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Diálogo entre pais e filhos é essencial para orientar o uso das redes sociais

Conteúdos tóxicos podem aumentar ansiedade, insegurança e distorcer a percepção das crianças sobre relações, corpo e autoestima

Assessoria 17/03/2026
Diálogo entre pais e filhos é essencial para orientar o uso das redes sociais

Em fevereiro deste ano, o Reino Unido lançou a campanha “You Won’t Know Until You Ask” (“Você não vai saber até perguntar”) com o objetivo de incentivar o diálogo entre pais e filhos sobre o que as crianças acessam nas redes sociais, especialmente conteúdos tóxicos que aparecem no feed. A iniciativa surgiu após um levantamento apontar que metade dos pais britânicos nunca discutiu os riscos dos conteúdos on-line com seus filhos, mesmo com o acesso ao smartphone ocorrendo cada vez mais cedo.

A psicopedagoga Paula Furtado observa que, entre os diversos temas, o projeto reúne orientações práticas e divididas por faixa etária, sugestões de como iniciar conversas com crianças e adolescentes sobre o que veem na internet, funcionamento de algoritmos, bolhas informacionais ou “de filtro”, uso de controles parentais, além de indicar onde os pais podem buscar ajuda.

E, mesmo considerando as diferenças culturais e sociais entre os países, os princípios da campanha (vínculo, escuta e maior presença na vida digital dos filhos) podem ser aplicados no Brasil, respeitando a realidade de cada família e contexto educacional. “Os adultos não precisam dominar tecnologia para orientar. O mais importante é conversar sobre o que aparece no feed, perguntar quem a criança segue e ensinar a desconfiar de conteúdos muito apelativos. Quando a criança sabe que pode pedir ajuda sem medo, a internet deixa de ser um espaço solitário”, alerta.

A iniciativa também chama atenção para os impactos que os conteúdos tóxicos podem ter no desenvolvimento emocional e cognitivo de crianças e adolescentes, já que esse tipo de publicação pode aumentar sentimentos de ansiedade e insegurança, bem como reforçar distorções sobre relações, corpo e autoestima. “Essas postagens também podem influenciar a forma como crianças e adolescentes percebem o mundo e se relacionam com os outros”, explica Paula.

Engajamento

Para a especialista, a proteção de crianças e adolescentes no mundo digital nacionalmente depende do envolvimento de diferentes setores da sociedade. “A família é a primeira linha de proteção emocional, mas não pode estar sozinha nessa tarefa. As escolas têm papel importante ao trabalhar educação midiática, pensamento crítico e letramento digital, enquanto o governo precisa fortalecer políticas públicas, campanhas de conscientização e mecanismos de regulação”, ressalta.

Já as plataformas, de acordo com Paula, têm responsabilidade direta pelo funcionamento dos algoritmos, pelo desenho dos ambientes digitais e pela moderação de conteúdos que influenciam fortemente a exposição infantil. A especialista lembra que o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) defende que a proteção no ambiente on-line exige maior investimento das empresas e legislações mais robustas, e não apenas o controle do tempo de tela. “Hoje, um grande entrave é transferir quase toda a responsabilidade para as famílias, quando parte do problema está no próprio funcionamento das plataformas. Essa tensão também aparece no debate britânico”.

Recursos educativos

Existem diversos recursos educativos que ajudam pais e responsáveis a se informar e participar da vida digital dos filhos. Entre os materiais recomendados estão o portal Kids Online Safety, do governo britânico, que explica a lógica da campanha internacional; o Guia sobre Usos de Dispositivos Digitais, do governo federal; os conteúdos e a Helpline da SaferNet Brasil; e os dados da TIC Kids Online Brasil, que auxiliam famílias e escolas a entenderem melhor o cenário real nacional.

Ainda de acordo com Paula, a educação digital deve ser incorporada à rotina das famílias de forma simples e prática. “É importante reservar momentos curtos e frequentes para conversar sobre o que as crianças veem on-line, explicar que supervisão é cuidado e não desconfiança, e construir combinados juntos, o que ajuda a reduzir resistências”, explica. Ela acrescenta que ensinar a checar fontes, desconfiar de conteúdos sensacionalistas e conversar sobre como imagens e vídeos podem ser manipulados são práticas fundamentais para identificar informações falsas e fortalecer o pensamento crítico dos jovens.