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'Fronteira Escudo': Kast instala valas e cercas contra a migração irregular no norte do Chile
O presidente do Chile, José Antonio Kast, acompanhou nesta segunda-feira (16) à construção de valas e cercas na fronteira norte, com o objetivo de impedir a entrada de migrantes irregulares no país.
Especialistas consultados pela Sputnik afirmaram que a medida poderá reduzir alguns circuitos do crime organizado, mas pode acabar se voltando contra o próprio governo no futuro.
Apenas quatro dias depois de assumir a presidência do Chile, José Antonio Kast colocou em prática uma de suas principais promessas de campanha: a construção de uma barreira para impedir a entrada de migrantes por passagens fronteiriças irregulares, no âmbito de um plano chamado Escudo Fronteiriço.
Em visita ao Complexo Fronteiriço Chacalluta, localizado na fronteira entre Chile e Peru, e a base militar Solo de Zaldívar, Kast supervisionou o trabalho de escavadeiras e de efetivos das Forças Armadas para criar uma extensa vala que dificulte a passagem de migrantes.
Segundo o governo, o plano visa garantir o "fechamento total da fronteira à imigração ilegal" e um sistema de contenção física e tecnológica intransponível, com valas de 3 metros de profundidade em áreas de alto fluxo migratório e muros ou cercas de segurança de 5 metros de altura, equipados com sensores de movimento e vigilância por drones.
A administração de José Antonio Kast pretende ainda acrescentar cercas perimetrais eletrificadas com vigilância de militares, torres de observação e radares térmicos, monitoramento por drones autônomos com câmeras de reconhecimento facial, infravermelho e sensores térmicos, operando 24 horas por dia, 7 dias por semana.
"A retroescavadeira hoje sim vai construir soberania”, afirmou Kast, reafirmando sua convicção de "frear essa imigração irregular que, nos últimos anos, trouxe mais de 180 mil pessoas que entraram no Chile pela janela".
Fim ao negócio dos 'coiotes'?
Em entrevista à Sputnik, o especialista chileno em segurança Eduardo Labarca afirmou que, embora valas e cercas não resolvam sozinhas o problema, ela devem "impedir que carros atravessem por passagens fronteiriças não autorizadas".
"Isso acaba um pouco com o negócio desses grupos chamados coiotes. São máfias do crime organizado que pegam pessoas — muitas delas criminosos, mas outras simplesmente não cumprem os requisitos para entrar — e cobram grandes quantias de dinheiro para levá-las a entrar de forma irregular", explicou Labarca.
O especialista acrescentou que esses grupos criminosos se fortaleceram na fronteira com essas operações, que levam principalmente migrantes da Venezuela ao território chileno. Depois de entrar no país, eles precisam caminhar quilômetros pelo deserto até serem novamente recolhidos pelas organizações criminosas.
Para ele, fronteira física que deixe de ser "porosa" ajudaria a bloquear a entrada gradual de criminosos, armas e drogas, fenômeno que tem sido associado à migração irregular e que, segundo o especialista, complementa as operações do narcotráfico realizadas por meio de portos chilenos.
Labarca ponderou, no entanto, a necessidade de outras medidas anunciadas, como tipificar a migração ilegal como crime — e não apenas como infração administrativa, o que facilitaria a detenção de migrantes irregulares e sua expulsão, após permanecerem temporariamente em acampamentos militares na fronteira.
Desafios econômicos
Em declarações à Radio Agricultura, citadas pelo site BioBioChile, o diretor designado do Servicio Nacional de Migraciones, Frank Sauerbaum, explicou que expulsar um migrante irregular custa, em média, 3 milhões de pesos chilenos (R$ 5,2 mil).
"Expulsar 37 mil pessoas tem um custo elevadíssimo, por isso o Congresso terá que aprovar mais recursos", antecipou o funcionário, referindo-se às expulsões já decretadas pela Justiça chilena.
O número ainda pode aumentar, já que 85 mil solicitações de expulsão estão em tramitação e cerca de 120 mil pessoas aguardam aprovação para se naturalizar.
'Erro de diagnóstico'
Também consultado pela Sputnik, o sociólogo e analista político chileno Alberto Mayol afirmou que barreiras físicas na fronteira podem ser um elemento dissuasório para aqueles menos dispostos a correr riscos, ao "gerar um clima de hostilidade".
Mayol considerou que o fenômeno migratório vivido pelo Chile "é normal em países que têm melhores oportunidades de trabalho do que os países vizinhos" e questionou a ideia de que a entrada de estrangeiros provoque "crises de financiamento do Estado" ou que sua assistência seja mais cara do que a destinada aos cidadãos nativos.
Apesar do aumento da violência e do fluxo de integrantes de facções crimonosas no país o analista airmou que "confundir os migrantes com o crime organizado é um erro de diagnóstico evidente".
O analista advertiu que José Antonio Kast pode enfrentar problemas de apoio político ao relacionar de forma tão direta os problemas de segurança com a entrada de migrantes irregulares, já que isso pode fazer com que os chilenos só se deem por satisfeitos se houver uma “queda radical” na migração, independentemente de sua natureza.
"Bastará que, nos próximos três anos, um crime seja cometido por um estrangeiro para que a gestão seja questionada ou vista como um sinal de fracasso", afirmou Alberto Mayol.
Mayol sustentou que, embora o exercício da autoridade seja um fator importante para os chilenos que votaram em Kast, o sucesso político do novo presidente dependerá mais "de sua capacidade de estruturar um projeto político e uma rota de governo clara e transparente”, distante do "fanatismo ideológico ou religioso".
Por Sputinik Brasil
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