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Alta nos fertilizantes importados pelo Brasil pode afetar segurança alimentar global, dizem analistas
Dados da Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA) mostram que, no ano passado, o agronegócio brasileiro consumiu cerca de 49 milhões de toneladas de fertilizantes, sendo 87% do volume importado. Diante desse cenário, a guerra no Oriente Médio reacendeu preocupações no setor sobre eventuais impactos no fornecimento do insumo ao Brasil.
Da soja ao milho, da cana-de-açúcar ao algodão, o Brasil tem se consolidado como um dos maiores produtores agrícolas do mundo. A safra atual deve atingir o recorde de 353,4 milhões de toneladas. Parte desse desempenho também está associada ao uso intensivo de fertilizantes, principalmente nitrogênio, fósforo e potássio. No entanto, grande parte desses insumos é importada, o que levanta preocupações sobre a segurança no abastecimento em momentos de instabilidade global, como ocorre agora no Oriente Médio, em meio à guerra envolvendo o Irã.
O professor do Departamento de Evolução Econômica da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Alexis Dantas explica à Sputnik Brasil que o cenário atual é resultado de políticas adotadas em governos anteriores que enfraqueceram a indústria nacional de fertilizantes. Além disso, o especialista alerta que os preços globais desses insumos já acumulam alta de cerca de 30%, o que afeta diretamente a competitividade do setor agrícola brasileiro, especialmente nas cadeias de soja e milho.
"No passado, a Petrobras tinha atuação em várias regiões do país na produção de fertilizantes, mas essa atividade foi cedida à iniciativa privada. A expectativa era de que o setor privado retomasse a produção com os processos de arrendamento feitos para várias empresas, mas isso não aconteceu [...]. Ou seja, a nossa capacidade interna de garantir preços razoáveis foi bastante enfraquecida. Isso também representa um prejuízo do ponto de vista industrial e empresarial, já que foi uma privatização muito mal conduzida", explica.
Apesar de considerar a atual elevação de preços uma situação temporária, o professor da UERJ avalia que o cenário evidencia um erro estratégico do país ao depender quase totalmente do fornecimento internacional desses insumos. A doutora em economia pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Diana Chaib concorda e acrescenta que a instabilidade provocada pelo conflito pressiona diretamente os preços da energia utilizada na produção de fertilizantes, especialmente o gás natural.
"Isso acaba gerando uma tendência de elevação no custo desses produtos. Também podemos considerar que conflitos no Oriente Médio podem gerar volatilidade nos mercados internacionais, afetar cadeias logísticas e influenciar os preços de commodities estratégicas. A lógica é um pouco essa: há um conflito e isso tende a fazer com que o preço dessas commodities, como as agrícolas, que dependem desses insumos, também suba", afirma.
Segundo a especialista, a produção desses insumos também está concentrada em poucos países. Alguns deles ficam justamente na região do conflito e respondem por cerca de 30% das exportações mundiais de fertilizantes, além de grandes produtores como Rússia e Canadá.
"Essa concentração torna o mercado mundial mais suscetível a choques geopolíticos e comerciais. Para países como o Brasil, que dependem dessas importações, e para outras economias que enfrentam dependência semelhante, isso aumenta a vulnerabilidade a eventos extremos e a choques externos que podem afetar a produção agrícola e, consequentemente, a segurança alimentar global".
Brasil e o plano para reduzir a dependência externa de fertilizantes
Em 2022, o governo brasileiro lançou o Plano Nacional de Fertilizantes, que estabeleceu a meta de reduzir pela metade, até 2050, a participação dos insumos importados no volume utilizado pelo setor agrícola. Para Chaib, a iniciativa reconhece a vulnerabilidade estrutural do país, mas representa um processo de médio e longo prazo que ainda exige investimentos significativos.
"Ou seja, ao mesmo tempo em que o plano tem importância estratégica, ele também possui limitações por depender de investimentos robustos e por apresentar resultados que tendem a aparecer apenas ao longo do tempo", resume.
Já o professor Alexis Dantas lembra que a Petrobras assumiu o compromisso de retomar protagonismo na produção nacional de fertilizantes em seu plano estratégico. No entanto, ele ressalta que será necessário um período mais longo para reconstruir a estrutura produtiva.
"Esse movimento segue uma lógica semelhante ao que ocorreu com a distribuição de petróleo no Brasil. A privatização da BR Distribuidora também fez com que os preços dos combustíveis aumentassem significativamente. Para se ter uma ideia, mesmo sem aumento de preços nas refinarias da Petrobras, algumas distribuidoras aumentam os preços dos combustíveis sem que tenha havido aumento de custo para elas. Algo semelhante ocorre agora com os fertilizantes, o que evidencia a nossa grande dependência das importações", compara.
Embora ainda seja cedo para medir os efeitos diretos da guerra no Oriente Médio sobre o agronegócio brasileiro, caso o encarecimento dos fertilizantes se prolongue, o setor pode enfrentar não apenas aumento de custos, mas também dificuldades para expandir a produção.
"Dada a importância do Brasil na produção global de alimentos, qualquer impacto na nossa capacidade produtiva pode contribuir para uma redução da segurança alimentar em nível mundial", alerta Dantas.
Apesar disso, a economista Diana Chaib ressalta que o agronegócio brasileiro possui elevada competitividade internacional e tende a absorver parte desses choques no curto prazo, "seja por ajustes tecnológicos ou pela própria escala produtiva".
Por Sputinik Brasil
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