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Escassez de mão de obra pressiona retenção de profissionais nos Serviços, aponta FecomercioSP

Estudo revela aumento da rotatividade e desafios para manter equipes em meio à alta nas contratações

17/04/2026
Escassez de mão de obra pressiona retenção de profissionais nos Serviços, aponta FecomercioSP
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

O mercado de trabalho brasileiro enfrenta um cenário de escassez de mão de obra qualificada no setor de Serviços, fenômeno semelhante ao que foi observado nos Estados Unidos nos anos 1980 e no Brasil em 2008. Nesses períodos, empresas foram obrigadas a oferecer prêmios salariais (wage premium) para atrair e reter talentos.

Segundo estudo do Conselho de Serviços da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), ao qual o Broadcast teve acesso com exclusividade, a dificuldade de retenção de profissionais tem se agravado com o aquecimento do mercado. O setor responde por 57% dos empregos formais no país e por cerca de 70% do Produto Interno Bruto (PIB), ampliando o impacto da escassez sobre a economia. Apesar do crescimento expressivo nas contratações, indicadores mostram vínculos mais curtos e aumento da rotatividade.

O levantamento destaca a queda no Tempo Médio de Permanência no emprego (TMP). Entre fevereiro de 2021 e fevereiro de 2026, o TMP caiu 27% no Brasil (de 6,8 para 5 meses) e 27,2% em São Paulo (de 6,3 para 4,6 meses), evidenciando relações de trabalho mais breves e maior dificuldade das empresas em manter seus quadros. "Apesar disso, o volume de admissões avançou cerca de 80% no período analisado, indicando um mercado aquecido, porém mais instável", aponta a FecomercioSP.

Na prática, as empresas contratam mais, mas enfrentam desafios para reter trabalhadores, o que eleva custos operacionais, exige investimentos contínuos em treinamento e afeta a produtividade. Para Marcelo Braga, presidente do Conselho de Serviços da FecomercioSP, o momento exige mudança de foco. "Hoje, mais do que contratar, o empresário precisa pensar em como reter. O mercado está mais dinâmico e o profissional circula mais", afirma.

Mais mobilidade e mudança no perfil da força de trabalho

O estudo mostra que a redução no tempo de permanência foi generalizada entre diferentes faixas etárias, mas mais intensa entre profissionais de 50 a 64 anos, grupo que apresentou as maiores quedas em termos absolutos e relativos. Isso reflete maior mobilidade, especialmente entre trabalhadores experientes, que encontram mais oportunidades e trocam de emprego com mais frequência.

Outro ponto observado é a mudança no perfil das contratações, com aumento da participação relativa de trabalhadores mais velhos. Esse comportamento, visto também no Brasil antes e durante 2008, ocorre paralelamente ao crescimento das admissões e sugere reconfiguração da força de trabalho, com maior valorização da experiência.

Na análise por atividade, alguns segmentos se destacam pelo ritmo de expansão das contratações em São Paulo: alojamento e alimentação (alta de 159,4%), outros serviços (112,8%) e transporte e armazenagem (81,9%). Esses setores, mais intensivos em mão de obra e com rotatividade elevada, sentem de forma mais acentuada os efeitos da escassez.

Braga ressalta que compreender essas dinâmicas é fundamental para decisões estratégicas. Ele recomenda que empresários considerem não apenas o número de vagas abertas, mas também fatores como rotatividade, perfil dos profissionais e características de cada segmento. Entre os fatores que explicam o cenário estão a normalização das atividades após a pandemia, a maior mobilidade entre trabalhadores e a recomposição dos quadros em setores presenciais.

O resultado é um mercado de trabalho aquecido, mas mais volátil, em que o desafio vai além da contratação: passa cada vez mais pela capacidade de retenção e estabilidade das equipes.

Em economia, o pagamento acima do padrão em momentos de escassez de mão de obra está associado à teoria dos salários de eficiência (efficiency wage theory), que sugere que empresas remuneram acima do equilíbrio de mercado para manter a produtividade e reduzir custos de alta rotatividade em épocas de competição acirrada por talentos.