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Insumo 'invisível': como o ferro brasileiro pode ser protagonista da transição energética global
À Sputnik Brasil, especialistas avaliam que investimentos e nova dinâmica logística reforçam papel do Brasil no setor, mas divergem sobre potencial estratégico do insumo.
No dia 26 de fevereiro, a Fomento do Brasil Mineração, subsidiária da indiana Fomento Resources, venceu o leilão do Porto de Natal, no Rio Grande do Norte — movimento que reforça uma mudança mais ampla no setor mineral brasileiro. A empresa planeja investir R$ 2,5 bilhões no projeto Ferro Potiguar, empreendimento que busca transformar o estado em um novo polo produtor e exportador de minério de ferro.
Hoje, o Brasil figura entre os três maiores produtores de minério de ferro do mundo, com uma produção anual em torno de 400 milhões de toneladas. Os dados são amparados por relatórios do United States Geological Survey e da Agência Nacional de Mineração.
Ao mesmo tempo, o minério de ferro ocupa lugar de destaque na pauta exportadora brasileira, evidenciando tanto sua importância econômica quanto a posição central do país no abastecimento global do insumo.
Ao mesmo tempo, o cenário global passa por grandes transformações, desde a fragmentação das cadeias globais e a intensificação da competição entre potências, na qual o controle sobre etapas como extração, processamento e transporte ganha peso geopolítico; à transição energética.
O minério de ferro é base para a produção de aço, insumo essencial para infraestruturas de energia renovável, como parques eólicos, redes elétricas e sistemas de mobilidade eletrificada.
"O minério de ferro não é protagonista direto. O protagonismo está no lítio, nas baterias, no cobre, na eletrificação. Mas o ferro funciona como uma infraestrutura invisível dessa transição", diz Jacques Paes, professor do MBA de ESG e sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas, à Sputnik Brasil.
"O minério de ferro não é protagonista direto. O protagonismo está no lítio, nas baterias, no cobre, na eletrificação. Mas o ferro funciona como uma infraestrutura invisível dessa transição."
Paes acrescenta que, embora a mineração — incluindo o minério de ferro — tenha papel relevante na transição energética, ela carrega uma contradição estrutural ao ainda depender de combustíveis fósseis para viabilizar esse processo.
O Brasil possui hoje uma matriz mais voltada à geração renovável – cerca de 85% vem de hidrelétricas – do que propriamente a uma transição energética coordenada. Quando se observa a matriz energética total, que inclui transporte e indústria, a participação de renováveis cai para cerca de 45%, evidenciando a persistente dependência de combustíveis fósseis.
Além disso, a expansão de fontes como eólica e solar evidencia gargalos na transmissão e no aproveitamento dessa energia. Grande parte dessa geração está localizada no Nordeste, enquanto o principal polo de consumo permanece no Sudeste, historicamente abastecido por hidrelétricas.
Nesse sentido, a transição energética também impõe pressões sobre a siderurgia. O avanço do chamado "aço verde", com menor emissão de carbono, tende a elevar o valor estratégico de minérios de maior qualidade, favorecendo países capazes de atender a padrões ambientais mais exigentes. "O ponto central não é o minério em si, mas como ele é produzido."
Embora ainda seja indispensável para o restante indústria, o ferro não possui o mesmo valor estratégico no Brasil direto que minerais como o lítio — usado em baterias recarregáveis —, o cobre, essencial para processos de eletrificação, ou as "terras raras".
Segundo Paes, isso se deve em como o país se insere na economia mundial. "Não vejo como o minério de ferro se transformar em um ativo estratégico, até porque nós não estamos preparados para isso. A nossa história está vinculada à produção de commodities."
O problema não está no recurso em si, mas na forma como ele é inserido no sistema econômico. O especialista avalia que não houve, até o momento, uma ruptura estrutural no país que permita avançar para cadeias de maior valor agregado, como ocorre em outros segmentos ligados a minerais críticos.
"Hoje, não temos estrutura logística e industrial suficiente para mudar esse padrão. Em vez de deixar de ser uma economia exportadora de commodities, corremos o risco de fortalecer ainda mais esse modelo."
Em contraste, Ana Cláudia Ruy Cardia, diretora executiva da Coerentia Sustainable Solutions, consultoria estratégica em Sustentabilidade e ESG, avalia que o projeto Ferro Potiguar indica uma mudança de patamar para o minério de ferro.
Segundo ela, a integração entre extração e escoamento aponta para uma ampliação do papel estratégico do recurso, à medida que o Brasil expande iniciativas minerárias em diferentes regiões do país.
"A crescente demanda por esse minério em uma economia de baixo carbono coloca o Brasil no centro das discussões, não apenas pela extração, mas também pelos impactos socioambientais associados ao processo."
Nesse cenário, o país também tem buscado diversificar seus parceiros. A aproximação com países como Índia e China, além do fortalecimento de articulações no âmbito do BRICS, sinaliza uma tentativa de maior autonomia em um sistema internacional cada vez mais multipolar.
Se por um lado diversificação de parceiros fortalece relações com o Sul Global. Cardia pondera, no entanto, que esse movimento exige cautela e equilíbrio entre atração de investimentos e soberania.
"A chave está na prevenção e no fortalecimento institucional, o que não impede parcerias internacionais, mas assegura que elas ocorram em bases mais equilibradas."
Medidas como o Marco Mineral de 2017, a fiscalização por órgãos públicos e a inclusão de cláusulas contratuais mais rigorosas em termos socioambientais são, segundo ela, essenciais para garantir que o desenvolvimento do setor ocorra sem comprometer o controle nacional sobre os recursos.
Na mesma linha, o professor de relações internacionais do Ibmec, Marcio Sette Fortes, destaca que o minério de ferro já possui caráter estratégico, especialmente pela diversidade de aplicações e pelo avanço de tecnologias que permitem reduzir emissões em seu beneficiamento.
Segundo ele, a verticalização — incluindo controle sobre logística e operações portuárias — pode indicar tanto uma busca por redução de custos quanto por maior confiabilidade e eficiência no escoamento.
Ele aponta que parcerias com diferentes países não são novidade e podem contribuir para agregar valor à produção. Ele cita experiências como joint ventures da Vale com empresas estrangeiras — como a sul-coreana POSCO e a alemã ThyssenKrupp — que buscaram ampliar a produção siderúrgica no país.
No contexto da transição energética, Fortes ressalta que o Brasil ocupa posição relevante como fornecedor de minério de alto teor, o que permite a produção de aço com menor emissão de carbono.
"Isso amplia a importância do país na economia de baixo carbono, dado o papel do aço em múltiplas infraestruturas", observa.
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