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Reação à perda de relevância: por qual motivo os EUA pressionam a África do Sul a deixar o BRICS?
Um dos membros mais tradicionais do BRICS, a África do Sul passou a ser pressionada diretamente pelo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a deixar o grupo. Para especialista, a medida representa uma reação de Washington à perda de relevância e à redução de sua hegemonia global.
Há cerca de um ano, o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, era recebido por Trump na Casa Branca quando uma situação até então considerada incomum na política externa norte-americana ganhou as manchetes. Durante a transmissão do encontro, o líder sul-africano foi questionado sobre um suposto genocídio contra brancos no país, sem que fossem apresentadas provas. Na ocasião, especialistas classificaram o episódio como uma emboscada.
Ao negar as acusações de uma política de Estado para estimular as mortes, Ramaphosa afirmou que esse tipo de crime representa apenas uma pequena parcela da criminalidade no país. Ainda assim, Trump acusou o governo sul-africano de incentivar a "invasão" de terras, em referência à legislação local que permite o confisco de propriedades rurais sem uso em favor do interesse público. O episódio marcou o início de uma nova fase na política externa dos Estados Unidos em relação à África do Sul.
Após o constrangimento público envolvendo Ramaphosa, o país também passou a enfrentar medidas comerciais. Meses depois, Washington impôs uma tarifa de importação de 30% sobre produtos sul-africanos, a mais alta aplicada a um país do continente africano.
E em mais um capítulo da pressão contra Pretória, a mídia local revelou recentemente que os Estados Unidos intensificaram os esforços para que a África do Sul deixe o BRICS. Em reportagem do jornal TimesLIVE, o embaixador norte-americano no país, Leo Brent Bozell, afirmou que Washington estaria "perdendo a paciência". A África do Sul é um dos membros mais tradicionais do grupo e foi responsável pela inclusão da letra S na sigla em 2011, quando o então BRIC passou a incluir o país ao lado de Brasil, Rússia, Índia e China.
A diretora de projetos e pesquisa do BRICS Tech Fórum e especialista em direito internacional público e estudos humanitários, Laura Ludovico, lembra ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, que a pressão norte-americana é uma reação à própria crise sistêmica enfrentada pelos Estados Unidos. "Eles vêm perdendo a sua relevância no cenário global e enxergam o BRICS muito como uma ameaça a essa hegemonia", pontua.
Diante disso, qualquer medida para desestabilizar o grupo será tomada por Washington, incluindo tarifas contra Brasil e China e a pressão cada vez maior em relação à África do Sul, além da própria guerra iniciada no fim de fevereiro contra o Irã, que se juntou ao grupo em 2024. "Então observamos uma estratégia de reivindicação de poder e da relevância global que um dia o país já teve", enfatiza.
Um exemplo disso, conforme a especialista, é a retirada da África do Sul da Lei de Crescimento e Oportunidades para a África (AGOA, na sigla em inglês), programa que concede isenção de tarifas pelos Estados Unidos para a importação de mais de sete mil produtos do continente e que tem renovação anual. Neste ano, inclusive, Pretória deixou de receber o benefício, em uma tentativa que Ludovico classifica como "tentativa de sufocar o comércio e a economia do país por não tomarem a decisão de não alinhamento ao BRICS".
EUA eram o principal parceiro estratégico da África do Sul
Até 2010, os Estados Unidos eram o maior parceiro estratégico para a África do Sul no cenário mundial e, segundo a especialista, esse apoio era até então considerado essencial pelo país africano. "Existia um otimismo em fazer negócio com Washington", resume. Contudo, o que se viu nos anos seguintes foi a China ocupar cada vez mais esse espaço e, com o retorno de Trump ao poder em 2025, o país tentou reagir a isso.
"Mas, especialmente do ano passado para cá, o que vemos é a queda do dólar, além da credibilidade econômica e comercial [dos Estados Unidos]. Então, se eles não conseguem atacar pelo comércio, então vão utilizar outros instrumentos [...]. Só que a África do Sul e o continente africano como um todo sempre se posicionaram de forma muito anti-imperialista, e isso acontece muito também porque o próprio sistema internacional marginalizou muito a região", explica.
Aliado a isso, Ludovico analisa que o alinhamento estratégico sul-africano ao BRICS é visto cada vez mais como uma ameaça à "soberania comercial" dos Estados Unidos, que querem retomar o contexto da Guerra Fria. "Era uma época em que existia um lado e um outro, apenas isso. Mas, com o desenvolvimento dos países, passou a se clamar muito por uma questão multilateral, de vários parceiros e atuações. Então, quando a África do Sul não cede a essas ameaças [como a pressão por se retirar do BRICS], ela acaba tomando um posicionamento".
Em meio a uma encruzilhada criada por Washington, o efeito que o país pretendia com a iniciativa foi justamente o oposto, avalia a pesquisadora: ao perceber que deveria depender cada vez menos do comércio com os Estados Unidos por conta dessa instabilidade, a África do Sul passou a investir na conquista de novos mercados como reação à ameaça.
China e um novo marco nas relações externas sul-africanas
Nos últimos anos, a China se consolidou como maior parceiro comercial da África do Sul e inaugurou um novo marco: uma relação baseada no ganha-ganha, em que ambos os lados são beneficiados. Prova disso são os recentes projetos de transição energética no país financiados por meio do Fundo de Desenvolvimento China-África, além de o investimento chinês no país ter alcançado a cifra recorde de mais de US$ 13 bilhões (R$ 68,4 bilhões).
"Então, a narrativa que vem dessa guerra comercial é que a China é um contraponto aos Estados Unidos, apesar de os dois países estarem jogando o mesmo jogo. A diferença é que a política externa norte-americana é de controle quase total sobre uma nação, que deve inclusive sacrificar parte da sua soberania. Já Pequim tem um plano de longo prazo. O país não vai mandar armas para você, por exemplo, mas vai prestar o apoio que você precisa para não perder a sua soberania. E, no momento, isso dá mais confiança do que um presidente que ataca todo mundo em uma sexta-feira comum", conclui.
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