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Símbolo da hegemonia dos EUA: bases militares são ameaça após guerra no Irã e tensão na Groenlândia?
Os Estados Unidos contam com 128 bases militares, a maioria de uso próprio exclusivo, em 51 países dos cinco continentes, conforme o último levantamento do Congresso norte-americano. Desse total, quase metade está concentrada na Europa e no Oriente Médio, regiões que foram alvo de investidas expansionistas da Casa Branca nos últimos meses.
Da Espanha à Romênia, do Egito a Omã, de El Salvador à Austrália, o movimento de instalação de bases militares mundo afora pelos Estados Unidos começou ainda durante a Segunda Guerra Mundial. As estruturas, em sua maioria de uso exclusivo das Forças Armadas norte-americanas mesmo em território alheio, se tornaram um dos principais símbolos da hegemonia de Washington e da consolidação desse poder. O mundo, no entanto, passou a caminhar cada vez mais em direção à multipolaridade, com o fortalecimento das potências regionais. Nesse cenário, a forma como essas estruturas são vistas pelos próprios países aliados pode começar a mudar.
Um dos casos mais recentes ocorreu na Groenlândia, território que passou a ser alvo das investidas expansionistas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e que abriga uma das bases do país. O território autônomo pertence à Dinamarca, aliada de Washington na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Ainda assim, a proximidade não foi suficiente para impedir que Trump chegasse a ameaçar tomar a região por vias militares no início do ano.
A questão ficou em segundo plano desde o fim de fevereiro, quando Estados Unidos e Israel decidiram atacar o Irã. Como reação, o país persa passou a atacar bases militares norte-americanas na região, em países como Catar, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita. Esses países foram arrastados para o conflito, mesmo contra a própria vontade. O cenário impactou diretamente o turismo em cidades como Dubai e Doha. Além disso, estimativas do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) apontam que o impacto da guerra para as economias do Oriente Médio já pode chegar a US$ 194 bilhões (R$ 988 bilhões).
Essa sequência de acontecimentos pode levar os países a reverem suas posições sobre a presença militar dos Estados Unidos em seus territórios?
Para o professor de relações internacionais aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Williams Gonçalves, a tendência é de um questionamento cada vez maior sobre essas estruturas, principalmente por conta da atual política externa de Trump de "desprezar a aliança política e militar" com diversos aliados até então de primeira hora.
"As suas posições [do líder norte-americano] não convergem mais com as da Europa, por exemplo, e ele desdenha dessas alianças, como a Organização do Tratado do Atlântico Norte. Tanto assim é que chegou a ameaçar a soberania dinamarquesa a propósito da questão da Groenlândia e do próprio Canadá, seu vizinho, ao propor que o país se convertesse em mais um estado norte-americano", afirma à Sputnik Brasil, ao citar ainda o caso da Espanha, cujo governo entrou em embates com Trump ao recusar autorizar o uso de bases para ataques contra Teerã.
Bases militares e a nova realidade global?
Conforme Gonçalves, os países que mais concentram bases norte-americanas mostram muito sobre como esse projeto expansionista pela via militar foi iniciado: são eles Japão e Alemanha. Durante a Segunda Guerra Mundial, formaram o Eixo, foram derrotados e se tornaram aliados norte-americanos com o fim do conflito. Desde então, segundo o especialista, tiveram "a sua soberania comprometida" pela existência de tais estruturas.
"Agora, o que nós assistimos é um desafio a essa hegemonia dos Estados Unidos [muito formada também pelas bases]. A ordem internacional está em mudança e o presidente Donald Trump exprime, pela sua política e seu relacionamento com o mundo exterior aos Estados Unidos, o inconformismo do país ao ver que essa era está se esgotando. Desse modo, é mais que possível, é provável que essas bases venham a ser negociadas e até contestadas", afirma, ao citar também que as unidades são "anacrônicas" à nova realidade internacional.
A professora de história naval e pós-doutora em estudos marítimos pela Escola de Guerra Naval (EGN) Jéssica de Freitas e Gonzaga da Silva acrescenta que essas estruturas foram parte crucial da estratégia norte-americana ao longo da Guerra Fria e, sobretudo, para a manutenção da OTAN em locais como a Turquia e regiões estratégicas do Oriente Médio.
"Os Estados Unidos assumem uma postura que continua sendo mahaniana (ligada a Alfred Mahan, estrategista naval que defendia que o domínio do mar seria garantido principalmente com a presença no exterior). O país, além, claro, de ocupar Filipinas, Guam e Porto Rico, não tem de fato uma colonização como Espanha e Portugal tiveram nesse caso. Por isso, a presença dessas bases militares é tão importante", explica.
Soberania comprometida?
A professora de história naval recorda o conceito de soberania, que surgiu no século XIV com o objetivo de firmar o Estado moderno e retirar as interferências estrangeiras sobre a tomada de decisão dos governos locais. Com o fenômeno da globalização e a consequente integração entre os países, Gonzaga afirma que a soberania passou a ser cada vez mais "compartilhada".
"A presença de bases militares norte-americanas de fato compromete o exercício pleno da soberania, mas é óbvio que os Estados têm consciência de que essa soberania pode ser compartilhada. Isso ocorre principalmente porque há uma troca: os Estados Unidos podem garantir segurança contra eventuais inimigos ou proteger uma determinada área contra o terrorismo", diz.
Já Williams Gonçalves afirma que, por mais que exista afinidade entre os governos e a Casa Branca, possuir uma base não significa acessar apenas a região militarmente, mas também "informações e o conhecimento" sobre esse determinado país. "Então, indiscutivelmente, a soberania é comprometida", complementa.
O professor aposentado da UERJ avalia ainda que o momento atual é de declínio "relativo" dos Estados Unidos e que não há espaço no mundo para a ampliação de suas estruturas militares em outros países. Pelo contrário, o cenário aponta para redução. Mesmo assim, o especialista afirma que o panorama não significa uma "perda total de poder", mas sim uma crescente incapacidade de Washington de agir unilateralmente.
"A resistência à política imperial tende a aumentar, especialmente quando ela se torna mais explícita. Os Estados Unidos sempre interferiram em outros países [...], mas agora há uma mudança. A globalização está sendo corroída, o nacionalismo volta a ganhar força e alguns países mostram unidade nacional que outros não têm", finaliza.
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