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'No Brasil, o neonazismo na música surge no subúrbio de São Paulo', diz antropólogo (VÍDEOS)
O White Power, movimento supremacista branco de orientação neonazista, além dos discursos políticos, também está inserido em segmentos culturais como a música para propagar ideias extremistas a fim de conquistar corações e mentes.
Neste contexto, o especialista explica que a banda Locomotiva foi a primeira com orientação nazifascista, surgida em Mauá, cidade da região metropolitana de São Paulo, cujo nome refere-se ao imaginário do estado paulista ser o responsável pelo desenvolvimento brasileiro, como aponta o historiador e antropólogo Alexandre de Almeida, em entrevista à Sputnik Brasil.
"Essa banda Locomotiva não chegou a gravar um disco, mas fez muito sucesso porque fundou a ideia da música neonazista no Brasil, eles tinham canções como a 'Sangue e Raça', que retratam o paulista como um elemento genético, ou seja, paulista não seria quem nasceu [em São Paulo], mas sim, quem teria o sangue paulista", disse.
Esse grupo despontou na época da ditadura militar brasileira, onde havia muita repressão, desigualdade social e, em paralelo, havia um cenário cultural marginal na década de 80, onde começou a surgir fanzines, publicações feitas a partir de xerox, que vinham do exterior sobre skinheads.
"Os jovens que defenderam a supremacia branca nos anos 80 não são os do Itaim Bibi, bairro de luxo de São Paulo, e sim do Itaim Paulista, super periférico. Esse jovem cresce em ambiente hostil e se comunica com pessoas e bandas de fóruns sobre o universo cultural europeu e americano, onde recebeu as primeiras informações sobre a cultura skinhead", contextualiza.
No cenário brasileiro, o Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) submeteu, em 2024, um relatório à Organização das Nações Unidas (ONU) alertando para a expansão de grupos neonazistas no país.
Segundo Almeida, autor da obra "Os mitos políticos do Poder Branco Paulista (1988–1992)", a maior incidência dessa subcultura ocorre em São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, que são regiões que mais recebem a imigração europeia. Dessa forma, a música é percebida como um meio de mobilização.
“O White Power tem um objetivo, que é implantar o nazismo aqui no Brasil, especialmente em São Paulo e nos três estados do Sul. A partir daí, eles também começaram a perceber a música como um instrumento que mobiliza os seus congêneres, os seus iguais em outros lugares do mundo, e começam a formar bandas”, comenta.
Música como ferramenta metapolítica
O pesquisador, que integra o Observatório da Extrema Direita (OED) no Brasil, enfatiza que a utilização da projeção musical entre outras manifestações artísticas são elementos que compõem a batalha cultural e que esse expediente sempre foi utilizado, inclusive pela Alemanha nazista.
"Além de política, existe a cultura. Foi preciso um processo de nazificação na sociedade alemã para que o partido [nazista] cheguesse ao poder. Isso se chama metapolítica, ou seja, primeiro se conquista o coração e a mente, posteriormente conquista o voto. O nazismo, o fascismo e o integralismo no Brasil fez isso", disserta.
Assim como na cena brasileira, o antropólogo fez pesquisa de campo na Itália, onde conheceu um grupo de rap neonazista. Apesar do estilo ter origem na cultura negra, o analista enfatiza que na batalha cultural não há distinção de gêneros, já que todos podem servir ao propósito de propaganda extremista e essa diversificação pode ter um alcance maior em diversos públicos.
"Eu fiz pesquisa de campo em Roma, Nápoles e Milão e vi grupos de rap neonazista. Eles falaram que cresceram ouvindo e entenderam que precisam transmitir a mensagem da melhor forma possível. E eu quis saber se eles conheciam bandas brasileiras como Racionais MC, eles não conheciam, mostrei o som e, apesar de um grupo negro, eles disseram curtir o som", destaca.
Inteligência Artificial intensifica a batalha cultural
Com o avanço da IA, a música acaba sendo composta por autores que não são músicos ou têm experiência em banda. Almeida observa que esse interesse torna um braço relevante para a propagação rápida de canções neonazistas no ambiente virtual.
"Tem um pessoal que faz a letra no ChatGPT e depois utiliza um aplicativo com diversos estilos para musicalizar a letra feita pelo prompt. Uma vez a música pronta, usa-se ferramentas para criar videoclipes. Então, hoje em dia,essas ferramentas são usadas para adensar o espaço digital com o máximo possível de propaganda", conclui.
Na disputa por narrativas, o mercado cultural é uma plataforma eficaz para conseguir aglutinar pessoas de grupos sociais distintos que se tornam fãs de determinados segmentos da indústria do entretenimento e que, dependendo do caso, podem ser influenciados também na esfera política.
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