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Os golpes com IA estão cada vez mais inteligentes. Como se precaver?

De vídeos falsos a chamadas de vídeo manipuladas, a nova geração de golpes digitais explora tecnologias de inteligência artificial para enganar vítimas com alto grau de realismo

Assessoria 19/03/2026
Os golpes com IA estão cada vez mais inteligentes. Como se precaver?

Em poucos segundos, um vídeo pode mostrar um empresário recomendando um investimento milagroso. Uma celebridade pode aparecer pedindo doações urgentes. Ou até um “chefe” pode surgir em uma chamada de vídeo pedindo uma transferência imediata. O problema é que, muitas vezes, nada disso é real.

A inteligência artificial elevou o nível das fraudes digitais a um novo patamar. O que antes era um e-mail mal escrito ou uma mensagem suspeita hoje pode vir na forma de vídeos, vozes clonadas e perfis extremamente convincentes. Para especialistas, estamos entrando em uma fase em que distinguir o real do fabricado exige cada vez mais atenção.

Os números mostram que o fenômeno já é global. No Brasil, as fraudes com deepfakes e identidades sintéticas cresceram 126% entre 2024 e 2025, segundo o relatório Identity Fraud Report 2025–2026. O país concentra quase 39% de todos os deepfakes detectados na América Latina.

E não se trata apenas de tecnologia avançada, como também de escala. Um levantamento da empresa de cibersegurança Kaspersky identificou 309 milhões de tentativas de phishing bloqueadas no Brasil em um ano, o equivalente a 588 ataques por minuto.

O impacto econômico também é significativo. Dados do DataSenado indicam que 24% dos brasileiros adultos foram vítimas de golpes digitais nos últimos 12 meses, gerando perdas estimadas em R$ 10,1 bilhões em 2024, segundo a Febraban.

Para quem acompanha de perto o avanço do audiovisual e da tecnologia, o cenário é claro: a inteligência artificial se tornou uma ferramenta poderosa tanto para criar quanto para enganar. “Hoje qualquer pessoa consegue gerar imagens, vídeos e vozes extremamente convincentes. A tecnologia não é mais restrita a grandes estúdios ou laboratórios. Isso abre oportunidades criativas enormes, mas também cria um ambiente perfeito para fraudes sofisticadas”, explica Náthan Ximenes, diretor criativo e estrategista de comunicação digital, fundador da NTX Group.

Grande parte dos golpes atuais usa deepfakes, tecnologia que permite manipular imagens ou vozes para simular pessoas reais. Em muitos casos, criminosos utilizam rostos de figuras públicas ou executivos de empresas para ganhar credibilidade rapidamente.

O fenômeno não para de crescer. Um estudo do Observatório Lupa mostrou que conteúdos falsos gerados com inteligência artificial aumentaram 308% entre 2024 e 2025 no Brasil, que circulam principalmente em redes sociais e aplicativos de mensagens. Muitas vezes, aparecem como anúncios patrocinados ou vídeos virais.

Náthan observa que a sofisticação dessas produções pode confundir até usuários experientes. “Estamos chegando a um ponto em que, para um público leigo, é praticamente impossível identificar um vídeo falso apenas olhando rapidamente. Pequenos detalhes técnicos como repetição de elementos na imagem ou inconsistências no movimento ainda podem denunciar a manipulação, mas eles estão ficando cada vez mais sutis”, afirma.

O especialista aponta que o modelo das fraudes também mudou. Antes, o objetivo era atingir muitas pessoas com golpes simples. Agora, a estratégia é apostar em ataques mais elaborados e direcionados. Entre os golpes mais comuns impulsionados por IA estão:

- Vídeos falsos de celebridades promovendo investimentos ou plataformas financeiras;

- Clonagem de voz para simular familiares ou executivos;

- Anúncios de emprego ou renda extra com depoimentos fabricados;

- Perfis falsos que replicam influenciadores ou especialistas;

- Reuniões virtuais manipuladas com deepfake para autorizar transferências.

Apesar da sofisticação das fraudes, algumas práticas continuam sendo fundamentais para reduzir riscos. Náthan destaca que o primeiro passo é desenvolver uma postura mais crítica diante do conteúdo digital. “A regra número um é desconfiar de qualquer mensagem que pressione por urgência ou dinheiro. Golpistas exploram emoção e pressa. Quando a pessoa para, verifica e cruza informações, a chance de cair em fraude diminui drasticamente”, explica.

Entre as recomendações mais comuns do especialista estão:

Verificar a fonte: Antes de confiar em um vídeo ou mensagem, confirme se ele aparece também nos canais oficiais da pessoa ou empresa citada.

Desconfiar de promessas fáceis: Ofertas de investimento com ganhos garantidos ou “oportunidades exclusivas” são frequentemente usadas como isca.

Checar detalhes visuais: Em vídeos manipulados, podem surgir distorções sutis em mãos, sombras, movimentos faciais ou repetição de elementos.

Confirmar pedidos financeiros por outro canal: Se um chefe ou familiar pedir dinheiro por mensagem ou vídeo, confirme por telefone ou pessoalmente.

Evitar clicar em links recebidos por redes sociais ou mensagens: Muitos golpes começam com páginas falsas que imitam sites legítimos.

A tecnologia que permite criar fraudes sofisticadas é a mesma que está revolucionando setores inteiros da economia, do audiovisual à publicidade, do marketing ao entretenimento. Para o especialista, o ponto central não é combater a inteligência artificial, mas aprender a conviver com ela. “A IA não é vilã. Ela é uma ferramenta poderosa. O problema é quando pessoas mal-intencionadas usam essa tecnologia para manipular confiança. Por isso, educação digital e pensamento crítico serão cada vez mais importantes nos próximos anos”.

Em um mundo onde imagens, vozes e histórias podem ser geradas em segundos, a capacidade de questionar o que vemos talvez seja a habilidade mais valiosa da era digital.