deste ano. Por isso, uma das posições centrais do fórum foi a exigência de respeito ao direito internacional e a rejeição de qualquer intervenção em Cuba.
O professor também destaca que a cúpula buscou criar uma plataforma para que países do Sul Global possam propor soluções conjuntas para "riscos semelhantes".
"Ameaças decorrentes das políticas intervencionistas dos EUA unem diversos países, e a união de forças fortalece o poder diplomático e amplia essa voz em fóruns internacionais", afirma.
David García Contreras, também especialista em relações internacionais da UNAM, considera que o fórum foi uma resposta direta ao unilateralismo, atuando como contraponto às tendências recentes da política internacional.
Ele destaca que temas como soberania, governança digital, multilateralismo e respeito ao direito internacional foram abordados de forma incisiva, mas sem confronto direto com Washington, mantendo a diplomacia.
García Contreras avalia ainda que o objetivo é criar um contrapeso político a iniciativas como o "Escudo das Américas", consolidando uma oposição mais forte no cenário internacional.
"A união da esquerda neste encontro pode fortalecer discursos e políticas alternativas ao que vem sendo moldado no mundo nos últimos meses."
Com informações da Sputnik Brasil
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