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Bruna Lucchesi segue visceral, mostrando intimidade com a palavra em Bandoleira, seu novo álbum de autorais
Com participações de Helio Flanders, Fabricio Corsaletti e Alice Coutinho, a cantora e compositora mostra novos ares, espírito viajante e crítica social, embalados pela potência de sua voz ainda mais autêntica
Bruna Lucchesi carrega consigo a potência de uma voz visceral, com pesos e medidas sutis e minuciosamente trabalhados para comunicar sensações através de suas canções. Sua intimidade com a palavra é uma virtude que a cantora e compositora vem lapidando em sua trajetória artística. A canção aparece como suporte para a poesia e isso se revela como um exercício que testa como extrair a musicalidade dos poemas e como acomodar as palavras no som. Agora, em seu primeiro álbum autoral, Bandoleira traz parcerias conquistadas em sua trajetória até aqui. O álbum apresenta maturidade sonora, composições próprias e feats de peso como Mariko Reid (EUA), Sissy Dinkle (EUA), Helio Flanders (Vanguart), o poeta Fabricio Corsaletti e a produtora Alice Coutinho.
Ela se lança sozinha, suavemente se descolando do profundo mergulho que fez na obra de Paulo Leminski em Quem Faz Amor Faz Barulho (2023), seu lançamento antes deste. As letras, o trabalho vocal e o equilíbrio entre os instrumentos mostram seu desejo de viver e o impulso de se jogar no mundo mostrando agora o que vem de dentro. Sem deixar de valorizar o criar coletivo, “No Lombo de Um Cavalo” é gravada com dois violões e duas vozes (Bruna Lucchesi e Helio Flanders), mostrando a realidade crua e vulnerável como ela é. “Em tempos de inteligência artificial isso contrasta ainda mais com o que vem acontecendo ao nosso redor. Em toda a produção do álbum, enaltecer a música pensada por pessoas foi um dos nossos focos”, comenta Bruna. Essa mesma faixa é composta em parceria com o poeta vencedor do Prêmio Jabuti 2023, Fabricio Corsaletti. Alice Coutinho (compositora de “Mulher do Fim do Mundo”, lançada por Elza Soares em 2015) fez a letra da terceira faixa do disco, “Fundo”, junto com Bruna. Esta é uma canção mais introspectiva que revela profundezas internas acompanhada de guitarra marcante e depois cresce com a bateria e a voz mais cortante. Certamente o álbum é entrelaçado de encontros que a estrada promoveu.
Além das autorais, Bruna Lucchesi faz questão de mostrar suas referências que compõem seu universo fonográfico e subjetivo. Além de “Cavalinhos”, single já apresentado no ano passado, que é uma canção de ninar folk dos Estados Unidos, as duas últimas faixas do álbum são composições estrangeiras e arranjadas por Bruna e sua equipe. “Desaparecer” é uma tradução do poema “Fade Away”, do japonês Nanao Sakaki, que ganha roupagem rock com vozes entrepostas. Já a última faixa do disco é sua versão de “On The Very Day I’m Gone”, composição da cantora Apalache nascida no final do século XIX, Addie Graham. Uma canção suave com coro de Sissy Dinkle e Mariko Reid, artistas que se tornaram amigas de Bruna na Berklee College of Music.
Sobre o título do disco, Bandoleira nasce de uma imagem que perpassa o momento vivido pela artista e reflete em todo o trabalho: a de uma viajante de estradas, no arquétipo da cowgirl solitária com ares de cigana, que percorre caminhos levando e recolhendo histórias e poesias em forma de canção. “Sigo arisca, levando pedaços de mim” é um verso de “Sei Voar” e representa a atmosfera do álbum e a construção da estética Bandoleira.
“Meu último álbum permitiu que eu viajasse muito com as canções e me conectaram com muita gente que queria essa troca poesia-canção. Como interpretei Leminski, comecei a receber vários textos de gente interessada em ouvi-los na minha voz. Me dei conta que Bandoleira surgiu a partir desse movimento todo, entendi essa ‘personagem’ que viaja, cria e canta com as pessoas que encontra pelo caminho. Eu carrego essas pessoas comigo e deixo um pouco de mim nelas”, conta Bruna Lucchesi.
Bruna insere toda sua trajetória de vida em suas letras e referências musicais. Com uma infância marcada pelo contato com cavalos, eles estão presentes em diversos momentos do álbum. Pode-se até inventar um desafio para encontrar as várias referências a cavalos ao longo do disco.
Poesia, estrada e referência sonoras
Parte da energia criativa de Bandoleira nasceu do contato intenso da artista com a obra do poeta Paulo Leminski em Quem Faz Amor Faz Barulho (2023), álbum que rendeu espaço entre os 50 melhores do ano segundo a APCA. A ousadia literária de Leminski acabou contaminando o processo de composição. “O trabalho com a obra do Leminski despertou uma certa irreverência em mim. Uma energia meio caótica de querer colocar essas canções em tudo: pixar muros, descolorir o cabelo, virar uma certa pára-raio de poeta maluco”, diz Bruna.
Musicalmente, o álbum nasce do folk como ponto de partida, mas sem a intenção de se manter preso a um gênero específico. As canções incorporam guitarras, texturas elétricas e momentos de intensidade que ampliam o universo sonoro do disco. Entre as referências que atravessam os arranjos estão Patti Smith, Bob Dylan, Neil Young, Karen Dalton, mas também Gal Costa do final da década de 60. Essa mistura cria um território sonoro autêntico que combina delicadeza, pulsação elétrica, música brasileira e momentos de experimentação.
“A composição não é algo que me vem naturalmente o tempo todo. Quando uma canção aparece é porque ela quer muito sair. Ela insiste comigo até ganhar forma. Ao longo desse disco entendi que meu lance é criar junto, lançar algo para um parceiro preencher as lacunas e vice-versa”, explica a compositora.
Em Bandoleira, Bruna Lucchesi transforma estrada, poesia e encontros em um repertório que pulsa entre intimidade e intensidade. Um disco que reafirma sua voz autoral dentro da nova cena da canção brasileira.
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