Geral
Hospital Mater Dei Goiânia realiza cirurgia cerebral inédita com ressonância magnética intraoperatória e paciente acordado
Técnica permite que médicos definam em tempo real os limites de retirada de tumores e testem linguagem e funções cerebrais complexas enquanto o tumor é retirado com precisão; entenda
Habitualmente uma cirurgia no cérebro acontece com o paciente sob anestesia geral e em silêncio absoluto no centro cirúrgico. Depois da cirurgia, são realizados exames de imagem para verificar a quantidade de doença retirada ou residual. Em Goiânia, porém, um paciente viveu uma experiência diferente: permaneceu acordado durante parte do procedimento enquanto a equipe médica acompanhava, em tempo real, suas respostas de fala, compreensão, motricidade e raciocínio e fez os exames de imagem não após, mas durante o procedimento cirúrgico! A estratégia fez parte de uma técnica adotada para maximizar a retirada e aumentar a segurança na retirada de um tumor localizado em uma área sensível do cérebro.
O procedimento foi conduzido pelo neurocirurgião Rafael Pereira Monteiro, no Hospital Mater Dei Goiânia, e a primeira cirurgia do tipo realizada na unidade. O diagnóstico inicial apontava para um astrocitoma difuso do adulto, de baixo grau. Um tumor primário (que nasce do próprio tecido cerebral) que estava localizado na região medial do lobo parietal esquerdo (perto do centro do cérebro), uma área considerada sensível por estar ligada às funções de linguagem e raciocínio.
Nesse tipo de tumor, por ser infiltrativo e de crescimento lento, pode ser muito difícil diferenciar mesmo com o grande aumento do microscópio cirúrgico, o tecido cerebral doente (infiltrado pelo tumor, que precisa ser retirado), do tecido cerebral saudável. “Não há uma diferença clara”, explica.
Ressonância magnética no meio da operação
O procedimento foi marcado pelo uso da ressonância magnética intraoperatória. Após uma etapa da retirada do tumor, a cirurgia foi pausada e o paciente realizou o exame de imagem ainda durante o ato cirúrgico.
“Quando o cirurgião acredita que retirou toda a lesão, a gente faz a ressonância. Se o exame mostra que ainda existe tumor residual, voltamos para o centro cirúrgico e continuamos. Se não houver mais lesão, encerramos a cirurgia”, explicou.
No caso deste paciente, a equipe utilizou esse recurso de forma contínua para avaliar e orientar a retirada do tumor. “Claro que queremos retirar toda a lesão, mas às vezes a lesão está em uma área nobre, em que sua retirada significa déficit neurológico e por conseguinte perda de qualidade de vida. Nesses casos, preservamos a região, que poderá ser tratada por outras modalidades terapêuticas. Esse é o conceito de balanço onco-funcional”, explica
Segundo o médico, a combinação da paciente acordada com a ressonância no meio da cirurgia maximiza a retirada do tumor preservando as funções do paciente e sua qualidade de vida, principalmente em casos como esses, de lesões em áreas nobres do cérebro.
“Nós temos dois guias durante a cirurgia: Um anatômico, dado pela ressonância e outro funcional, dado pela monitorização neurofisiológica intraoperatória, que é a mais importante”, explica.
Monitoramento em tempo real das funções cerebrais
“A localização do tumor era um ponto crucial. Em cerca de 95% das pessoas, o lado esquerdo do cérebro é responsável pela fala, escrita e compreensão da linguagem. Não é possível testar isso com o paciente sob anestesia geral”, explicou o médico.
A decisão de manter a paciente acordada ocorreu justamente por causa dessa localização. Durante a cirurgia, a equipe aplicou estímulos elétricos em áreas específicas do cérebro enquanto a neurofisiologista do Hospital Mater Dei Goiânia, Monica Melo realizava testes neuropsicológicos.
“Se durante o teste não havia alteração, a gente podia retirar aquela parte do cérebro com segurança. Se houvesse qualquer mudança, a gente preservava a área para evitar déficit permanente”, afirmou.
De acordo com o neurocirurgião, a técnica reduz de forma significativa o risco de sequelas permanentes. Sem esse acompanhamento em tempo real, os riscos aumentariam principalmente para déficits motores e de linguagem. “Nesse tipo de lesão, a quantidade de lesão retirada está diretamente ligada ao prognóstico. Quanto mais lesão a gente consegue retirar, maior a sobrevida e maior o tempo sem necessidade de outros tratamentos, como terapia alvo, radioterapia ou quimioterapia”, disse.
A logística exigiu a participação de diversos profissionais. Estiveram envolvidos especialistas em neurocirurgia oncológica, anestesia, neurologia clínica com foco em neurofisiologia intraoperatória, além da equipe de radiologia e profissionais do centro cirúrgico. “É uma mobilização grande. Todo mundo precisa estar alinhado, porque envolve deslocamento do paciente, equipamentos e sincronização entre as equipes”, relatou.
Para a equipe, o caso demonstra maturidade assistencial: a estrutura disponível hoje na unidade permite aplicar técnicas consideradas padrão em centros de referência no país e no exterior. “Essa é a mesma cirurgia feita em grandes centros. Hoje conseguimos oferecer esse tipo de tratamento aqui, sem que o paciente precise sair da cidade para buscar esse recurso”, afirmou.
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