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Estudo aponta mais de 150 mil mortes por covid-19 não contabilizadas nos Estados Unidos

Pesquisa revela que óbitos não registrados afetam principalmente negros e hispânicos, sobretudo no Sul e Sudoeste do país

20/03/2026
Estudo aponta mais de 150 mil mortes por covid-19 não contabilizadas nos Estados Unidos
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

O número real de mortes causadas pela covid-19 nos Estados Unidos pode ser significativamente maior do que o divulgado oficialmente, conforme indica um novo estudo que evidencia disparidades nas estatísticas de óbitos.

De acordo com registros oficiais, cerca de 840 mil mortes por covid-19 foram documentadas em certidões de óbito entre 2020 e 2021. No entanto, pesquisadores utilizando inteligência artificial estimam que até 155 mil mortes adicionais podem ter ocorrido fora de hospitais e não foram reconhecidas, representando cerca de 16% das mortes pela doença não contabilizadas nesse período.

Os resultados, publicados na última quarta-feira (18) na revista Science Advances, corroboram estimativas anteriores, mas o novo estudo buscou identificar quais mortes ficaram fora dos registros. Segundo os autores, as vítimas não contabilizadas eram, em sua maioria, hispânicos e negros, faleceram nos primeiros meses da pandemia e residiam em estados do Sul e Sudoeste, como Alabama, Oklahoma e Carolina do Sul.

Seis anos após o início da pandemia, barreiras de acesso à saúde ainda persistem para as populações mais vulneráveis, ressalta Steven Woolf, pesquisador da Virginia Commonwealth University, que não participou do estudo. “Pessoas marginalizadas continuam morrendo em taxas desproporcionais porque não têm acesso a cuidados médicos”, afirma.

Acesso não foi o único desafio

Embora pacientes hospitalizados fossem rotineiramente testados para covid-19, muitos dos que adoeceram e morreram fora dos hospitais não foram testados, principalmente devido à indisponibilidade de testes domiciliares no início da pandemia, explica Elizabeth Wrigley-Field, da Universidade de Minnesota, uma das autoras do estudo.

Em algumas regiões, as investigações de óbitos são conduzidas por legistas sem formação especializada. Pesquisas também sugerem que opiniões partidárias podem influenciar a decisão de testar para covid-19, tanto em vida quanto post-mortem. Alguns legistas relataram pressões familiares para que a doença não fosse listada como causa da morte.

“Nosso sistema antiquado de investigação de óbitos é um dos principais motivos pelos quais não conseguimos obter números precisos, principalmente fora das grandes áreas metropolitanas”, destaca Andrew Stokes, da Universidade de Boston, autor principal do artigo.

Contagem de mortes foi afetada pela política

Segundo dados dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), mais de 1,2 milhão de mortes por covid-19 foram registradas nos Estados Unidos desde o início da pandemia, sendo a maioria entre 2020 e 2021.

A contagem de óbitos tem sido alvo de controvérsias, especialmente após alegações falsas nas redes sociais de que os números estariam inflados. Em 2020, o então presidente Donald Trump compartilhou uma publicação que afirmava que apenas 6% das mortes relatadas eram de fato causadas pela covid-19, conteúdo posteriormente removido pelo Twitter.

É importante ressaltar que outras causas de morte também aumentaram durante a pandemia, como óbitos por falta de atendimento hospitalar e overdoses relacionadas ao isolamento social. Outros estudos já consideraram esses fatores ao estimar o impacto total da pandemia.

Nesta pesquisa, Stokes e equipe focaram nas mortes de pessoas infectadas pelo coronavírus. Utilizaram aprendizado de máquina para analisar certidões de óbito de pacientes hospitalizados e, com base nesses padrões, avaliaram registros de pessoas que morreram fora dos hospitais, mas tiveram óbitos atribuídos a doenças como pneumonia ou diabetes.

Ainda que a ciência sobre o uso de aprendizado de máquina em pesquisas desse tipo esteja em desenvolvimento, Steven Woolf considera a abordagem adotada “intrigante”.

*Este conteúdo foi traduzido com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial e revisado pela equipe editorial do Estadão. Saiba mais em nossa Política de IA.