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Pressão regulatória e cadeias mais complexas impulsionam gestão de riscos de terceiros em 2026

Especialistas apontam que empresas precisarão monitorar fornecedores em tempo quase real para reduzir riscos financeiros, reputacionais e operacionais

Assessoria 16/03/2026
Pressão regulatória e cadeias mais complexas impulsionam gestão de riscos de terceiros em 2026
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

A gestão de riscos de terceiros deve ganhar protagonismo nas estratégias de governança corporativa em 2026. O aumento da complexidade das cadeias de fornecedores, combinado com pressões regulatórias mais rígidas e maior digitalização das operações, tem levado empresas a revisar suas práticas de Third-Party Risk Management (TPRM), que envolve um conjunto de políticas e controles voltados à avaliação e monitoramento de fornecedores e parceiros.

A mudança ocorre em um contexto no qual incidentes envolvendo terceiros, como vazamentos de dados, fraudes societárias ou irregularidades trabalhistas, podem gerar impactos diretos no valor das empresas, no acesso a crédito e na reputação corporativa.

Segundo especialistas em compliance e governança, a tendência é que o TPRM deixe de ser um processo pontual de due diligence para se tornar um sistema contínuo de monitoramento de riscos.

“Hoje as organizações precisam entender riscos em tempo quase real. Incidentes envolvendo fornecedores se propagam rapidamente para clientes finais, mercados financeiros e para a reputação das empresas”, afirma o especialista em governança corporativa, Roberto Gonzalez.

A intensificação das práticas de gestão de risco de terceiros também é resultado de mudanças regulatórias em diversos países. Autoridades têm ampliado exigências relacionadas à governança de fornecedores, especialmente em setores como serviços financeiros, tecnologia e indústrias reguladas.

As normas mais recentes exigem que empresas demonstrem capacidade de triagem, classificação e monitoramento de riscos associados a parceiros estratégicos. Além disso, cresce a expectativa de que organizações mantenham registros documentais detalhados sobre processos de avaliação e decisão relacionados à contratação de fornecedores.

“No setor financeiro, por exemplo, regras ligadas à segurança cibernética, prevenção à lavagem de dinheiro e proteção de dados ampliaram a responsabilização indireta das empresas. Mesmo quando uma atividade é terceirizada, a responsabilidade pela supervisão continua sendo da organização contratante”, afirma Alexandre Pegoraro, CEO da plataforma de compliance Kronoos.

Pegoraro aponta cinco movimentos principais que devem orientar as práticas de gestão de riscos de terceiros nos próximos anos. O primeiro é a substituição de análises pontuais por monitoramento contínuo de fornecedores, com atualização frequente de dados societários, financeiros e reputacionais.

O segundo envolve o uso crescente de plataformas tecnológicas especializadas, capazes de cruzar bases públicas, registros societários, processos judiciais e informações cadastrais para identificar conexões indiretas e potenciais conflitos de interesse. O terceiro pilar é a incorporação de critérios ESG nas avaliações de parceiros. Investidores e consumidores têm pressionado empresas a verificar práticas ambientais, trabalhistas e de governança ao longo de toda a cadeia produtiva.

A cibersegurança de fornecedores aparece como o quarto eixo central. Ataques a empresas terceirizadas têm sido cada vez mais utilizados como porta de entrada para incidentes de grande escala, o que aumenta a exigência por testes de resiliência e padrões mais rigorosos de proteção de dados. Por fim, cresce a necessidade de integração entre áreas internas. Departamentos como compras, compliance, jurídico e tecnologia precisam atuar de forma coordenada para reduzir riscos operacionais decorrentes da fragmentação de processos.

“O avanço da digitalização também torna inviável a gestão manual de riscos de terceiros. O volume de dados disponíveis sobre empresas e suas estruturas societárias exige automação e ferramentas analíticas capazes de consolidar informações de múltiplas fontes”, lembra Pegoraro.

Nesse cenário, soluções baseadas em analytics e inteligência de dados têm ganhado espaço para identificar mudanças societárias, conexões ocultas entre empresas e pessoas físicas, além de sinais de alerta relacionados a reputação, litígios ou exposição financeira. Algoritmos de análise preditiva também começam a ser utilizados para detectar variações relevantes em indicadores financeiros ou reputacionais de fornecedores, permitindo que empresas antecipem potenciais eventos adversos.

A crescente atenção ao risco de terceiros também tem repercussões em processos estratégicos, como fusões e aquisições. Investidores institucionais têm exigido maior transparência sobre a dependência de fornecedores e possíveis riscos ocultos em cadeias de suprimentos. “O TPRM passa a ser visto não apenas como uma prática de compliance, mas como um mecanismo de proteção patrimonial e preservação reputacional”, complementa Gonzalez.

Plataformas especializadas têm surgido para apoiar empresas nesse processo, com a utilização cruzamento de dados societários, históricos empresariais e informações públicas para revelar conexões indiretas entre empresas e pessoas físicas, além de mudanças estruturais que podem representar riscos.

A tecnologia permite também identificar beneficiários finais, mapear estruturas societárias ao longo do tempo e detectar sinais de alerta que muitas vezes passam despercebidos em análises tradicionais. Em um ambiente marcado por maior pressão regulatória e expectativas crescentes de transparência, especialistas apontam que o TPRM em 2026 deixa de ser apenas uma formalidade documental. A tendência é que a gestão de riscos de terceiros se torne cada vez mais baseada em inteligência de dados e integrada às decisões estratégicas das empresas.