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Brasil amplia importação de fertilizantes russos e fortalece laços diplomáticos

Crescimento das compras após tensão no Oriente Médio evidencia papel estratégico da Rússia no abastecimento brasileiro

Sputinik Brasil 08/04/2026
Brasil amplia importação de fertilizantes russos e fortalece laços diplomáticos
Importação de fertilizantes russos cresce e fortalece relações diplomáticas entre Brasil e Rússia. - Foto: © Sputnik / Acessar o banco de imagens

Especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil destacam que o aumento das importações de fertilizantes russos reforça as relações diplomáticas entre Moscou e Brasília, especialmente em meio a crises geopolíticas.

O Brasil intensificou a compra de fertilizantes da Rússia no último mês, após o fechamento do estreito de Ormuz devido aos ataques ao Irã, promovidos por Estados Unidos e Israel.

De acordo com levantamento da Sputnik com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil importou US$ 331 milhões em fertilizantes russos: US$ 163,1 milhões em potássio, US$ 129,5 milhões em fertilizantes mistos e US$ 38,4 milhões em fertilizantes nitrogenados.

Esses valores representam mais que o dobro do volume importado da Rússia em fevereiro, consolidando o país como principal fornecedor do insumo para o Brasil.

Especialistas ressaltam que as boas relações entre Brasília e Moscou são vantajosas em momentos de urgência e contribuem para o fortalecimento diplomático por meio das importações.

Jackson Campos, diretor de relações institucionais da AGL Cargo, destaca que a dependência brasileira — com 88% dos fertilizantes vindos do exterior — representa um risco em cenários de instabilidade. Segundo ele, o alinhamento comercial com a Rússia oferece alternativas e respostas ágeis diante da crise no Oriente Médio.

"A lógica é simples: a Rússia hoje já é um fornecedor central para o Brasil, especialmente em potássicos e misturas. O aumento recente das compras mostra que importadores brasileiros estão usando essa origem como alternativa para reduzir a exposição a rotas mais sensíveis ao conflito no Golfo."

Campos também acredita que o Brasil pode aprender com a experiência russa para ampliar sua produção e eficiência no uso dos insumos.

"A Rússia combina escala de produção, acesso a matérias-primas, integração entre mineração, energia e indústria química, além de capacidade de exportar com regularidade."

Alexis Toríbio Dantas, professor de economia da UERJ, lembra que o governo Bolsonaro (2019-2022) reduziu a capacidade nacional de produzir fertilizantes, transferindo o setor para a iniciativa privada. Atualmente, o Brasil depende da Rússia e do Oriente Médio para suprir a demanda.

"Já existe um plano para retomar a produção interna de fertilizantes, mas, até que isso se concretize, continuaremos dependentes das importações. A parceria com a Rússia tende a se intensificar."

Dantas ressalta que a política externa do presidente Lula, baseada na multipolaridade, favorece relações Sul-Sul, sobretudo entre países do BRICS. Ele defende, porém, a necessidade de reindustrialização do setor de fertilizantes no Brasil.

Para Campos, a multipolaridade é importante em contextos de instabilidade e restrição de rotas marítimas, embora não elimine os desafios logísticos impostos por conflitos no Oriente Médio.

"Se uma rota crítica sofre disrupção, o impacto afeta frete, tempo e custo, independentemente de alianças."

O diretor da AGL Cargo explica que o Brasil busca diversificar fornecedores, importando fertilizantes de Belarus, Canadá, China, Egito, entre outros países.

Dantas destaca que os governos Lula e Dilma buscaram parceiros internacionais que complementassem e suprissem as necessidades brasileiras. Para ele, é fundamental recuperar a produção nacional, mas, caso Brasília mantenha a estratégia de importação, pode aproveitar o processo para fortalecer laços diplomáticos.

"Podemos pensar na produção interna de fertilizantes aliada à diplomacia, estabelecendo relações importantes com grandes exportadores como a Rússia."