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Crise do rotativo acende alerta no Planalto e força governo a rever regras do crédito

Endividamento recorde das famílias leva equipe de Lula a discutir mudanças no cartão de crédito e novas medidas para conter juros abusivos.

Por Sputnik Brasil 25/03/2026
Crise do rotativo acende alerta no Planalto e força governo a rever regras do crédito
Governo Lula discute novas regras para o crédito rotativo diante do aumento do endividamento das famílias. - Foto: CC BY 2.0 / frankieleon / rainbow of credit

O governo Lula intensificou as discussões sobre mudanças nas regras do cartão de crédito, reduzindo o custo do rotativo, atualmente planejado como principal vilão do endividamento das famílias brasileiras. A avaliação interna do Planalto é que o peso das dívidas tem neutralizado avanços econômicos, como a queda do desemprego e o aumento da renda.

Segundo a Folha de S.Paulo, o tema esteve em pauta em reuniões recentes entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a cúpula do Executivo, incluindo ministros das áreas política e de comunicação. Gleisi Hoffmann e Sidônio Palmeira defendem revisão dos critérios para definição de limites do rotativo, diante do diagnóstico de que famílias chegam ao fim do mês sem recursos devido ao alto comprometimento da renda com dívidas.

Dados do Banco Central indicam que as famílias destinam 29% de seus rendimentos ao pagamento de compromissos financeiros, o maior patamar em vinte anos. O rotativo do cartão liderou a inadimplência, com 63,5% de calotes em janeiro e juros mensais de 14,81% — superiores à própria taxa Selic anual.

Apesar de o Congresso ter aprovado em 2024 um limite para evitar que juros e encargos dobrem o valor da dívida original, membros do governo avaliam que a medida foi insuficiente. Por isso, também estão sendo consideradas alterações no consignado privado, cujas taxas permanecem altas mesmo após a recente reformulação.

Entre as propostas em análise estão a definição de um teto prático para juros considerados abusivos e a regulamentação do uso do saldo do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) como garantia no consignado privado, o que poderia reduzir os custos do crédito.

De acordo com a apuração, representantes do setor financeiro avaliaram que, em ano eleitoral, o Congresso tende a aprovar medidas que aliviem o crédito, a exemplo da ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda.

O governo também pode discutir alterações no limite de juros do cheque especial, atualmente fixadas em 8% ao mês. Em 2023, a proposta de impor um teto ao cartão de crédito foi descartada após estudo dos bancos indicar que milhões de cartões poderiam ser cancelados, mas o setor acredita que o tema deve voltar à pauta.

Persistem críticas internacionais ao modelo de estímulo ao crédito adotado pelo governo Lula. Técnicos da área econômica avisaram que programas como o Desenrola deram algum problema, mas não solucionaram problemas estruturais do endividamento, que continuam pressionando o orçamento das famílias e o ambiente político do governo, segundo a Folha.