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Integração nas fronteiras: os efeitos invisíveis da parceria energética entre Brasil e Bolívia
Brasil e Bolívia firmaram na semana passada uma série de acordos em várias áreas de atuação, inclusive energética. Para analista ouvido pela Sputnik Brasil, parceria é estratégica para o Brasil com seu vizinho de maior divisa terrestre e beneficia populações de fronteira.
No encontro entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, e Rodrigo Paz, da Bolívia, entendimentos nas áreas de turismo e energia foram firmados; além disso, outras frentes de trabalho, como cooperação no setor de mineração, foram alvitradas.
Em relação ao setor de energia, Brasília demonstrou interesse incrementar a produção de gás no país vizinho e firmou um projeto que prevê a ligação entre a província de Germán Busch, no departamento de Santa Cruz, na Bolívia, e o município de Corumbá, no Mato Grosso do Sul (MS). Segundo o governo federal, a iniciativa inclui a instalação de uma estação conversora de frequência no lado brasileiro e a construção de linhas de transmissão com capacidade aproximada de 420 megawatts (MW).
À Sputnik Brasil, Clayton Cunha Filho, professor de ciência política da Universidade Federal do Ceará (UFC), explicou que este tipo de acordo é benéfico para ambos os países, afinal, pelo tamanho da fronteira, as nações compartilham desafios no contexto de segurança, tráfico, contrabando e também relacionado às questões comerciais.
Ele ressalta que os benefícios nunca são homogêneos para os dois lados ou para outras regiões, mas são importantes para dar condições e infraestrutura às populações fronteiriças.
"A interconexão elétrica entre o estado do Mato Grosso com a Bolívia é importante porque aumenta a segurança energética, sobretudo para esses dois lados, mas não apenas, porque em uma situação de emergência, se você tem as linhas de transmissão adequadas, se falta energia no Brasil ou em outro lugar, se tiver sobrando na Bolívia, você poderia, por exemplo, importar de lá emergencialmente, como o Brasil já faz muito da Venezuela em Roraima".
Ademais, o Brasil é importante para a Bolívia desenvolver potenciais econômicos na mineração, como citado pelos governos. "O Brasil tem companhias mineradoras importantes e tem interesses e necessidades de determinados minérios, de determinados produtos. O Brasil importa fertilizantes da Bolívia, embora um volume relativamente pequeno".
Brasil não deve se isolar da Bolívia por conta dos EUA
Nas redes sociais, o acordo suscitou lembranças da desaceleração do envolvimento da Petrobrás na exploração de hidrocarbonetos na Bolívia em 2006, após o Movimento ao Socialismo (MAS), liderado pelo então presidente Evo Morales, estatizar o gás boliviano.
Cunha Filho relembra que o episódio interferiu nas atuações da estatal brasileira no território vizinho, mas não significaram prejuízo à Brasília, como ainda é afirmado hodiernamente. Na ocasião, a Bolívia pagou indenizações ao Brasil referentes ao valor de mercado da época.
"Isso já ficou para trás. Se a Petrobras está voltando à Bolívia é por enxergar que vai ter possibilidades de obter benefícios para os seus interesses, embora as reservas de gás da Bolívia venham numa tendência de declínio."
Questionado se o movimento de aproximação com Laz Paz pode criar uma vulnerabilidade estratégica ao Brasil, uma vez que Rodrigo Paz esteve recentemente em um encontro com o presidente dos EUA, Donald Trump, na criação do Escudo das Américas, ao lado de outros presidentes latino-americanos, Cunha Filho respondeu que o equívoco seria se o Brasil se isolasse, deixando a Bolívia aberta às potências externas.
"A Bolívia está longe de ser um bloco monolítico alinhado com Washington com o qual não se possa negociar sob pena de comprometer a própria soberania". Neste sentido, abandonar o país, "eventualmente poderia vir a comprometer a soberania e os interesses do Brasil".
O analista avalia Paz como um representante pragmático, portanto, ao contrário do presidente de outro vizinho do Brasil, a Argentina. "Aí sim já é um governo de extrema-direita, a situação é um pouco mais complicada".
Neste caso, como Javier Milei já deu várias demonstrações públicas de oposição e até mesmo ofensa ao governo brasileiro, "dificulta muito mais quaisquer possíveis acordos, mesmo coisas que beneficiariam eventualmente aos dois países"; no caso argentino, o especialista vê um "país que está realmente se alinhando [aos EUA], inclusive às custas do seu próprio interesse nacional".
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