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Festival Desapegue-se retorna ao Grajaú e transforma bairro em palco de justiça climática
O bairro do Grajaú, na Zona Norte do Rio de Janeiro, volta ao centro das discussões sobre o futuro das cidades, sustentabilidade e economia circular. Após o hiato imposto pela pandemia, o Festival Desapegue-se retorna em março à Praça Edmundo Rego, com a proposta de discutir justiça climática em um território que ajudou a construir sua própria identidade. Reconhecido por lei municipal como patrimônio de interesse cultural, social e ecológico, o evento chega à 124ª edição em seus 18 anos de história, se consolidando como um dos movimentos comunitários mais consistentes da cidade.
Criado em 2008, o festival já impactou mais de 360 mil pessoas, sendo uma iniciativa que articula cultura, sustentabilidade, educação e mobilização local. Agora, retorna às ruas com um simbolismo que ultrapassa a programação: é o reencontro presencial de um bairro com sua própria memória coletiva, mas também com sua capacidade de projetar novos caminhos.
A inspiração dialoga com o símbolo africano Sankofa, o pássaro que olha para trás enquanto segue adiante, ensinando que o passado só faz sentido quando orienta o futuro. No caso do Desapegue-se, a memória não é ponto de chegada, mas impulso para sonhar futuros regenerativos a partir das raízes do território.
Para Karima Prem, idealizadora do projeto, o retorno carrega um significado que vai além da agenda cultural. A volta à praça após o período da pandemia representa a retomada de um ciclo que nunca foi interrompido de fato, apenas transformado. Segundo ela, o festival permaneceu vivo na memória do território, na rede construída ao longo dos anos e nas iniciativas que continuaram germinando mesmo durante o intervalo.
“Como dizia Nego Bispo, a gente não acredita em fim, mas sim em início, meio e início. O retorno do Desapegue-se à praça é a prova viva desse movimento circular de tudo que é pulsante. Nesses anos de intervalo, o festival não parou; ele continuou vivo na memória do território, nas mudas da nossa horta e na vontade da nossa rede. Estar de volta agora é dar início a um novo ciclo de regeneração, mostrando que o que é feito com afeto e propósito nunca morre, ele se transforma e volta ainda mais forte para ocupar o lugar onde ele pertence: o encontro”, afirma Karima.
Esta será a primeira edição totalmente presencial após a pandemia. O retorno foi antecedido pelo “Bairro Vivo”, um pré-evento que convidou moradores a sonhar e cocriar o legado da nova edição. A proposta reforça a identidade do Desapegue-se como um movimento construído com e para o território, baseado em escuta ativa e processos colaborativos.
Na visão da idealizadora, o diferencial está justamente na forma como o festival é concebido: em diálogo permanente com quem vive o cotidiano da região e participa ativamente da construção do encontro. A proposta de atuar “com e para” a comunidade ganhou ainda mais consistência a partir do Bairro Vivo, que funcionou como um espaço estruturado de escuta e cocriação. Foi nesse processo que as demandas e os sonhos do pós-pandemia passaram a orientar os caminhos desta nova fase.
“Nós somos o próprio bairro em ação. O Bairro Vivo foi essencial nesse processo porque ele não foi apenas um ‘esquenta’, mas um laboratório de escuta. Foi ali, sentado com os moradores e amigos, que entendemos quais eram as dores e os sonhos atuais da comunidade pós-pandemia. Essa edição foi desenhada a partir dessa inteligência coletiva. O diferencial é que o legado não é só o dia da festa, mas a rede que se fortalece, a horta que se renova e a confiança que a gente reconstrói ao perceber que somos capazes de cocriar o futuro que queremos para o nosso lugar. O Bairro Vivo nos deu a bússola; o festival é a celebração desse caminho trilhado em conjunto”, reforça a fundadora.
Da escola pública à praça
A programação começa antes mesmo do fim de semana aberto ao público. Nos dias 19 e 20 de março, escolas públicas do Grajaú recebem ações voltadas à educação climática e à economia circular. Oficinas e atividades lúdicas abrem o debate sobre os impactos da crise ambiental nas cidades e o papel das comunidades na construção de soluções locais.
A escolha de iniciar pelas escolas, segundo a criadora do projeto, está diretamente ligada à proposta de trabalhar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável na prática, especialmente o ODS 11, que trata de Cidades e Comunidades Sustentáveis. Para ela, a transformação urbana começa pela formação de consciência e pelo engajamento das novas gerações dentro do próprio território.
“Iniciar pelas escolas é a realização de um sonho coletivo que acalentamos há anos. Para nós, o Desapegue-se não é só festa; é um processo educativo constante. Escolhemos as escolas porque é nelas que a semente da transformação real é plantada. Quando trabalhamos o ODS 11, Cidades e Comunidades Sustentáveis, com os jovens, não estamos apenas falando de teoria. Estamos levando a prática da economia circular e da educação climática para o cotidiano deles. Queremos que eles entendam que a cidade é um organismo vivo e que eles têm o poder de cocriar soluções locais para problemas globais”, afirma Prem.
No sábado, dia 21, a agenda ocupa a Praça Edmundo Rego com um mutirão na Horta Comunitária do Grajaú e caminhadas históricas e ecológicas conduzidas por especialistas. A ação busca despertar o elo afetivo entre o cidadão e o lugar, fortalecendo o sentimento de pertencimento e a corresponsabilidade pelo bem comum.
Trocar, reparar e celebrar
No domingo, a praça se transforma em um circuito simultâneo de atividades, com a tradicional Feira de Trocas como grande protagonista. O espaço volta a funcionar com moeda social, reforçando a lógica da economia solidária que marcou as primeiras edições do evento e estimulando novas formas de consumo consciente.
Complementando essa dinâmica, a Estação de Reparos oferece consertos gratuitos de bicicletas, roupas, sapatos e pequenos eletrônicos, numa ação prática para combater o descarte imediato e fortalecer a cultura da economia circular.
“Para nós, o desapego nunca foi sobre perda, mas sobre abertura. Muitas vezes acreditamos que a vida é sobre acumular, quando, na verdade, é sobre soltar para deixar a vida fluir. Estamos convidando as pessoas a se desapegarem da ideia de posse absoluta e do descarte. O desapego abre espaço para ganharmos a nós mesmos e ao coletivo. É assim que transformamos consumo em conexão e objetos em novas oportunidades de encontro ", observa a responsável.
Na programação cultural, o Espaço Nave propõe o “Encontro com Seres do futuro”, uma experiência de ecologia profunda inspirada no pensamento da ambientalista Joanna Macy, convidando o público a esperançar, ou seja, exercer uma esperança ativa capaz de transformar imaginários em prática. Já a Biblioteca Viva transforma histórias de moradores em encontros presenciais, permitindo que o público “leia” pessoas em vez de livros.
O encerramento fica por conta do Baile Charme de Madureira, conectando sustentabilidade e cultura urbana em uma celebração coletiva que dialoga com diferentes gerações.
Compromisso ambiental e acessibilidade
Além do discurso, o festival adota compromissos operacionais. A edição seguirá as diretrizes da norma ISO 20121:2024, padrão internacional de gestão sustentável para eventos. A organização pretende obter certificação Lixo Zero, neutralizar as emissões de carbono e eliminar plásticos de uso único. A praça de alimentação será integralmente vegetariana. As ações contam com apoio da Boomerang – Soluções Ambientais e da Lix – Eventos e Sustentabilidade.
A acessibilidade também integra o planejamento. O evento contará com intérprete de Libras, audiodescrição por QR Code, espaços de descanso e estrutura adaptada. Pelas iniciativas implementadas, o festival conquistou o selo de evento acessível, que será entregue durante a programação pela Biomob, parceira na área de inclusão.
Para a idealizadora do projeto, no entanto, a inclusão não é apenas uma adequação estrutural, mas parte de uma visão mais ampla de justiça climática. Na avaliação da organizadora, qualquer transição ecológica precisa ser socialmente justa e garantir que todos tenham acesso aos espaços de decisão, convivência e transformação.
“Acreditamos que a sustentabilidade social é a base que sustenta todos os outros pilares. Como dizia Chico Mendes: ‘Ecologia sem justiça social é jardinagem’. Não podemos falar de regeneração do território se não estivermos regenerando, primeiro, as relações humanas e combatendo as desigualdades. Para o Desapegue-se, o cuidado com a Terra é indissociável do cuidado com as pessoas; a justiça climática é, antes de tudo, uma questão de dignidade e inclusão. É por isso que nossa estrutura é pensada para que todos, sem exceção, possam ocupar a praça e ser protagonistas dessa mudança”, destaca Karima.
Justiça climática no centro das ações
A edição tem como eixo a justiça climática. Em uma cidade que registrou sensação térmica de 62,3°C em 2024, o debate sobre adaptação e desigualdade ambiental ganha dimensão concreta no território.
O festival estrutura suas ações em diálogo com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, com foco em cidades sustentáveis, consumo responsável, ação climática e parcerias comunitárias. Mais do que um encontro pontual, a proposta é deixar um legado permanente no Grajaú.
Ao retomar a ocupação da praça pública, o Desapegue-se reforça uma ideia que atravessa sua história: transformar pertencimento em ação coletiva. Para a idealizadora do projeto, o impacto mais relevante não termina quando a programação se encerra, mas continua reverberando nas relações e iniciativas que permanecem ativas no território.
“Eu me vejo apenas como um canal para que tudo isso aconteça, pois quem faz o Desapegue-se, de verdade, são as pessoas. Ele não é um evento estático, mas um organismo vivo e pulsante que ganhou vida própria. O meu maior legado, e o meu grande sonho, é que esse movimento ganhe o mundo”, afirma a criadora do movimento.
A organizadora acredita que a iniciativa pode ultrapassar os limites do bairro e da cidade, tornando-se uma referência replicável para outros territórios.
“Queremos deixar no Grajaú e no Rio de Janeiro a semente de um modelo simples, de código aberto, totalmente replicável e viral. Sonho com o dia em que qualquer praça, em qualquer lugar do mundo, possa se apropriar dessa tecnologia social para regenerar seu território. O Desapegue-se é livre para se expandir e transbordar, porque quando o pertencimento se transforma em ação coletiva, não há limites para onde a nossa cooperação pode chegar. O legado não sou eu, nem a marca; é a prova de que cada comunidade tem a força necessária para criar o seu próprio futuro sustentável”, conclui.
O Festival conta com o patrocínio do Governo Federal, Ministério da Cultura, Governo do Estado do Rio de Janeiro, Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro, através da Política Nacional Aldir Blanc, e é realizado pela Mara e Lara Guimarães Guimarães Comunicação e Eventos e pelo Instituto Casa Anitcha, e conta apoio da Boomerang – Soluções Ambientais, da Lix – Eventos e Sustentabilidade e da Biomob.
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